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Número 902,

Saúde

Intestino Humano

Fezes bilionárias

por Rogério Tuma publicado 26/05/2016 18h55, última modificação 29/05/2016 09h32
A floresta que regurgita no nosso intestino tem segredos que o governo Obama vai pagar para ver
IstockPhoto
Vírus

" Estamos vivendo na era das bactérias, como sempre foi e como sempre será" Stephen Gould

Aqui os governos estão acostumados a jogar nosso dinheiro latrina abaixo, mas o dos Estados Unidos decidiu gastar mais de 1 bilhão de dólares para estudar as fezes humanas – na verdade o microbioma, coleção de microrganismos vivendo em um habitat, no caso nosso intestino.

Parece piada, mas os milhões de bactérias, vírus e fungos que coabitam nosso trato gastrintestinal interferem e muito em nossa saúde. Vários estudos estão surgindo, confirmando que essa floresta intestinal é mais importante do que se imagina. Seu desbalanço está associado ao desenvolvimento de obesidade, doença cardiovascular, diabetes, esclerose múltipla, artrite e outras doenças. 

A Casa Branca lançou um projeto que custará inicialmente mais de 3 bilhões de reais para entender como o organismo humano interage com sua flora intestinal e se é possível identificar microrganismos que possam dificultar ou facilitar o aparecimento dessas e outras doenças. Empresas não governamentais vão investir outros 400 milhões.

Jo Handelsman, coordenadora da política de Ciência e Tecnologia da administração Obama, diz: “Precisamos alterar microbiomas disfuncionais e torná-los funcionais”. O objetivo é entender a ecologia dos microbiomas em relação a todas as outras formas de vida e, assim, auxiliar no desenvolvimento de aplicações úteis nas áreas de saúde, produção de alimentos e meio ambiente. 

A ideia de que o microbioma interfere na saúde humana é antiga. Porém, até hoje não temos noção de como modificar ou manter o bioma intestinal, alguns são muito resistentes a modificações e outros muito sensíveis. O cientista russo Ilya Mechnikov, em 1900, ingeria litros de iogurte com lactobacilos ativos que logo povoavam o bioma intestinal. Demonstrou que ao parar de ingerir o iogurte, os lactobacilos  logo sumiam de seu intestino. Outro fator importante é que mudar a flora intestinal do jeito que fazemos não parece promover nenhum ganho para a saúde. Transplante de fezes como está sendo feito, de forma exagerada, nos EUA só funciona para um tipo de infecção intestinal específica, ocasionado pela bactéria Clostridium, que aparece com o uso prolongado de antibióticos.

De acordo com a congressista Louise Slaughter, microbiologista em luta contra o uso abusivo de antibióticos, 30 mil americanos morrem todos os anos por causa do uso excessivo e errôneo dos antibióticos que modificam o microbioma, selecionando bactérias mais agressivas e provocando desde diarreias crônicas a infecções mais graves. “Sabemos que eles – os micróbios – estão lá, mas não sabemos o que estão fazendo ali.”

No setor de segurança de alimentos, poderemos desenvolver biomas resistentes a germes que provocam doenças, como Salmonela e E. coli. Como 80% dos antibióticos produzidos são utilizados em animais, encontrar um bioma que habite o intestino de animais que não seja prejudicial aos humanos pode ser uma descoberta  revolucionária. 

Jessica Green, engenheira da Universidade do Oregon, explica que passamos 90% de nossas vidas em ambientes construídos pelo homem e que, em 2050, 70% dos seres humanos viverão em cidades. Segundo Jessica, é uma ilusão acreditar que se simplesmente mudarmos o microbioma de nossa atmosfera local, como dentro de nossas casas, poderemos reduzir doenças alérgicas e infecções respiratórias. Na verdade, quando ventilamos um ambiente de forma não natural os biomas criados possuem mais agentes infecciosos do que em locais com ventilação natural.