Você está aqui: Página Inicial / Revista / Dilma Rousseff / A cidade a seus pés
Número 902,

Cultura

Literatura

A cidade a seus pés

por Redação — publicado 26/05/2016 18h27, última modificação 29/05/2016 09h32
Arquiteto italiano que vem à Festa Literária de Paraty convida à flânerie e demonstra que caminhar pela cidade é uma atitude estética
Mario Tama/ Getty Images/ AFP
Paraty

Os traiçoeiros paralelepípedos de Paraty

arquiteto Francesco Careri (Roma, 1966) talvez tenha dificuldade, nos traiçoeiros paralelepípedos de Paraty, de expor pessoalmente sua tese de que caminhar pode ser uma forma autônoma de arte, um instrumento estético de conhecimento, e a possibilidade de, ao atravessar o espaço físico, transformá-lo ao sabor de uma intervenção humana.

Careri terá, de todo modo, numa cidade que tem história, convidado para a mesa-redonda sobre urbanismo da Festa Literária Internacional de Paraty, a ocasião de discorrer sobre suas pesquisas que relacionam urbanismo e arte, com base na percepção sensorial, direta, in loco, da cidade e também do campo, e a experiência da paisagem, do nomadismo das sociedades primitivas às vanguardas artísticas que peregrinaram através do século XX, com destaque para a land art que começou, americana, em figuras como Richard Long, Riobert Smithson e Tony Smith, nos anos 60 e 70.

iStock_000072087923_Large.jpg
Segundo André Breton, na rua recebo o vento da eventualide. (IstockPhoto)

Tão a sério o arquiteto romano palmilha o território teórico da flânerie que o curso que ministra na Università degli Studi Roma Tre é totalmente peripatético, arrastando seus alunos – a quem ele chama de stalkers, a partir do filme de Andrei Tarkovski em que o espaço irradia a sensação paradoxal do vazio – pelas veredas de fenômenos urbanos inesperados. Desde 1995, Careri destila suas ideias no Laboratorio d’Arte Urbana Stalker/Osservatorio Nomade, mas a rua é a sua verdadeira oficina experimental.

“O ato de atraves

Roma.jpg
Vagar sem objetivo, sem mapa, sem GPS, eis a arte de ocupar o espaço do vazio. (Istockphoto)
sar o espaço nasce da necessidade natural de mover-se para encontrar alimento e as informações necessárias para a própria sobrevivência”, escreve Careri em seu já clássico Walkscapes (publicado em português pela editora GG). “Mas, uma vez satisfeitas as exigências primárias, o caminhar transformou-se numa fórmula simbólica que tem permitido que o homem habite o mundo. Modificando os significados do espaço atravessado, o percurso foi a primeira ação estética que penetrou o território do caos, construindo aí uma nova ordem sobre a qual se tem desenvolvido a arquitetura dos objetos situados”.

Delirium ambulatorium, definia Hélio Oiticica, providencialmente lembrado pela tradutora Paola Berenstein Jacques no prefácio de Walkscapes. “O vazio pleno”, conceito que Oiticica compartilhava com Lygia Clark, conduzia suas errâncias pelos labirintos do Rio. “O artista conheceu todo o subúrbio carioca, tinha o hábito de pegar um ônibus e ir até o ponto final só para ver ‘onde dava’”, ou a pé, pelas ruas, subindo até as favelas, em especial o Morro da Mangueira, e vagando à noite pela cidade dos marginais, o submundo do Mangue, a zona de prostituição.

É nos dadaístas que Francesco Careri vai buscar a semente de suas reflexões, no André Breton de Nadja e de L’Amour Fou e no Louis Aragon de Le Paysan de Paris – e em suas caminhadas que inauguram uma nova forma de antiarte. Aquilo que Careri chama de “o primeiro ready-made do dadá” acontece no dia 14 de abril de 1921, às três da tarde, sob um dilúvio torrencial, quando os membros do movimento se encontram em frente à Igreja de Saint-Julien-le-Pauvre, na Rive Gauche. Buscam inaugurar uma série de excursões em lugares banais de Paris. Uma operação esteticamente consciente, com panfletos, proclamações, comunicados à imprensa, registro fotográfico. O novo ciclo das artes se abre – “a passagem das salas de espetáculo ao ar livre”, festejou Breton. 

livro.jpg
A paisagem das ruas amigáveis em Walkscapes, de Francesco Careri

Embora citem Walter Benjamin, que fez de Charles Baudelaire o gênio capaz de, no século XIX, dotar seus contemporâneos da consciência da modernidade, Careri e seus stalkers não se remetem ao autor de Fleurs du Mal. No entanto, Baudelaire é e sempre será o mais clássico ícone de uma flânerie, a buscar, na Paris pré-Haussmann, dar alma à multidão”, nas palavras de seu virtual companheiro de caminhada. O próprio Baudelaire definiu, como modernidade, “o efêmero, o contingente, a metade da arte cuja outra metade é eterna e imutável”.

Os polos dialéticos da arte são comparáveis com as contradições inesperadas da paisagem. Os pés do peregrino urbano encontram “interrupções e retomadas, fragmentos de cidade construída e de zonas não construídas que se alternam reciprocamente numa contínua paisagem do cheio ao vazio”. Por isso, o convite de Careri é o que os italianos chamam de “andare a zonzo”. Perder tempo vagando sem objetivo. O convite das ruas não cobra do viandante nem mapa nem GPS.