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Número 901,

Saúde

Entrevista - Ricardo Terra

Câncer de pulmão com menos dor

por Riad Younes publicado 22/05/2016 06h35
O sucesso da cirurgia por vídeo é comprovado em pesquisa no Reino Unido. O problema (ainda) é o custo
Câncer de pulmão

A cirurgia de pulmão vem tornando-se menos invasiva

Cirurgias com menor agressividade e trauma no tratamento do câncer tem sido o objeto de atenção de todos as especialidades. Câncer de mama, intestino, próstata, por exemplo, têm sido tratados com cirurgias menos traumatizantes.

O de pulmão segue a mesma filosofia, com introdução de tecnologias avançadas, incluindo a cirurgia robótica. Um estudo recentemente publicado pelo doutor M. Bendixen, da Universidade da Dinamarca, na prestigiosa revista médica Lancet, demonstrou, pela primeira vez, as vantagens do uso de cirurgia por vídeo no tratamento de tumores de pulmão.

Sobre esse estudo e suas implicações no Brasil, falamos com o doutor Ricardo Terra, professor associado da USP e do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), e cirurgião do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e Sírio-Libanês, em São Paulo.

CartaCapital: Quais são os últimos avanços na cirurgia de câncer de pulmão?

Ricardo Terra: A cirurgia de pulmão vem tornando-se menos invasiva e mais precisa, o que implica a retirada apenas das estruturas realmente comprometidas pelo câncer. A tendência é, para tumores pequenos, a realização de uma segmentectomia, que equivale a cerca de um décimo do pulmão. A videocirurgia insere-se neste contexto.

CC: A cirurgia por vídeo mudou drasticamente a abordagem dos pacientes. O mesmo aconteceu na cirurgia torácica?

RT: Sim. O acesso à cavidade torácica é particularmente difícil, pois o tórax é protegido pelas costelas. São necessárias grandes incisões e afastamento costal, que geram dor e recuperação mais difícil.

A videotoracoscopia permite que a cirurgia seja realizada através de três ou quatro pequenos cortes, dispensando o afastamento das costelas. A dor e a reação metabólica ao trauma cirúrgico são minimizadas, com menores taxas de complicações da cirurgia e o tempo de recuperação. 

CC: Como você avalia o trabalho recente da revista Lancet?

RT: O estudo avaliou dor e qualidade de vida após cirurgia para câncer de pulmão, mensuradas ao longo do primeiro ano após a cirurgia. Foram sorteados 103 pacientes para dois grupos de cirurgia: videotoracoscopia ou cirurgia convencional aberta.

Os autores observaram que os escores de dor e de qualidade de vida foram significativamente melhores no grupo submetido à videotoracoscopia. Concluíram que este deveria ser o método de escolha para o tratamento cirúrgico do câncer de pulmão, apesar de não terem sido observadas diferenças quanto à mortalidade.

CC: O que mudou com a videotoracoscopia?

RT:  Agora temos suporte científico para disseminar o uso da cirurgia minimamente invasiva em tórax. Com tal estudo fica mais fácil fundamentar a incorporação dessa técnica às fontes pagadoras. Ou seja, vai influenciar médicos e gestores.

CC: O procedimento é factível aqui? 

RT: No Brasil, alguns cirurgiões já utilizam essa técnica de forma rotineira há anos. Em levantamento que fizemos com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica, observamos que o interesse na videotoracoscopia é muito grande entre nossos cirurgiões.

Quase 70% reportaram ter realizado ao menos uma cirurgia para câncer de pulmão por videotoracoscopia. Contudo, menos de 30% realizam o procedimento de forma rotineira. Muitas são as barreiras para o uso mais amplo da técnica, sendo limitação de acesso a material e falta de treinamento as principais.

O SUS ainda não autoriza o uso de grampeadores endoscópicos para cirurgia torácica, dispositivos essenciais para esse tipo de cirurgia. O acesso no SUS a essa técnica restringe-se a alguns hospitais universitários.

CC: O custo é razoável?

RT: Grande parte dos hospitais brasileiros onde se executa a cirurgia torácica já dispõe de material de vídeo como ópticas e câmeras. O custo adicional está no uso de grampeadores endoscópicos, que são produtos importados, com pesada tributação e oscilações do câmbio.

O custo de uma lobectomia por videotoracoscopia é maior quando comparado a uma cirurgia convencional, porém o procedimento é melhor. Quanto estaríamos dispostos a pagar por algo melhor? Visto que os pacientes não vão mais rotineiramente para a UTI, o tempo de internação é menor e o uso de analgésicos também, esse custo adicional deve ser pequeno.