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Número 901,

Cultura

Protagonista

Berta Loran, a vedete do humor

por Ana Ferraz publicado 23/05/2016 04h11
A atriz celebra em biografia 90 anos de vida
Daniel Marenco/Ag. O Globo
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"Queria ser comediante sem ter de recorrer a "rodelas de ruge para fazer rir"

Na tela prateada do Cinema Moderno, na carioca Praça Tiradentes, Sonja Henie flutua sobre o gelo. Na plateia, Basza Ajs, de 9 anos e meio, acompanha extasiada o balé sobrenatural da patinadora.

Em casa, onde a mãe incumbiu cada um dos seis filhos de uma tarefa doméstica, a menina tem diante de si uma barra de sabão e a louça de todas as refeições. Da mesa para a pia vai num triz. Nos braços, a pilha de pratos, nos pés, patins, pelo caminho, um tombo e a porcelana destruída.

A garota polonesa agora chamada Berta, recém-chegada com a família ao Rio de Janeiro, quer ser a estrela loira da telona. Quer estar no palco. “Você não será nada, você é feia”, brada o pai, alfaiate por profissão e ator dramático em grupos de teatro amador iídiche em Varsóvia e depois no Brasil, ao ouvir a filha de 7 anos manifestar a vontade de ser atriz. Aos 12 anos, tem certeza do caminho a ser trilhado. Insistente, aos 14 ganha um papel num dramalhão dirigido pelo pai, O Dib­buk.

Representa uma avó. Peruca branca, sapatos da mãe a dançar nos pés, atravessa compenetrada o palco quando o salto se parte. Não interrompe a cena, segue com as falas, o andar claudicante. A plateia cai na risada. “Sai daí, sua maluca, você não tem talento”, grita o pai dos bastidores.  Nascia Berta Loran, a comediante. 

Nas celebrações de seus 90 anos de idade, a atriz é objeto da biografia Berta Loran – 90 anos de humor (João Luiz Azevedo, Litteris Editora, 215 págs., 50 reais). No arco da memória, os tempos na Polônia pré-Segunda Guerra Mundial, a vida nova no Brasil, a longa caminhada até o sucesso nos palcos, no cinema e na tevê.

No lançamento do livro em São Paulo, uma demonstração de que a dama do humor continua afiada. Na fila para um autógrafo, um jovem lhe acaricia o ego: “Gosto muito da senhora e do seu trabalho”. Sorriso aberto, ela diz: “Adoro homem”. 

Berta nasceu para fazer graça e achar graça de tudo, ou quase tudo. Com a memória incólume, a vaidade intacta, o corpo e o espírito em desacordo com o registro a apontar o nascimento em 1926, ela percorre os escaninhos do tempo com leveza. Nada lhe deixou mágoas. “Nasci na Rua Mila, 53, onde se formaria o Gueto de Varsóvia.

Dividi um quarto com 14 parentes, entre pai, mãe, irmãos, avós,  tios e dois funcionários a trabalhar na alfaiataria em troca de comida. Meu pai dormia num sofá com as molas todas de fora. Alimento barato era batata e repolho. Minha mãe fazia uma sopa com muito alho e cebola e à noite era uma peidaria daquelas. Eu ria.” 

Em 1922, a pobreza leva o líder da família a Buenos Aires em busca da ajuda de um primo rico, que costumava enviar cartas com retratos de sua vida opulenta. Sem aviso, o alfaiate chega ao elegante endereço.

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Foi preciso talento para conquistar espaço entre as vedetes (Foto: Arquivo pessoal)

“Sobe uma escadaria linda e um mordomo abre a porta. Papai entra num salão com cortinas vermelhas, chão atapetado e umas 30 moças bonitas em robes de seda”, relembra. “Quantas empregadas”, surpreende-se Ajs. Surpreso mesmo fica o tio, que dá mil dólares ao viajante e trata de colocá-lo num navio para o Rio de Janeiro. “Ele não podia dizer ‘eu sou um cafetão, dirijo um bordel e trabalho com putas’.”

Em 1933, a ameaça nazista ganha corpo e o pai de Berta muda-se para o Rio de Janeiro. Em 1937 traz a primeira parte da família. Berta ama tudo logo de cara. O calor, as bananas, o chuveiro, a escola. A menina arteira e respondona estava prestes a empreender uma transformação pessoal e familiar.

“Como eu era a penúltima, os irmãos mais velhos mandavam em mim o tempo todo, tinha de sair para comprar água, cigarros, tudo. Eu detestava e xingava. Ninguém gostava de mim. Até que uma amiga me emprestou o livro Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas. O autor, Dale Carnegie, dizia que, se você fosse boa e gentil, todos gostariam de você.” 

Segue o conselho. Aceita as tarefas com estoicismo e beatitude de fazer inveja à Madre Teresa de Calcutá. Desconfiada, a família convoca reunião em busca de desvendar o mistério. A mãe pacificadora aproveita o momento e condena a atitude grosseira dos irmãos com a espevitada atriz em potencial. “Aos poucos todos mudaram, tanto eu quanto eles. Tudo melhorou.” 

Em 1953, Berta enfrenta a primeira grande plateia no espetáculo Pudim de Ouro, com Mesquitinha e Eros Volúsia, no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes. Conquistar espaço no teatro de revista em tempos de sinuosas vedetes seminuas exigiu mais que as elogiadas pernas torneadas em aulas de balé clássico, jazz e sapateado.

“No princípio me colocaram numa opereta, mas não gostei. Quem fazia sucesso eram as bonitonas Mara Rúbia, Virgínia Lane. Fui para casa, tirei a roupa e olhei no espelho. Eu era muito magra, 53 quilos. ‘Isso tá uma merda, pra vedete não dá. Tenho de ser cômica’.” 

Entre os escritores das revistas estavam grandes nomes, como J. Maia e Max Nunes. “O Maia cismou comigo. Andava atrás de mim e dizia ‘ainda vou comer essa judia’. Eu não entendia nada, não tinha malícia. Até perguntar o que ele queria e aí me convidou para sair à noite. ‘O senhor me respeite, sou casada e minha mãe me ensinou que é um Deus e um homem, dois é anti-higiênico.’ Ele disse ‘está bom, não escrevo mais para você’. Comecei eu mesma a escrever. Tempos depois, em 1980 estreei o show Divirta-se com Berta Loran e fiquei rica.” 

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No colo da mãe, ao lado dos irmãos, na única foto da atriz durante a infância

Na época do assédio, vivia com um homem 30 anos mais velho. “Suchar Handfuss era um grande ator chapliniano, me ensinou muito sobre comédia. Só casei por isso, pois como marido era uma porcaria.” Com o “velho” peregrinou por teatros de Buenos Aires em troca de uns tostões para pagar pensão e um bife duro no almoço. 

Quando Berta arregala os olhos claros e encara a câmera, ironia a perpassar o semblante sério, é difícil segurar o riso. “O segredo do bom comediante é falar uma frase engraçada e não rir.” A atriz de humorísticos históricos das décadas de 1970 e 1980 alimentados por textos ágeis e inteligentes, tais como Balança Mas Não Cai, Faça Humor, Não Faça Guerra, Satiricom, Planeta dos Homens, A Escolinha do Professor Raimundo e Chico Total não se diverte com a televisão de hoje. “Acho pouca graça, não sabem mais escrever.” 

Aprecia comediantes de cara limpa, de preferência de casaca ou smoking. Relembra Danny Kaye, Bob Hope, Red Skelton. “Jerry Lewis eu gostava no tempo em que era bom”, diz ela, que participou do elenco de Até Que a Sorte nos Separe (2013), no qual o astro interpreta um mensageiro de hotel. Entre as mulheres a lhe inspirar a carreira estão Lucille Ball, Carol Burnett e Bette Midler.  

Faz um voo até o passado ao lado das grandes Zezé Macedo, Renata Fronzi e Zilda Cardoso. Admirava as colegas, mas perseguia o ideal de ser comediante sem apelar a “duas rodelas de ruge para fazer rir”.

“Eu queria ser chique, elegante. E fiz isso no meu show Divirta-se com Berta Loran, com troca de sete figurinos vindos de Paris e dois bailarinos do Teatro Municipal. Em três anos economizei 50 mil dólares e comprei um apartamento. Com a temporada em Portugal, onde fui ficar seis meses e permaneci seis anos, adquiri três apartamentos.” 

Entre plumas, brocados e números de dança, Berta encantava a plateia com anedotas. Sem constrangimento revela o hábito de se apropriar de chistes de lavra alheia. “As piadas americanas não têm graça, as inglesas são horríveis, então recorro às espanholas e argentinas. Roubo e adapto.”

Aposentada da Rede Globo, onde fez participação recente no Fantástico, está a postos para uma convocação. Com 75 anos de palco, ainda defende a máxima segundo a qual um ator nunca está pronto e sempre existe outro melhor. “Quando vi Giulietta Masina em A Estrada da Vida saí do cinema e me perguntei ‘quem é você?’ Autocrítica é fundamental.”

*Reportagem publicada originalmente na edição 901 de CartaCapital, com o título "A vedete do humor"

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