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Número 901,

Política

Editorial

A lei do mais forte

por Mino Carta publicado 16/05/2016 04h59
Miúda reflexão sobre a impossibilidade de qualquer tentativa democrática no país da casa-grande e da senzala
Roger Viollet/AFP
Churchill

O grande conservador encararia a casa-grande com profundo desprezo

O Brasil é único. País sem similares no mundo. Por exemplo. Na porção dita democrática e civilizada do globo, a ideologia política, e não somente política por ser de largo espectro, costuma aceitar a clássica dicotomia entre direita e esquerda. Houve mudanças ao longo dos séculos, mas permaneceu a essência destas duas ideias, originárias da posição ocupada pelos partidos, ou facções que fossem, na primeira assembleia parlamentar surgida com a Revolução Francesa. Vale constatar, de saída, que os efeitos desta revolução até hoje não alcançaram o Brasil.

Segundo um respeitabilíssimo pensador, Norberto Bobbio, ser de esquerda hoje significa alimentar uma preponderante e desabrida preocupação social ao mirar na Igualdade, exclusiva premissa à verdadeira Liberdade, a qual, de outra maneira, só favorece a lei do mais forte. A este, garante a total liberdade de agir a seu talante.

A dicotomia à brasileira é absolutamente distinta. É casa-grande e senzala. Nos países ditos civilizados e democráticos sempre se deu a alternância no poder entre direita e esquerda. No Brasil a casa-grande imperou e impera de fio a pavio, mesmo nestes últimos 13 anos de governo tido como de esquerda, no entanto, tão inclinado a agradar aos senhores à guisa de anteparo. Não me deixam mentir figuras como Henrique Meirelles ou Joaquim Levy, Nelson Jobim e Kátia Abreu. E muitos mais, em cargos bem escolhidos.

Na linha da cruz e da caldeirinha, o governo e o PT frearam a atividade sindical enquanto não se furtavam a ridículas tentativas de estabelecer um modus vivendi com a enraivecida mídia nativa. Não foram capazes de tomar medidas democráticas necessárias a coibir as prepotências dos oligopólios midiáticos, a começar pelas Organizações Globo, e falharam pateticamente ao criar a inútil Comissão da Verdade disposta a engolir uma lei de anistia imposta pela ditadura. Enfim, reagiram à manobra golpista, encaminhada logo após as eleições de 2014, de forma morna e mal articulada, a ponto de parecer acovardada. Somente nos últimos lances do processo que a alvejou, Dilma Rousseff soube denunciar o golpe com as palavras precisas, inclusive no seu discurso do dia 12, destinado a grande e merecida repercussão internacional.

Incomoda-me, ao cogitar de outras personagens que já arcaram com papéis de relevo, José Dirceu e Antonio Palocci, uma pergunta inevitável, válida para quaisquer botões de quaisquer cidadãos: existe uma esquerda brasileira? Os meus, ao menos, soletram dúvidas atrozes, embora admitam dignas tentativas corajosamente levadas a cabo no passado para ser aplastradas pelos jagunços da casa-grande. A qual conta com o incentivo e os louvores de muitos ex-pretensos jornalistas de fé esquerdista, prontos a se tornar seus propagandistas sem o mais pálido compromisso com a ética profissional.

Ao pensar que, digamos, sir Winston Churchill foi de direita, formulo outra pergunta aos meus botões: que parentesco haveria entre o grande conservador e a casa-grande? A mesma que existe entre um cavalheiro britânico e um aborígene a viver no estágio da Idade da Pedra Lascada. Notáveis liberais militavam, como tais, à direita, mas não se confunda liberalismo com neoliberalismo, ou melhor, com neoliberismo, palavra mais adequada para definir a tragédia que o mundo enfrenta, incapaz de aviar o remédio.

Os dias de hoje no País revelam que a casa-grande soube aproveitar o momento de crise econômica, as falhas de Dilma Rousseff na condução da tarefa mais propriamente política, as graves responsabilidades do PT por ter abandonado a originária plataforma esquerdista, incapaz de acabar com o equívoco: quem manda é ela, a mansão dos senhores, habilitados a escalar os jagunços mais condizentes ao enredo contingente. Agora são magistrados, parlamentares corruptos, policiais, propagandistas midiáticos, cujos patrões, bem como os empresários em geral, mesmo rentistas, aliás, sobretudo rentistas, são inquilinos de pleno direito.

Não se diga que toda ideologia está ausente no Brasil. Em vigor, desde a fundação da República por meio do golpe, a ideologia patrimonialista, baseada em um poder que descaradamente confunde o público com o privado. Trata-se da concepção patrimonialista do Estado, qual fosse o castelo do senhor feudal, a alongar sua sombra do alto do morro sobre a aldeia dos servos da gleba.

Gostei muito de um recente filme de Quentin Tarantino, Django Livre, devaneio épico de um cineasta de sangue quente. Por aqui, faltam os Djangos. O povo brasileiro vive entre o medo atávico da chibata e a ignorância a que o condenou à casa-grande. Às vezes entrega-se à algazarra futebolística-carnavalesca, eventualmente patrocinada pela Fiesp.