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Número 901,

Internacional

EUA

Trump e a era do imprevisível

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 23/05/2016 04h11
Quem não ficou surpreso com os rumos das eleições norte-americanas não estava bem informado
Brian Snyder/Reuters/Latinstock
Trump

Zombar de Trump é arriscado. Para seus fãs, é ridicularizar a eles e suas queixas

Quando Donald Trump venceu a primária de Indiana, não só Ted Cruz e John Kasich jogaram a toalha, como também os mais sérios e respeitados analistas e cientistas políticos. Em 2015, o portal Huffington Post cobria a campanha de Trump na seção de entretenimento e Nate Silver, estatístico famoso pela precisão de suas previsões nas eleições de 2008 e 2012, via sua vantagem nas pesquisas como uma anomalia temporária, devida à atenção excessiva da mídia às suas bravatas e destinada a se dissolver quando as primárias se iniciassem e a campanha entrasse na fase séria.

Mesmo quando Trump começou a acumular delegados, o estatístico insistiu na falta de endossos das lideranças partidárias, nas votações da ordem de 35% e na rejeição de quase 50% no próprio partido para insistir em que um candidato mais tradicional o superaria quando o número de concorrentes se reduzisse. Se não fosse derrotado nas urnas, o seria na convenção partidária.

O argumento era lógico, mas falhas as premissas. A consistência ideológica do Partido Republicano e de suas bases foram superestimadas. Presumiu-se que a cúpula seria capaz de se unir e organizar por um candidato viável e mais próximo de seus princípios declarados, mas isso não ocorreu.

Pensou-se que suas bases queriam conservadorismo moral e liberalismo econômico, mas seu entusiasmo por um bon vivant hostil ao livre-comércio sugere que a adesão popular aos republicanos é determinada muito mais por ressentimento cultural. 

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Mais que o estilo histriônico, o segredo é apelar ao ressentimento do branco médio (Foto: Kena Betancur/AFP

O programa America First de política internacional Trump deve o nome, no mínimo, ao America First Comittee, campanha filonazista liderada pelo aviador Charles Lindbergh nos anos 1940 contra a intervenção de Washington na Segunda Guerra Mundial.

Mas ainda que sua truculência não equivalha à do Mein Kampf, o princípio é o mesmo, sobrepor o interesse da nação (identificada em certa medida com raça ou religião) à ética, à lei e à ordem internacionais.

O paradoxo é de que neste caso não se trata de um país derrotado e humilhado, mas de um império hegemônico para o qual conviria não desafiar o status quo, mas mantê-lo. O que significa o lema Make America Great Again se os EUA estão longe de perder a supremacia? 

Diminuída foi a camada social que sente ter perdido os privilégios devidos aos cidadãos de uma superpotência. Esse retrocesso relativo é que a aproxima da classe média alemã dos anos 1930.

Lei, ordem, valores rígidos, Estado mínimo e austeridade fiscal podem ser importantes para as lideranças republicanas tradicionais e seus patrocinadores, mas a maioria de seus eleitores tomava essas bandeiras como meras senhas ou vias indiretas para aspirações de supremacia étnica e nacional às quais Trump fala de maneira mais direta.

Seu eleitor típico é um homem branco sem diploma universitário com poucas perspectivas de ascensão social e com uma forte sensação de decadência em relação ao American Dream dos anos 1950, atribuída tanto a políticas sociais e benefícios compensatórios para minorias supostamente desregradas e preguiçosas quanto à avidez das elites financeiras por lucrar com a globalização e a transferência de indústrias e empregos para países mais pobres. 

Esse eleitor não deseja justiça social, se implicar transferência de renda e oportunidades para os menos favorecidos, nem multiculturalismo e inclusão se minam seu sentimento de constituir a “América verdadeira” e poder ditar a normalidade de seu ponto de vista de homem estadunidense cristão e branco.

Mas isso não significa disposição para recusar a ajuda do Estado ou a se portar como um religioso puritano. Quer um governo forte a serviço de seus interesses percebidos no país e no mundo sem poréns, dúvidas ou escrúpulos.

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Trump é o adversário ideal, segundo adeptos de Hillary. A recíproca também é verdadeira (Foto: Eduardo Munoz Alvarez/AFP)

É isso que Trump propõe ao falar de expulsar imigrantes, construir muralhas na fronteira e pôr o poderio dos EUA não a serviço de uma hegemonia duradoura em parceria com as elites globais, mas do máximo de vantagens diretas ao menor custo. Se as importações da China, do México ou da Europa tiram empregos, por que não lhes impor tarifas proibitivas?

Se a “proteção” dos EUA à Europa, Japão e Coreia do Sul custa caro, por que não obrigá-los a pagar mais por ela ou se virarem com a China e a Rússia? Se a dívida nacional é um problema, por que não forçar os credores a aceitar um desconto? Se terroristas nos ameaçam, por que não mandar a lei internacional e a Constituição às favas para matar e torturar seus parentes?

A dificuldade de responder a esse eleitor está no fato de sua percepção ser em parte verdadeira. Os EUA tiveram um crescimento econômico substancial desde os anos 1970 e viram desaparecer seu único rival geopolítico, mas só as elites e as classes médias superiores lucraram. O salário masculino mediano estagnou-se e as exigências aumentaram.

A maior incorporação das mulheres ao mercado de trabalho e a redução da diferença salarial em relação aos homens proporcionaram um crescimento limitado da renda familiar média à custa do ideal patriarcal, mas esse efeito esgotou-se na virada do milênio. 

O mal-estar não é tão diferente entre os democratas. Na média das primárias, Bernie Sanders obteve porcentagens similares às de Trump, na maioria das mesmas camadas, embora ofereça diagnósticos e propostas mais inclusivas. A simetria só não é exata porque a liderança democrata conseguiu unir-se em torno de uma candidata.

Hillary Clinton conta ainda com a fidelidade das minorias negra e latina, que a veem como protetora de seus interesses. A maioria das pesquisas indicava vantagem da democrata sobre Trump da ordem de 6%, em média, logo após Indiana, mas esta caiu para 1% dias depois. À parte possíveis denúncias e complicações internacionais capazes de prejudicar a imagem de Hillary, o ambiente político tornou-se menos previsível. Confiar demais na razão e subestimar o adversário pode lhe ser fatal.

Seus primeiros anúncios após a confirmação de Trump como candidato usaram as próprias declarações do republicano. São constrangedoras a ouvidos democratas e liberais, mas e do outro lado? Corre o risco de sinalizar arrogância e pregar apenas a convertidos. Ignorar ou ridicularizar Trump não deu bons resultados a seus rivais republicanos, pois para seus admiradores equivale a ignorar e ridicularizar suas queixas, cujo fundo é real. 

Analistas e estatísticos deram demasiada importância a seu alto índice de desaprovação, que se mostrou muito volátil. O candidato supostamente inaceitável para metade dos eleitores do próprio partido obteve 53% na primária mais recente e uma maioria nacional de republicanos favorável à sua indicação nas pesquisas de opinião.

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Sanders fala às mesmas camadas sensíveis a Trump. Mas só Hillary tem apoio da cúpula (Foto: Rob Kerr/AFP)

Hillary tem hoje uma rejeição menor, mas também alta e aparentemente mais consolidada. Ambos têm popularidade líquida negativa em níveis recordes para candidatos presidenciais, -21% para a democrata (37% a rejeitam) e -40% para o republicano (53% absolutamente contrários, índice que chegou a ser de 63%). Os democratas dizem que Trump é o adversário ideal, mas os republicanos podem dizer o mesmo de Hillary. É uma situação inédita, nas quais as regras usuais podem não se aplicar. 

A desistência dos rivais pôs a maioria dos líderes republicanos ao lado de Trump, mas não todos. Jeb Bush anunciou que não votará nele (nem em Hillary) e o líder do partido na Câmara, Paul Ryan, disse “não estar preparado” para apoiá-lo, assim como o candidato de 2012, Mitt Romney. É insólito líderes e congressistas dessa importância recusarem apoio ao candidato presidencial e mesmo que não passem de 10%, fazem diferença. 

Por outro lado, não se sabe quantos dos entusiásticos militantes de Sanders respaldarão Hillary. Existe um movimento Bernie or Bust, ou seja, “Bernie ou Nada”, e um número não desprezível de seus eleitores prefere Trump a Hillary. Sanders quer continuar a disputa até a convenção e nada tem a negociar com a rival, pois sua meta é viabilizar uma alternativa social-democrata a longo prazo.

O máximo que ela pode esperar de sua parte é um apoio crítico como “mal menor”. Hillary não tem como usar a maior crítica dos republicanos a Trump, que é a de não ser conservador o suficiente, mas este pode, como Sanders, acusar a rival de conspirar com a elite financeira global e envolver o país em guerras desastrosas. 

O que esperar de um eventual governo Trump? Os republicanos têm se mostrado menos rebeldes nas primárias para senadores e governadores e confirmam nomes do establishment. Mesmo com maioria no Congresso e propensões autoritárias, dificilmente ele poderá bater de frente com a ortodoxia em questões econômicas e financeiras internas. Quanto à segurança, defesa e relações exteriores a Casa Branca costuma, porém, dispor de bastante autonomia. 

O discurso de Trump não é belicoso em sentido estrito e soa até menos intervencionista que o de Hillary. A se acreditar nele, talvez reduza o envolvimento militar no exterior. Entretanto, parece disposto a cumprir suas promessas quanto a barrar a entrada de imigrantes, perseguir muçulmanos, promover o rearmamento unilateral e deflagrar guerras comerciais capazes de muito estrago a uma economia mundial fragilizada, além de quebrar as pernas aos esforços de cooperação internacional e estimular o nacionalismo, o populismo de direita, a corrida armamentista e a radicalização em várias partes do mundo. É um fator de instabilidade a tornar o mundo ainda menos previsível.

*Reportagem publicada originalmente na edição 901 de CartaCapital, com o título "A era do imprevisível"