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Número 900,

Economia

Comércio

Exportações, saída para a crise?

por Carlos Drummond publicado 13/05/2016 17h34, última modificação 14/05/2016 18h43
O superávit comercial é recorde, mas a incerteza política e a volatilidade cambial dificultam as projeções
Exportação

Parte do bom desempenho das vendas externas é circunstancial

O superávit comercial de 4,86 bilhões de dólares em abril, anunciado na segunda-feira 2 pelo ministro Armando Monteiro, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, elevou o saldo positivo acumulado de janeiro a abril para 13,25 bilhões, o maior no período desde 1989. No dia seguinte, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou o aumento da produção da indústria, de 1,4% em março depois de uma queda de 2,7% no mês anterior.

Os dados do comércio exterior e da indústria, somados a indicadores positivos de inflação, horas trabalhadas, uso da capacidade instalada e faturamento, entre outros, melhoraram a expectativa dos empresários, mas a volatilidade do câmbio, o cenário político e a conjuntura internacional mantêm a incerteza.

“Paramos de cair, mas não dá para dizer se é uma tendência. O ambiente político tem de estabilizar, não é só substituir Dilma, é preciso saber se Temer continuará ou vai virar a bola da vez. Depende ainda do Henrique Meirelles, cotado para a Fazenda, não repetir a sua atuação anterior, de levar a uma enorme valorização do real, o que mataria as exportações”, analisa Mario Bernadini, diretor da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos. 

Parte do bom desempenho das vendas externas é circunstancial. “Há um aumento dos preços da soja e do petróleo, puramente por conta de especulação. O mercado internacional está líquido, os fundos têm dinheiro e não sabem onde aplicar, então puxam as commodities”, segundo José Augusto de Castro, da Associação Brasileira das Empresas Exportadoras.

Com base no desempenho das exportações, o governo revisou a projeção de superávit comercial deste ano, de 35 bilhões de dólares para entre 45 bilhões e 50 bilhões. “Neste ano o superávit será o dobro dos 20 bilhões de 2015, mas com fortíssima queda das importações por causa da redução do nível de atividade”, destaca Castro.

Armando Monteiro
Monteiro apresentou saldo de 13,5 bilhões de dólares em quatro meses, o maior desde 1989 (Foto: Wilson Dias/ABr)

Aumentar as vendas do País é indispensável, porém o crescimento do fluxo de comércio é mais importante, concordaram Antônio Maciel Neto, presidente do Grupo Caoa, e Demian Fiocca, sócio da Mare Investimentos, no Diálogos Capitais Fórum Brasil: Como retomar o crescimento, realizado em março por CartaCapital.

Exportações e indústria dependem de uma taxa de câmbio competitiva estável. A cotação de 2,69 reais por dólar em janeiro de 2015 chegou a 4,04 reais no mesmo mês deste ano e fechou abril em 3,45 reais. Ao meio-dia da quarta-feira 4, oscilava em torno de 3,54 reais.

A relação considerada competitiva gira em torno de 3,80 reais por dólar. “Está mais para 3,30 do que para 4 reais. O cenário mudou muito. A conjuntura internacional está fraca e a nossa, fraquíssima”, avalia Castro.

Manter o câmbio competitivo é o maior desafio para a retomada do crescimento, mostra a devastação da indústria pelo real valorizado desde os anos 1990. “No Brasil, qualquer processo de desvalorização cambial está sujeito à reversão, uma vez que a economia é extremamente sensível aos efeitos do ciclo de liquidez internacional e permeável à especulação financeira”, analisa o economista Pedro Rossi, da Unicamp.

“Os juros muito altos, somados aos derivativos, tornam a taxa entre o real e o dólar uma das mais voláteis do sistema internacional e impedem seu uso como ferramenta para o desenvolvimento.” Sem mudanças institucionais e regulatórias, diz, o câmbio não se sustenta. A principal medida é reduzir a simetria entre os mercados futuro e à vista, ou onerar as posições a futuro.

“Com liberdade de operações no último segmento, os agentes escapam à regulação mais forte das transações à vista, explica Rossi. E há incentivos muito fortes para operação de carry trade”, de ganhos com o diferencial de juros interno e externo, proporcionais à alta dos juros e do dólar.

O próximo passo do governo na frente externa será o início, anunciado pelo Ministério do Desenvolvimento para a quarta-feira 11, da troca de ofertas com a União Europeia, com vista a um acordo de comércio, direitos autorais e patentes e à inserção do País na esfera do Tratado Transatlântico (TTIP, em inglês), entre os Estados Unidos e a UE.

Castro
Parte do aumento dos preços da soja e do petróleo é especulação (Foto: Sérgio Neves/Estadão Conteúdo)

Apesar da possível perda de 3% do PIB de 14 setores com o rebaixamento de tarifas e outras cláusulas, segundo um estudo da Confederação Nacional da Indústria, o entendimento conta com apoio de governo, oposição e empresários. Os maiores prejuízos recairão sobre a sociedade, informada por uma mídia restrita à versão oficial.

Grandes manifestações contra o TTIP se sucedem na Alemanha e outros países europeus. Nos Estados Unidos, o similar Tratado Transpacífico, o TPP, com Japão, México, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Malásia, Cingapura, Vietnã, Brunei, Chile e Peru, está sob risco, apesar do empenho do presidente Barak Obama.

O virtual candidato republicano Donald Trump condenou as importações baratas e ameaçou elevar tarifas, uma afronta ao tratado. Hillary Clinton passou de apoiadora a crítica do TPP e a oposição de Bernie Sandres aos acordos de livre-comércio ajudou-o a vencer em vários estados.

A postura dos partidos reflete “um forte sentimento antilivre-comércio nas bases”, afirma Martin Khor, diretor-executivo do South Centre, organização intergovernamental de apoio à promoção internacional dos interesses comuns aos países em desenvolvimento. “Se até os EUA têm dúvidas crescentes sobre os benefícios do livre-comércio, os países menos poderosos deveriam fazer uma avaliação mais realista da liberalização do comércio.”

Para o ex-secretário do Tesouro Lawrence Summers, há no Ocidente uma revolta em marcha contra a integração global. “O motivo é a percepção de que se trata de um projeto conduzido pelas elites para as elites, com pouca consideração com os interesses das pessoas comuns.”

O rótulo de um entendimento comercial oculta o principal objetivo dos tratados, institucionalizar cortes arbitrais internacionais com poder de obrigar Estados Nacionais a aplicar decisões favoráveis às empresas globais.

Mario Bernardini
É preciso saber se Temer continuará e Meirelles valorizará o câmbio (Foto: Sérgio Neves/Estadão Conteúdo)

No mês passado, 90 mil alemães tomaram as ruas de Hannover para protestar contra o TTIP durante a visita de Obama para discutir os termos do tratado com Angela Merkel. Segundo os manifestantes, o aumento do poder das empresas rebaixará salários, enfraquecerá os direitos trabalhistas e a proteção ao meio ambiente. O oposto de criar milhões de empregos e estimular o comércio com o rebaixamento das tarifas, segundo defende o presidente dos EUA. 

Decisões de cortes arbitrais internacionais favoráveis às empresas se tornarão corriqueiras no caso da aprovação dos tratados. Em uma dessas deliberações, a Philip Morris processou o Uruguai por prejuízos impostos pela queda das vendas decorrente da propaganda governamental sobre as doenças provocadas pelo tabaco.

A empresa obteve ainda sentença contra o governo australiano por regras para a embalagem dos produtos. A sueca Battenfal moveu uma ação contra a Alemanha, depois do fechamento da sua planta de energia nuclear. Uma companhia francesa ingressou em tribunal internacional contra o governo do Egito, por aumento do salário mínimo.

Negociados entre representantes empresariais e de governos, os acordos dependem das aprovações dos Parlamentos para entrar em vigor.

“Durante décadas, o Ocidente pressionou os países em desenvolvimento para liberalizar o comércio. Poucos deles, na maioria asiáticos, administraram cuidadosamente a abertura e dela extraíram benefícios com a exportação de industrializados. É uma ironia os Estados Unidos enfrentarem uma oposição interna à sua lógica de livre-comércio”, analisa Martin Khor. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 900 de CartaCapital, com o título "Balança favorável"