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Número 899,

Economia

Inovação

O setor privado, por conta própria

por Juliana Elias — publicado 09/05/2016 03h49
Empresas compensam em parte os cortes no orçamento público
Humberto Teski
Herd

O projeto no Rio de Janeiro não será interrompido, garante Herd, da GE

Há um mês, o presidente mundial da General Electric, Jeff Immelt, visitou o País para avaliar as perspectivas dos negócios da empresa, líder em tecnologia e inovação no setor. Dois anos atrás, o executivo anunciara, no Rio de Janeiro, um programa de investimentos de 500 milhões de dólares, ou 3,5 bilhões de reais, até 2020, no quinto centro de pesquisas global do grupo, na Ilha do Fundão. Entre as duas visitas, a economia mergulhou numa recessão profunda e foi atingida por uma crise política.

Havia razões de sobra para esperar o anúncio da postergação ou, ao menos, da diluição dos recursos em um prazo superior ao previsto. Nada disso ocorreu. “Foi uma grande notícia para nós, quando o presidente disse que nenhum dos nossos programas seria interrompido”, testemunhou Kenneth Herd, responsável pelo centro. Immelt garantiu, na subsidiária carioca: “A indústria sofrerá uma parada, mas estamos aqui para o longo prazo”.

Presente em mais de cem países, a GE tem 23 fábricas no Brasil e integra o elenco de grupos mundiais norteados por perspectivas de longo prazo. Sólidas e com capital próprio suficiente para garantir a continuidade das suas estratégias apesar da crise mundial, destoam da escassez imposta pelos cortes orçamentários governamentais à rede nacional de universidades, institutos e pequenas e médias empresas, dependentes dos incentivos públicos. 

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Nos últimos dois anos, o total de pedidos de patentes no País acumulou uma queda de 8%. O declínio anula o crescimento contínuo dos sete anos anteriores. Neste ano, não há sinais de melhora. O corte de 25% no Orçamento, anunciado pelo governo no fim de março, retirou 1 bilhão de reais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e restou uma verba inferior a 4 bilhões. É menos da metade dos 8,2 bilhões recebidos pela pasta em 2015. 

“Inovação é um gasto que embute um risco muito alto e só investem aqueles em condições de bancar a si próprios”, afirma Roberto Mayer, presidente da Associação Nacional das Empresas de Tecnologia da Informação, Software e Internet. Segundo o censo anual feito pela entidade, o total de companhias sem previsão de investimentos em pesquisa e desenvolvimento aumentou de 22%, em 2014, para 25% no ano passado. “Cerca de 90% das firmas de tecnologia da informação têm faturamento inferior a 5 milhões de reais por ano. Por isso, o apoio do governo é fundamental.” 

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Para Conejo, da Samsung, inovação exige massa crítica (Foto: Gustavo Lourenção)

As isenções de impostos e os financiamentos subsidiados concedidos pelo governo são pouco efetivos e inibem inovações mais ousadas, defendem alguns participantes do setor. “Mesmo quando obtemos juros mais baixos, em algum momento eles deverão ser pagos e a firma só investirá se estiver muito segura da perspectiva de retorno”, diz Paulo Mol, superintendente de inovação da Confederação Nacional da Indústria. “Nos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra, entre outros países, é comum os governos oferecerem bolsas de pesquisa a fundo perdido para empresas, nos mesmos padrões daquelas concedidas às universidades.” 

A cadeia produtiva de óleo e gás, um dos motivos da instalação do centro da GE próximo à área do pré-sal, entrou em crise profunda e há o risco de um retrocesso. “Continua uma prioridade, mas estamos presentes também em outras frentes”, informa Herd. As atividades incluem os setores de energia, mineração e saúde. Além de sofrer os efeitos da recessão, o segmento foi atingido pela Operação Lava Jato, uma das causas da paralisação dos investimentos da Petrobras.

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A estagnação global e a queda do preço do barril de petróleo contribuíram com o colapso. “O País constituiu uma ampla estrutura de capacitação e inovação sob a coordenação da Petrobras. As empresas estrangeiras do regime de partilha do pré-sal montaram laboratórios para pesquisa básica, mais importantes em comparação àqueles destinados à pesquisa voltada só para a adaptação de produtos ao nosso mercado interno. Agora, tudo isso corre risco de ser comprometido”, preocupa-se Carlos Frederico Rocha, diretor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.  

Os cortes de orçamento afetam tudo. Jovens estudantes no exterior veem-se obrigados a retornar, equipes são reduzidas, há uma crise absurda causada pela redução de recursos no âmbito federal e nos estados”, descreve Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. A pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo foi uma das representantes do setor acadêmico na elaboração do novo marco legal da Ciência, Tecnologia e Inovação, criado pela Lei no 13.243, promulgada em janeiro.

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Para Conejo, da Samsung, inovação exige massa crítica (Foto: Gustavo Lourenção)

 

O dispositivo promove ajustes em questões antes difusas ou pendentes, incluídas as normas de licitação das instituições públicas, as condições de importação e as permissões para compartilhamento de professores entre universidades e empresas. O governo reexamina alguns aspectos questionados pela comunidade científica e por empresários, mas a recepção geral foi positiva e renovou as expectativas de, após a crise, reunirem-se as condições necessárias a um novo salto de qualidade em P&D. “O Brasil avançou muito e tem uma ciência de bom nível, mas em inovação ainda estamos mal. Quer dizer, nem tudo aquilo produzido pela ciência é convertido em prática. Muito disso pode ser melhorado só com um ambiente de planejamento.”

Alguns números confirmam o bom desempenho da atividade. Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento cresceram cerca de quatro vezes entre 2003 e 2013, de 9,3 bilhões para 36,7 bilhões de reais. Enquanto proporção do PIB, passaram de 1% para 1,24%. Comparado ao de países similares, o porcentual é relevante. Na Argentina, a taxa é de 0,59%, no México 0,50%, e no Chile 0,39%. Diante dos mais avançados em tecnologia, entretanto, o Brasil está na metade do caminho. A média dos 34 integrantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico é de 2,37%. Na Coreia, os recursos destinados a P&D correspondem a 4,15% do PIB. 

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A relação entre universidade e empresa é fundamental, segundo Zancul, da USP (Foto: Gustavo Lourenção)

Para o professor Eduardo Zancul, da Universidade de São Paulo, o Brasil tem profissionais e uma pesquisa científica de alto nível, mas precisa converter a atividade em algo a ser usado na vida. “A aproximação entre empresa e academia é fundamental.” Zancul é vice-coordenador do InovaLab Poli, laboratório compartilhado da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Na quinta-feira 14, a faculdade e a Samsung inauguraram o Ocean USP – Centro de Capacitação de Desenvolvedores, integrante do programa mundial da companhia para oferecer cursos de formação em tecnologias e técnicas de negócios e empreendedorismo.

O ensino compreende programação para o sistema Android e a Internet das Coisas, IoT, conexão de automóveis, eletrodomésticos e equipamentos urbanos, entre outros, à rede mundial. “É uma iniciativa aberta à comunidade. Não temos a meta de gerar produtos ou formar profissionais para a companhia”, explicou o gerente de Inovação da Samsung, Eduardo Conejo. “Inovação se faz com pesquisa, que exige massa crítica ao redor. Nosso ganho é subliminar, é estar perto de onde as coisas acontecem.”

A Samsung tem duas fábricas e dois outros centros de P&D no País. O projeto Ocean começou há dois anos, com um centro de estudos na Universidade Estadual do Amazonas, em Manaus. A atividade da empresa em pesquisa e desenvolvimento continuará, apesar da conjuntura econômica e política desfavorável. “O Brasil é um polo de referência para nós, representa uma parcela significativa das vendas. O momento é atípico, temporário. Isso passa.” 

*Reportagem publicada originalmente na edição 899 de CartaCapital, com o título "Por conta própria"