Você está aqui: Página Inicial / Revista / O surfista do golpe / "Não haverá aqui uma paz com impunidade"
Número 899,

Internacional

Entrevista - Juan Manuel Santos

"Não haverá aqui uma paz com impunidade"

por Marsílea Gombata publicado 10/05/2016 03h43
O acordo com a guerrilha é alvo de mentiras, diz o presidente da Colômbia em entrevista exclusiva
Guillermo Legaria/AFP
Juan Manuel Santos

O presidente colombiano aposta nas negociações

Com a condição de não comentar o processo de impeachment da colega brasileira Dilma Rousseff, Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia, concedeu rápida entrevista durante um voo entre Bogotá e Manta, no Equador, onde foi prestar apoio humanitário às vítimas do terremoto que deixou mais de 600 mortos e causou prejuízos estimados em 3 bilhões de dólares.

Segundo Santos, a queda do apoio em seu país ao acordo com as guerrilhas, de 67% para 54% – aponta uma pesquisa Gallup realizada em março –, deriva de uma campanha de mentiras da oposição. “Todos os dias eles desinformam e inventam coisas.” O colombiano acredita, porém, que no fim do processo receberá o respaldo majoritário da população.

CartaCapital: Pesquisas de opinião mostram que há pouca confiança no processo de paz em curso com as Farc e com o ELN. Como ganhar o apoio da população?

Juan Manuel Santos: Na medida em que os colombianos se derem conta do que realmente se trata o acordo, vão apoiar com entusiasmo o processo. Acontece que houve muita desinformação e muitas mentiras sobre o processo. Mas estou absolutamente convencido de que quando chegarmos ao final haverá um respaldo muito importante e majoritário do povo.

CC: O senhor refere-se a quais mentiras? Da mídia?

JMS: Mentiras lançadas pelos opositores, que há mais de quatro anos, todos os dias, desinformam e inventam coisas que nada têm a ver com a realidade. Isso gerou incertezas entre a população.

CC: Como lidar com temas delicados, como Justiça e reinserção dos guerrilheiros na sociedade? O que querem as guerrilhas uma vez que deixem as armas?

JMS: Eles querem reinserir-se na vida civil, e os máximos responsáveis por crimes de guerra e lesa-humanidade serão investigados, julgados, condenados e punidos perante a lei. Assim, não haverá aqui uma paz com impunidade. Para os máximos responsáveis é o que a Justiça de transição estabelece, para permitir que conflitos como o colombiano encontrem formas de terminar.

CC: Hoje, os diálogos de paz estão maduros, em uma fase de se definir a entrega de armas. Qual foi o momento mais difícil do processo?

JMS: O ponto mais difícil do processo foi o da justiça. E esse tem sido, em todos os processos de paz ao redor do mundo, um dos temas mais complicados. E fizemos realmente um avanço sem precedentes: é a primeira vez que um conflito armado se resolve com as vítimas no centro das soluções. É a primeira vez que as duas partes do conflito acordam um sistema especial de Justiça. É a primeira vez que um grupo insurgente entrega as armas e submete seus máximos responsáveis a um sistema de Justiça.

CC: As guerrilhas na Colômbia e no mundo são hoje anacrônicas. Por outro lado, as razões que levaram ao surgimento desses grupos ainda persistem, como a desigualdade relacionada à questão agrária. Como entender isso?

JMS: Se um grupo justifica a violência pela existência da pobreza e desigualdade, então o mundo inteiro deveria estar em guerra. Não creio que essas razões objetivas justifiquem a violência. E, felizmente, a guerrilha deu-se conta de que por meio da violência não conseguiria nada do que buscava. 

registrado em: , ,