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Número 898,

Sociedade

Papinho Gourmet

Pediu, chegou

por Marcio Alemão publicado 02/05/2016 04h14, última modificação 02/05/2016 04h14
A solução para um Brasil moderno, grande, rico, está na mão das startups.
Ilustração: Estella Maris Foto: Istockphoto
Papinho Gourmet

A comida chega, não dá para comer, mas chega

–Sucesso louco esses aplicativos de pedir comida, não?

– E merecido. Agora você pode pedir aquela coxinha especial que fica a 46 quilômetros de sua casa e ela chega.

– Quando chega, não dá pra comer, mas chega.

– O aplicativo não se responsabiliza pela qualidade da entrega.

– Os aplicativos não se responsabilizam por nada.

– Daí o sucesso.

– Vou mais longe: a solução para um Brasil moderno, grande, rico, está na mão das startups.

– Bem colocado. Tenho reparado, mesmo, que toda semana tem uma matéria de um jovem ao lado de uma bicicleta, com uma mochila bacana, sentado em lótus, que teve a ideia de fazer um consórcio de máquinas de café espresso sustentáveis, que com um toque no celular se transforma em uma bicicleta e promove a ocupação urbana feliz, além de distribuir terras agricultáveis.

– E para isso eles começaram com um empréstimo de 250 reais e hoje, três semanas depois, já estão com ações na Nasdaq e até plantam azeite na Serra da Mantiqueira 

– E devem usar o aplicativo para pedir comida peruana direto no Astrid & Gastón.

– Bom ter falado nisso. Li num caderno de gastronomia uma dica fundamental: ceviche tem de ser fresco.

– Sério? Então deve ser por isso que eu não me entendia muito bem com esse cultuado prato. Os meus estavam sempre já com forte cheiro.

– Pra isso serve a imprensa.

– E sobre o açougue do Alex, algum comentário?

– Caro.

– E o que mais?

– Ambiente bonitão.

– E o que mais?

– Caro.

– Arquiteto tem sido mais importante em restaurante do que o chef.

– Lugar bonito atrai gente bonita e no final da conta, tirando o serviço, a maioria ainda vai para ver e ser vista.

– Alguém explica, falando nisso, o Paris 6?

– É mais misterioso que a construção das pirâmides, até porque o local é feio.

– Feio para você. Para quem nunca foi a Paris pode ser encantador.

– Tens razão. A Torre Eiffel de Las Vegas deve atrair mais gente que a verdadeira.

– Voltando para o início do papo, quem usaria o aplicativo de comida pra pedir no Paris 6?

– Ninguém, posto que a comida não é o assunto do lugar. Ainda no aplicativo: já teve o prazer de receber um hambúrguer em ordem?

– Nunca. E muito menos a batata frita e muito menos pizza de muçarela.

– Um aplicativo que ensine o que pode e o que não pode ser pedido?

– Esquece. O assunto é a ferramenta e não o conteúdo.