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Número 898,

Saúde

Entrevista

Novo olhar sobre o câncer

por Riad Younes publicado 29/04/2016 13h38
Como o progresso da patologia pode distinguir com maior precisão o que é maligno do que não é
Skeeze/ Pixabay
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As pesquisas sobre os diagnósticos da doença avançam

Sobre o câncer, certezas de passado muito recente estão se modificando, com enorme impacto no diagnóstico e no tratamento dos pacientes. Há poucos dias, um estudo publicado na prestigiosa revista científica Jama teve repercussão mundial tanto nos meios médicos quanto na imprensa leiga. Liderado pelo doutor Yuri Nikiforov, professor de Patologia da Universidade de Pittsburgh, uma equipe internacional de 27 especialistas, incluindo o doutor Venancio Alves, professor da USP e chefe de Patologia do Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, redefiniu um grupo de tumores de tireoide como não maligno. 

O impacto dessa pesquisa foi tão grande pela possibilidade de evitar o rótulo e a inconveniência de pacientes serem tratados agressivamente por tumores com mínimo potencial agressivo. Conversamos com o doutor Venancio sobre essa nova era da patologia na oncologia mundial.

CartaCapital: Qual a perspectiva desse estudo para o futuro?

Venancio Alves: O grupo multidisciplinar de especialistas responsáveis por esse trabalho ressalta a importância de estudos futuros para a validação de achados em nível internacional mais amplo. O próprio tratamento cirúrgico dessas lesões poderá ser menos extenso (tirar parte da tireoide e não sua totalidade), evitando-se também a aplicação de iodo radioativo na maioria dos casos, impedindo sérios efeitos colaterais potenciais.  

CC: O que mudou na patologia recentemente que a tornou fundamental em câncer?

VA: Essa publicação na Jama exemplifica o novo papel da patologia na atual era de abordagem multidisciplinar ao diagnóstico e ao tratamento de tumores malignos. A identificação de lesões pequenas, tanto por métodos de imagem como por endoscopia, permite agora a retirada de amostras de células isoladas (citopatologia) ou de fragmentos de tecido (histopatologia) ainda em fase muito precoce, permitindo tratamentos mais conservadores e mais curativos. O patologista assume papel essencial na seleção de casos em que o padrão morfológico exige a complementação do estudo por métodos moleculares mais sofisticados. Assim, a partir de pequena amostra de parte mais representativa de um câncer, o patologista seleciona a análise molecular, integrando os resultados de modo a gerar conclusões úteis para decisões terapêuticas por clínicos e cirurgiões.

CC: Quais as principais inovações tecnológicas da Anatomia Patológica e seu novo papel na era de altos custos do tratamento de câncer?

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Doutor Venancio: "o desafio é entender a doença caso a caso"

VA: A patologia morfológica quantitativa e a patologia molecular são aspectos centrais da nova oncologia. Amostras processadas em condições mais próximas do ideal e a automação do preparo preciso das biópsias oferecem condições para o aumento substancial na velocidade e no controle da qualidade dos exames. 

A digitalização de imagens e os novos softwares de apoio à análise pelo patologista agilizam e aumentam a precisão da quantificação e da seleção de moléculas de interesse em cada componente do tecido representado na análise. 

As novas técnicas de sequenciamento gênico, mais rápidas, de alta precisão, permitem agora a análise simultânea de muitos eventos genéticos. Sua compreensão no contexto clínico-patológico tem se mostrado muito promissora na seleção de novas e eficazes estratégias de tratamento. 

CC: Por exemplo, na introdução da imuno-oncologia em câncer?

VA: Exatamente. O estudo da resposta imunológica do paciente aos tumores já começa a explicar o comportamento clínico extremamente variado de cada paciente diante das doenças. Novos medicamentos já ficaram disponíveis na rotina, nos últimos meses, graças ao intenso estudo patológico dos tumores malignos.

Todos esses avanços já começam a demonstrar que novos investimentos relativamente pequenos nesta abordagem multidisciplinar, na qual a patologia é um elemento central, permitem análises conclusivas, selecionando as condições em que os novos alvos moleculares da terapia individualizada são otimizados, reduzindo a exposição de pacientes a riscos de efeitos colaterais muito danosos e prevendo o melhor benefício do uso de medicamentos de alto custo.