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Número 897,

Cultura

Teatro

Balé das pernas tortas

por Alvaro Machado — publicado 26/04/2016 03h59
Em sua septuagésima peça, o norte-americano Bob Wilson dramatiza a alegria e a tragédia de Garrincha
Hsu Ping/Estadão Conteúdo e Zé Carlos Barreta
Garrincha

Garrincha, cujo universo vem interpretado por Jhe Oliveira e Dandara Mariana, entre 16 atores

ponta-direita que “ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas”, nas palavras do poeta Carlos Drummond de Andrade, continua a ditar história. Trinta e três anos após sua morte, Garrincha torna-se tema de espetáculo pelas mãos do diretor norte-americano Bob Wilson, 74 anos, um dos raros nomes a borrar as fronteiras entre vida e lenda na história do teatro.

O texano de 1,90 metro de altura mantém ativo, em seu Centro de Artes Watermill, no estado de Nova York, um dínamo criativo capaz de estrear, somente em 2015, exuberante adaptação dos contos de fada de Alexander Púshkin, em Moscou, e versão para o Fausto de J. W. Goethe no mítico teatro Berliner Ensemble, em Berlim.

Paradigmas nacionais das literaturas alemã e russa, Goethe e Pushkin correspondem, de certo modo, ao foco lançado ao futebolista Manuel dos Santos. “De certa maneira, Garrincha é um deus de seu tempo, e, assim como os gregos chegavam ao teatro sabedores do caráter dos personagens da tragédia, todos aqui conhecem sua trajetória”, considera o encenador.

“Ele foi um deus do movimento, comparável aos bailarinos Fred Astaire e Rudolf Nureiev, um anti-herói muito adequado para mim, pois todo o meu teatro também poderia ser definido como dança.”

Wilson antecipa, ainda, que, apesar da intensidade dramática da biografia do esportista, com o fecho do alcoolismo fatal, sua narrativa de linhas abstratas deverá justificar a alcunha de “Alegria do Povo” colada ao jogador. “Quero falar das cores e contrastes brasileiros. Eu jamais pagaria para assistir a algo meramente depressivo, sem humor.” 

Robert Wilson
Wilson dirige a primeira produção internacional do Sesc com tema brasileiro

O autor enfatiza sua intenção de “retribuir, como um presente, o apoio recebido do Brasil” desde o início de sua trajetória. “Mais que os argentinos ou os colombianos, os brasileiros acompanharam meu trabalho.” Ele se refere, nas entrelinhas, a dois agitadores culturais proeminentes na cena nacional.

Em 1974, a produtora Ruth Escobar fez estrear no Theatro Municipal de São Paulo a monumental quinta criação de Wilson, A Vida e a Época de Joseph Stalin, com sete atos e doze horas de duração.

O nome do ditador soviético foi então substituído pelo do roqueiro inglês Dave Clark, com a finalidade de driblar a censura da ditadura brasileira. O diretor Antunes Filho aplaudiu em pé ao final de cada uma das quatro longas noites. Os numerosos coros da obra, estáticos ou dançados, como o balé final de avestruzes entre crateras lunares, inspiraram o diretor paulistano na criação de Macunaíma (1978). 

Wilson retornou ao Municipal em 1991, a convite da 21ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, com sua versão de Quando Despertarmos Dentre os Mortos, de Henrik Ibsen. Nos anos 2000, iniciou parceria com o Sesc de São Paulo e seu diretor regional, Danilo Santos de Miranda, que incluiu a participação como ator no monólogo A Última Gravação de Krapp, de Samuel Beckett (2012).

Desde então inicia as tratativas para sua “produção brasileira”, que se tornaria Garrincha, sua septuagésima criação desde 1969, em cartaz até 29 de maio no Teatro Paulo Autran (Sesc Pinheiros), com a possibilidade, ainda em estudos, de uma montagem no Rio de Janeiro.

A Dama do Mar
Bete Coelho e Lígia Cortez, de Garrincha, aqui em A Dama do mar, 2013 (Foto: Luciano Romano Change Performing Arts4)

Coube ao produtor Ricardo Muniz Fernandes negociar por mais de um ano, com as 11 filhas do jogador e sua ex-esposa, Elza Soares, a utilização da imagem de Garrincha no espetáculo. Na estreia, é aguardada a presença da cantora e de algumas entre as herdeiras do jogador.

Bob Wilson estudou a figura de Elza Soares, mas ainda não se encontrou com a viúva de Garrincha. O casal é vivido por atores escolhidos em audições no Brasil no ano passado, entre eles Jhe Oliveira e Dandara Mariana (há uma possibilidade múltipla de representação dos protagonistas).

Da seleção de 16 profissionais, nove são negros, fato não usual em produções brasileiras. “Diferentemente de minhas criações na Polônia ou em Praga, os atores e os seis músicos brasileiros participaram ativamente com ideias, gerando improvisos que agora burilamos para alcançar certo grau de precisão.”

A chave do trânsito internacional para o teatro de Wilson reside, porém, na importância conferida à visualidade – luzes, cores e cenários, de sua autoria –, a concretizar o teatro-paisagem proposto nos anos 1930 pela poeta americana Gertrude Stein, precursora do concretismo e do minimalismo.

“A definição teatro-paisagem é boa para meu trabalho e Stein foi uma tremenda influência. Eu não a entendia, até o (compositor) John Cage me emprestar fitas com a voz dela em palestras, o que me permitiu surfar livremente em seus livros”, recorda Wilson sobre a autora do verso Uma rosa é uma rosa é uma rosa.

“Minhas construções tempo-espaço encerram geralmente muitos contrastes e tensões. O movimento surge a partir da quase imobilidade, da linguagem que o próprio corpo parado carrega em si, contra um panorama de estímulos sonoros, musicais e visuais”, explica.

Assim, entre as primeiras cenas a serem apreciadas em Garrincha, o norte-americano colocou a figura do jogador a caminhar lentamente ao longo de uma máquina de cotonifício, monstruosa em dimensões e clangores, uma vez que o Mané adolescente trabalhou nesse ambiente, em sua natal Pau Grande.

A Última Gravação
Wilson em A Última Gravação, de Krapp, 2009 (Foto: Lucie Jansch)
Não há, todavia, uma história propriamente, mas sucessões de quadros de alta carga sensorial, e assim até mesmo suas adaptações de dramaturgias clássicas puderam ser compreendidas por plateias de muitas línguas, devido à baixa carga conferida às palavras. 

“Eu penso desenhando luzes e cores, confeccionando um roteiro visual, como os de cinema, e depois convido outros artistas para intervir com palavras ou música”, resume. Em consequência, se há uma história passível de seguir, ela será diferente para cada espectador, como analisou o diretor Luiz Roberto Galizia (1954-1985) em Os Processos Criativos de Robert Wilson (Perspectiva, 1986).

“Muitos iam embora após o primeiro ato, ofendidos com a aparente falta de narrativa e com a percepção de que estavam sendo convidados a mergulhar em estado de transe, no qual a imaginação poderia exercitar-se com ampla liberdade, como num sonho”, anotou Galizia à época em que foi assistente de Wilson para Dave Clark e coordenou cerca de cem atores e figurantes estabelecidos em São Paulo.

A função é exercida desde 2013 pelo ator e diretor André Guerreiro Lopes, formado em mímica corporal dramática em Londres.

Constituíram motivação para Wilson, entretanto, as provações experimentadas pelo garoto pobre de pernas tortas, saído das fraldas da fluminense Serra dos Órgãos para se tornar bicampeão mundial na Suécia e no Chile.

“Eu mesmo tive de trabalhar muito para completar o ensino básico, com uma gagueira que ainda hoje me acomete, e em adulto adotei um garoto surdo-mudo com o qual aprendi muito sobre linguagem corporal”, afirma.

Garrincha.jpg
Em sua septuagésima peça, o norte-americano Bob Wilson dramatiza a alegria e a tragédia de Garrincha

“Minha irmã também tinhas as pernas viradas para dentro e chegaram a quebrar seus ossos para endireitar. Ela teve de reaprender a andar”, recorda.

“Lembro, ainda, de um colega de escola que falava sete línguas e que eu achava destinado a dar grande contribuição ao mundo, mas que virou um pacato funcionário de escritório. O exemplo de Garrincha me sugere o do garoto negro de pai queniano chamado Barack Obama, que se tornou líder mundial.”

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