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Número 897,

Economia

Opinião

A trupe do topo

por Thomaz Wood Jr. publicado 27/04/2016 03h09
Pesquisas científicas sobre executivos revelam práticas anacrônicas e comportamentos temerários
Romério Cunha
Sergio-Marchionne

Segundo estudos, a aparência torna-se um fator de sucesso para executivos

Oscar Malvessi e João Lins Pereira Filho, professores da Fundação Getulio Vargas – Escola de Administração de Empresas de São Paulo, analisam há anos as práticas de remuneração de executivos de dezenas de empresas de capital aberto. Uma pesquisa divulgada pelos autores no ano passado apresentou um resultado desconcertante: a remuneração dos executivos e a lucratividade das empresas caminham em direções distintas. Muitos executivos ganham polpudos bônus mesmo quando suas empresas vão mal. Os lucros podem cair, mas os prêmios sobem.

A constatação é cômica e é trágica, mas não deve surpreender. Alyza Sebenius, em artigo publicado em abril no website da revista The Atlantic, listou diversos estudos científicos sobre as idiossincrasias da vida no topo da pirâmide corporativa. John R. Graham, da Universidade Duke, e colegas estudaram os traços faciais de quase 2 mil CEOs. A aparência é um fator de sucesso para executivos, concluíram. Parecer competente ajuda na carreira e melhora o salário. Não contribui, entretanto, para o desempenho das empresas. Em suma, as aparências enganam.

William J. Mayew, também da Universidade Duke, e colaboradores avaliaram a influência do tom de voz no sucesso de quase 800 CEOs. Concluíram que executivos com timbres mais graves gerenciam empresas maiores, ganham mais e ficam mais tempo no cargo. E como ficam as mulheres? Em geral, ficam de fora. Conforme lembra Sebenius, na lista das maiores empresas norte-americanas há mais casos de organizações lideradas por homens chamados John do que por mulheres.

Além da voz, a assinatura também conta. Charles Ham, da Universidade de Washington em Saint Louis e colegas analisaram o tamanho da assinatura como indicador do grau de narcisismo de CEOs. Descobriram que executivos com assinaturas maiores e, portanto, mais narcisistas, ganham mais que seus pares mais humildes. Destemidos, eles lideram investimentos mais agressivos em pesquisa e desenvolvimento e em fusões e aquisições, porém suas empresas geram menos patentes e obtêm menor rentabilidade em comparação às demais.  

Também de olho no narcisismo, Ulrike Malmendier, da Universidade da Califórnia em Berkeley, e um coautor investigaram a correlação entre remuneração, status e presença na mídia. Quando um CEO se torna uma celebridade e recebe prêmios corporativos, colhe os louros em termos de ganhos pessoais. As suas empresas têm, entretanto, desempenhos piores quando comparados aos dos seus pares.

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Ginni Rometty, CEO da IBM: uma exceção diante da predominância masculina nos cargos mais altos da pirâmide corporativa (Foto: Imprensa/ IBM)

Além de ser homem, parecer competente, barítono e ter uma assinatura espalhafatosa, ser popular também ajuda na carreira. Joseph Engelberg, da Universidade da Califórnia em San Diego e colegas comprovaram o senso comum: CEOs com maiores redes de contato ganham mais do que os pares menos populares. Entretanto, permanece um mistério se as conexões geram valor para as empresas e como isso ocorreria.

Para ser CEO nos Estados Unidos, jogar golfe é também essencial. Gueorgui I. Kolev, da Universidade Pompeu Fabra, na Espanha, e um coautor examinaram uma ampla base de dados de executivos norte-americanos. A dupla concluiu que quanto melhor o desempenho no jogo, maior a remuneração. Porém, não foi constatada influência alguma no desempenho das empresas. 

Como Malvessi e Lins, Michael J. Cooper, da Universidade de Utah e colegas estudaram a relação entre o pacote de remuneração dos CEOs e o desempenho das ações de suas empresas. A conclusão foi a mesma dos brasileiros, a relação é negativa. Adam J. Wowak, da Universidade de Notre Dame e colaboradores, em estudo similar, constataram que o uso de ações como parte da remuneração de CEOs, em lugar de alinhar os interesses da empresa e os de seu principal executivo, torna-o mais propenso a correr riscos, com aumento da possibilidade de recalls de produtos por problemas de segurança.

O que fazer? Com base em alguns estudos, Sebenius sugere que os conselhos de empresas procurem CEOs casados, mais estáveis e menos agressivos, e os mantenham sob firme vigilância, pois empresas agem melhor quando constantemente escrutinadas. Será suficiente? Provavelmente, não. Mais os cientistas sociais pesquisam sobre CEOs, mais excentricidades encontram. Imagine o que ocorreria se voltassem seus olhos e estatísticas para outros tipos de líderes, com atuação em diferentes domínios da sociedade. Provavelmente teriam de recorrer à ajuda de psicanalistas e criminalistas. 

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