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Número 896,

Cultura

Música

O samba se reinventa

por Ana Ferraz publicado 25/04/2016 04h09
Um século após a primeira gravação oficial, o estilo cresce até pelo WhatsApp
Leco de Souza
Monarco-e-Nei-Lopes

Monarco e Nei Lopes, o peso da tradição

Ele é centenário, mas irradia juventude. Se renova, se reinventa, conversa com outros gêneros, sem deixar de reverenciar as raízes. Desde que Donga falou pelo telefone em 1916 um rio passou em nossas vidas e hoje se faz samba até por WhatsApp.

Se não mais existem as épicas rodas de morro improvisadas em torno de uma mesa e com o auxílio de um cavaquinho, um pandeiro e um tamborim, às vezes uma singela caixa de fósforos, ninho de poetas da estirpe de Noel Rosa, João da Baiana, Elton Medeiros, Carlos Cachaça, muito samba do bom resiste em fundos de quintal, clubes, reuniões de amigos e botecos de periferia.

“As rodas tradicionais migraram para os salões da Vieira Souto, para a duquesa de Kent no Itamaraty”, diz Moacyr Luz em citação a Tempos Idos, no qual Cartola goteja poesia ao fazer a crônica da trajetória do gênero.

O criador do Samba do Trabalhador diz que o projeto provou a capacidade de resistência do gênero alicerçado por novos versos, respeito aos ícones e aposta na renovação. “Ousamos ao gravar CDs e DVDs, são três, e um disco, todos com inéditas.” A roda fundada há dez anos no Clube Renascença, em Andaraí, Rio de Janeiro, estabeleceu uma base avançada em São Paulo, no Traço de União (neste mês, na quinta 14).

Tuco-e-Nelson
Nelson Sargento e o novo parceiro musical Tuco Pellegrino (Foto: Agnaldo Rocha)

O compositor para quem o samba é um estado civil, um culto, uma opção de vida manifestada na roupa, nos santos, na comida e no modo de entender o cotidiano, considera o gênero a raiz da música brasileira, e como tal independe de moda.

“Ele existe e resiste naturalmente, numa lata de 20 litros, num verso do partido-alto, num bar de subúrbio, mesmo que ouvido por meia dúzia de adeptos. Sua força é o povo. É feito praia no fim de semana, todo mundo sem camisa, na mesma onda, no mesmo céu. O samba de refrão tem o ritmo no coração, um batimento natural.” 

A certidão de nascimento do gênero é o registro de Pelo Telefone na Biblioteca Nacional. “Antes de Donga e seu parceiro Mauro de Almeida, o samba era música folclórica. Era ‘aqueles corinhos’, como disse certa vez o músico Buci Moreira em relação aos estribilhos ou refrões, como os do samba de roda da Bahia cantados na casa da Tia Ciata, sua avó.

Pelo Telefone marca a entrada do samba, enquanto canção popular e não mais apenas folclórica, no grande consumo”, afirma o escritor e compositor Nei Lopes.

Segundo o violonista, compositor e pesquisador Luis Felipe de Lima, existem a partir de 1904 mais de meia dúzia de músicas gravadas sob a denominação samba. “A diferença é que Pelo Telefone foi o primeiro a fazer sucesso, transbordou as festas das tias baianas.”

O samba urbano carioca, explica, resulta de uma confluência de sambas rurais ocorrida numa época de amplas transformações na qual a cidade recebeu grande contingente de migrantes e seu universo sonoro. Ao samba de roda baiano juntam-se o samba de bumbo do interior de São Paulo, o tambor de Congo do Espírito Santo, o tambor de crioula do Maranhão.

“Aqui havia um panorama musical vasto, sólido e expressivo a contar com elementos centrais tais como choro, maxixe, lundu, batuque. Todo esse substrato sonoro acolheu esses sambas e a música de candomblé. O samba é mestiço e finca raízes no Rio de Janeiro”, afirma Lima.

Do ponto de vista geográfico, nasce em terras africanas. “O DNA do samba está na África dos povos bantos, na região cultural congo-angolana, no centro-oeste do continente, de onde veio o termo ‘samba’.

Esse DNA fez nascer o samba folclórico em vários pontos do território brasileiro, mais notadamente na Bahia e em Pernambuco, mas também no Sudeste e no Norte, incluído o Maranhão. Desses substratos surge o samba urbano na cidade do Rio de Janeiro, então a capital federal”, esclarece Lopes.

Leci-Brandão
Leci Brandão, 71 anos, 40 dedicados ao samba (Foto: Ândrea Possamai)

O baluarte portelense Monarco, que enfrentou duas décadas de retração de mercado e rarefação de oportunidades nos anos 1960 e 1970, faz um balanço positivo da situação do aniversariante. “Hoje, o samba tem muitos aliados, as coisas estão mais favoráveis. Está numa boa fase, embora ainda não lhe atribuam o devido valor. Às vezes, numa festa era para chamar um sambista do passado e vão buscar gente que nem tem a ver.”

Aos 82 anos e compositor desde os 8, lapidou o talento quando a família se mudou para perto da escola da qual é presidente de honra, no bairro de Oswaldo Cruz. “Aperfeiçoei-me até chegar no meio dos bambas, ali começou minha carreira. Alcides, Manacéia, Francisco Santana, discípulos de Paulo da Portela, aos poucos se tornaram meus parceiros.”

“Temos muito a celebrar. Se levarmos em conta que há 50 anos sambista apanhava da polícia, estamos no lucro. Hoje um pai leva o filho para aprender cavaquinho na escola, larga o emprego para virar empresário do talentoso, vê glamour numa profissão antes discriminada”, analisa Luz.

“Dávamos um samba e éramos intimados a ir à delegacia”, relembrou Donga em depoimento histórico ao Museu da Imagem e do Som em abril de 1969. Na época, o samba era trilha de marginais. Em 1908, João da Baiana não pôde tocar numa festa porque a polícia lhe apreendera o pandeiro.

Ao saber do infortúnio, o senador Pinheiro Machado providenciou um novo. O sambista fez questão da assinatura do benfeitor no instrumento, menos por afeição e mais por precaução. “Toda semana a polícia me prende”, explicou.

Luis-Filipe
Luis Felipe de Lima, músico e pesquisador (Foto: Leo Aversa)
A exemplo de boa parte das manifestações populares, o samba se reinventa, se adapta sem perder a essência. “Ele tem esse traço antropofágico, consegue deglutir e assimilar elementos de outra linguagem. Foi assim com o maxixe, o choro, o samba sincopado.

O samba conseguiu dialogar mesmo com a música jovem internacional nos anos 60 e 70, quando surge o samba rock, o sambalanço”, afirma Lima, curador da série de shows O Século do Samba, promovida em fevereiro pelo Centro Cultural Banco do Brasil.

“Um dos segredos é o gênero sempre olhar para trás. Esse contato com a tradição leva as novas gerações em processo de descobrir sua identidade a não voltar o rosto aos mestres.” O músico reconhece um novo modelo de negócios favorecido por ferramentas tecnológicas úteis em pesquisas de repertório, acesso de fonogramas raros e facilitadoras da comunicação. “Na série do CCBB juntamos gente de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em três dias saiu um samba por WhatsApp.”

O talento e a veneração à velha guarda guiaram o caminho de Tuco Pellegrino até Monarco e Nelson Sargento. “Sou fascinado pelo universo dos sambas de quadra e terreiro das décadas de 1930 e 1940. Esse conhecimento me aproximou de Cristina Buarque e a amizade rendeu frutos.”

O portelense aposta as fichas no jovem compositor. “Fiz dois sambas com Pellegrino, garoto de São Paulo que ajuda a preservar nosso acervo musical”, elogia. “Tenho orgulho de ter uma música de parceria com Mestre Tuco, com quem dividi o palco várias vezes”, louva Sargento no encarte do segundo CD do músico de 36 anos, Na Contramão do Progresso.

O álbum é uma elegia ao samba de nobre cepa, interpretado com alma por um compositor de voz encorpada que lembra os crooners de outros tempos.

Com 71 anos de idade e 40 de samba, um CD com músicas suas  antigas em projeto, Leci Brandão nutre-se do gênero. “Ai de mim se não fosse o samba. Ele conserva minha energia, minha alegria, minha luz. Eu estou deputada (PCdoB), mas sou artista.”

Da nova safra, menciona Xande de Pilares, Diogo Nogueira, Mart’nália e lança um petardo contra a mídia ávida por produtos descartáveis. “Depois nem a gravadora investe.” Moacir Luz não se ilude com os holofotes sobre o centenário: “O samba nunca terá destaque numa programação ‘branca’. A elegância do samba desconhece assessoria, ainda é prato do dia, comida de Ciata, um sapato branco pintado, alheio às novidades”. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 896 de CartaCapital, com o título "Pelo WhatsApp"