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Número 896,

Sociedade

São Paulo

Em São Paulo, boas notícias no combate ao crack

por Miguel Martins publicado 20/04/2016 15h08, última modificação 23/04/2016 11h44
A média de uso da droga entre os inscritos no De Braços Abertos cai 60%
Fabio Arantes/ Secom
Braços Abertos

Além do trabalho de varrição, os participantes desenvolvem atividades culturais, entre elas a publicação de um fanzine

Os fanzines, revistas independentes editadas com poucos recursos, perderam espaço nos últimos anos por causa do domínio crescente dos meios digitais. Na Cracolândia, Centro de São Paulo, o formato consagrado principalmente por fãs de música resiste sob a batuta de moradores de rua e dependentes químicos da região.

Com apoio do Projeto Oficinas, uma parceria do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente e da Secretaria Municipal de Direitos Humanos, os usuários lançaram recentemente a publicação mensal Pra Mim Não Passar em Branco, com poemas e desenhos sobre suas experiências com o crack. Na primeira edição do fanzine, um relato anônimo resume o peso da fissura sobre os dependentes. “A abstinência é muito mais letal e nociva que a própria doença ‘crack’.”

Tratamentos que exigem dos usuários a interrupção imediata do uso da droga têm se mostrado pouco eficientes. Psicólogos e psiquiatras estimam que apenas 30% dos pacientes obtêm sucesso com terapias tradicionais.

A redução gradual do consumo por meio de ações que não se limitam a atacar o vício, mas buscam a reintegração social, tem colhido resultados mais positivos. Criado em janeiro de 2014 pelo prefeito Fernando Haddad, o Programa De Braços Abertos tem conseguido diminuir consideravelmente o consumo de crack de seus beneficiários ao oferecer moradia em hotéis, oportunidades em frentes de trabalho e alimentação aos moradores de rua e frequentadores da Cracolândia.

Segundo uma pesquisa recente da Secretaria Municipal da Saúde, 88% dos beneficiários do De Braços Abertos afirmam ter reduzido o consumo de crack desde o início do programa.

O levantamento, realizado por assistentes sociais responsáveis pelo acompanhamento dos 467 inscritos, indica que o número médio de pedras consumidas pelos beneficiários caiu de 42 por semana para 17, redução de 60%. Além disso, 84% garantem estar em tratamento de saúde contra a dependência, embora a adesão não seja uma exigência do programa.

A atuação em frentes de trabalho como varrição de ruas, jardinagem e reciclagem, aliadas a atividades culturais como a publicação do fanzine, tem trazido benefícios que superam os 568 reais recebidos mensalmente para cada inscrito. Segundo a secretaria, apenas 5% dos beneficiários afirmam permanecer sob o efeito da droga o dia inteiro. Antes de o programa ter início, 65% diziam estar sob essa condição.

O ex-ministro Alexandre Padilha, atual secretário de Saúde da prefeitura, comemora os resultados. “A região sempre sofreu com programas erráticos, intervenções de cunho autoritário e a lógica da higienização. Agora, São Paulo se conecta a essa nova tendência de fugir da abordagem da ‘guerra às drogas’.”

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Embora diversos pesquisadores e assistentes sociais elogiem o De Braços Abertos, ele ainda apresenta limitações. Pesquisador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental da Fiocruz, o sanitarista Paulo Amarante tem defendido a adoção do modelo para outros municípios brasileiros em reuniões com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas.

O pesquisador afirma que o programa deveria, porém, ampliar seu alcance para outros locais de São Paulo e oferecer mais oportunidades de trabalho. “É preciso uma política de Estado que exija de empresas a contratação de beneficiários.”

O psicólogo Thiago Calil, um dos responsáveis pelo Centro de Convivência É de Lei, local de assistência a usuários no Centro de São Paulo, tem observado uma redução do consumo de crack pelos inscritos, mas critica o endurecimento das ações de Segurança Pública. “Muitos que frequentam o fluxo de usuários e não aderiram ao programa são considerados traficantes pela polícia.”

Segundo Calil, uma ação de 2015 para conter o comércio de entorpecentes na região apreendeu 33 carroças, utilizadas por dependentes para catar objetos e entulhos para revenda. “Conheço vários carroceiros que não vendem droga, apenas preferem se virar sozinhos. O indivíduo precisa ter liberdade para decidir se quer integrar ou não o programa”.

Padilha afirma que a Guarda Civil Metropolitana tem sido estimulada a adotar uma abordagem mais humanizada. “Temos uma cultura ainda muito autoritária, então é preciso um esforço permanente para modificá-la.” Embora defenda ações policiais menos agressivas, o aumento da venda de drogas na região preocupa o secretário. “Há indícios claros da revitalização da atividade do tráfico no local.”

Outra deficiência do programa são os hotéis. Muitos não contam com estrutura para os dependentes receberem ligações e visitas de familiares. Embora a pesquisa da secretaria tenha apontado a retomada do contato com parentes por 52% dos inscritos, o objetivo é buscar opções de alojamento com áreas de convivência para estimular a aproximação de familiares.

“Queremos locais mais apropriados para os usuários, especialmente para aqueles que têm filhos, cerca de 30 dos inscritos”, afirma Padilha. Um dos objetivos da secretaria é também afastar os beneficiários do fluxo, ao buscar hotéis mais distantes da Cracolândia para abrigá-los.

Bem-sucedido até o momento, o programa pode não resistir a uma eventual troca de comando na prefeitura. João Doria, pré-candidato do PSDB às eleições municipais deste ano, afirmou em janeiro que pretende, se eleito, “erradicar” a Cracolândia com programas de internação compulsória. “Temos certeza de que essa visão inovadora ainda está em disputa”, diz Padilha. “Quero ver se os críticos do programa conseguem propor alternativas que reduzam o consumo do crack como o De Braços Abertos. Eles precisarão ir além de seus preconceitos e mostrar resultados.”

A discriminação, mais que a dependência química, segue como principal empecilho para a reintegração dos usuários. “Eu luto para que tenha um canto para nossa tribo”, escreve um deles em uma das edições do Pra Mim Não Passar em Branco. “O mundo é tão grande, será que não tem um pedacinho para nós?”

*Reportagem publicada originalmente na edição 896 de CartaCapital, com o título "Sem imposição"