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Número 896,

Economia

Opinião

É preciso aprender

por Delfim Netto publicado 14/04/2016 04h49
Não é admissível alguém acreditar que a autorregulação dos mercados é uma manifestação das leis da natureza
El hombre en el cruce de caminos, 1934, de Diego Rivera
Lenin

Lenin, o mais preparado e hábil marxista, é a grande prova de que o futuro é opaco

A história é aberta, o futuro não está contido no passado, de maneira que toda previsão é apenas uma manifestação de nossas crenças e desejos e de nossa tendência de organizar o mundo para tentar entendê-lo. Mas é ele, o futuro, o único juiz iluminado e íntegro.

O problema é que o juízo sempre chega tarde demais. Quem frequentou, relativamente liberto de compromissos ideológicos, dois mundos tão antagônicos como o “liberalismo”, onde se crê numa espécie de ordem espontânea promovida pela instituição da propriedade privada, e o “marxismo”, onde se crê que a propriedade privada é a origem da desordem, não pode deixar de desconfiar que ambos, no fundo, têm um objetivo comum: permitir que, com a liberdade, os homens se organizem para realizar plenamente a sua humanidade.

A grande prova de que o “futuro” é mesmo opaco é que Lenin, o mais preparado e hábil marxista, quando ainda estava na Suíça sendo devolvido à Rússia, disse, em janeiro de 1917, que “duvidava que nós, os velhos, viveremos o bastante para ver as batalhas decisivas da revolução que virá”. Em outubro, comemorava a vitória da revolução!

Em agosto de 1918, escreveu uma generosa carta aberta aos trabalhadores americanos, onde afirmou: “Mesmo se para cada cem coisas corretas que estamos fazendo, cometermos 10 mil erros, nossa revolução será ainda, e o será no julgamento da história, grande e invencível. Esta é a primeira vez que não apenas uma minoria, não apenas os ricos, não apenas os educados, mas a maioria esmagadora dos trabalhadores, está construindo uma nova vida e está, com sua própria experiência, resolvendo os mais difíceis problemas da organização socialista”. O futuro não o absolveu!

A história mostrou que os “difíceis” problemas da organização socialista centralizada eram ainda mais difíceis do que supunha. Como resolver, sem o mercado, o problema da informação que liga as necessidades de milhões de consumidores livres na sua escolha com a capacidade produtiva de milhões de produtores que livremente escolhem o que produzir? Mesmo hoje, parte da “esquerda” não chega sequer a entender o que isso significa.

Na economia de mercado, a coordenação é mais ou menos resolvida pelos preços relativos que nela se estabelecem. Para calculá-los sem os mercados, não bastam computadores. Seria preciso o intellectus angelicus, propriedade que nenhum miserável burocrata ateu há de possuir...

A questão que não se quer enfrentar é a de responder por que, no socialismo “real” da URSS e seus satélites, e outros países “socialistas” de economia centralizada, a anarquia produzida pelo “planejamento” não pode ser corrigida por mais “planejamento”?

Por que todos eles terminaram em regimes totalitários, onde o poder sempre acaba nas mãos do líder com maior vantagem comparativa na brutalidade? Por que, afinal, terminou tão mal a restrição à liberdade individual, à igualdade de oportunidades num nível inferior, à separação em quase castas e à enorme ineficiência produtiva?

É evidente que a crítica ao abuso ideológico do que chamamos “teoria econômica” (que, obviamente, não é e nunca será uma ciência “dura”) para justificar a existência de um “equilíbrio geral” (que afinal é o rigor mortis onde nada mais se mexe); de agentes absolutamente racionais (que não são seres humanos) ou de mercados perfeitos (que seriam a única obra perfeita do homem) não deve ser levado ao relativismo absurdo que sugere que a atividade econômica é um jogo sem sentido, onde todo voluntarismo é permitido.

O sucesso civilizatório dos países que usaram o sufrágio universal para emponderar os cidadãos, juntamente com políticas sociais e econômicas compatíveis com o conhecimento acumulado pelos economistas ao longo dos últimos dois séculos (isto é, o mercado e a urna), é tão distinto do miserável fracasso dos países que os desrespeitaram, que devemos concordar que o melhor caminho é o percorrido pelos primeiros.

O que precisamos não é uma política de “esquerda” ou de “direita”, mas de uma política que admita as duas, porque o contraditório que desperta a atenção e não a cólera é o instrumento do avanço da sociedade civilizada.

Afinal, depois de Smith, Marx, Keynes, Polanyi e Braudel, é quase impossível que alguém ainda acredite que a autorregulação dos mercados é uma manifestação das leis da natureza ou que existam leis históricas, criadas no começo do mundo para facilitar a vida dos futuros cultores das ciências sociais.