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Número 896,

Sociedade

Violência

Curitiba, república higienista

por René Ruschel — publicado 20/04/2016 15h50
O assassinato de uma indigente é o ápice de campanha contra os sem-teto
Marcelo Andrade/Gazeta do Povo
Moradores-de-rua

Há 5 mil moradores de rua na capital paranaense

A moradora de rua Andreia Aguiar Coelho, de 43 anos, foi assassinada em Curitiba na noite de 27 de março enquanto dormia com seu companheiro em uma praça no centro da capital paranaense. O autor do crime está foragido. Segundo testemunhas, um homem aproximou-se do casal e afirmou não gostar de sem-teto. Após uma breve discussão, o assassino deixou o local e retornou armado. Foram três tiros: dois na mulher e outro em seu companheiro, que resistiu ao ferimento.

Andreia Coelho fazia parte da estatística dos quase 5 mil sem-teto que perambulam pelas ruas de Curitiba. O histórico de vida não era diferente daquele da maioria. Separada, dois filhos, que viviam sob a guarda do ex-marido, depressiva, alcóolatra e viciada em drogas. Nem sempre foi assim. Enfermeira, a vítima cursou até o 3º ano de fisioterapia. Depois da separação, em 2010, afundou-se no álcool e no crack e passou a viver como indigente. As tentativas de salvá-la do caos foram inúmeras, todas em vão. Naquele começo de madrugada sua história chegou ao fim.

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Donos de bares pedem a remoção dos moradores de rua à força

O assassinato poderia ser apenas mais um a engrossar as estatísticas não fosse a repercussão de um manifesto publicado em janeiro na página do Facebook da Associação Brasileira de Bares e Casas Noturnas a favor da retirada dos moradores de rua “por bem ou por força de ato de ordem pública ou social”.

À época, o presidente da entidade, Fábio Aguayo, reiterou: “Vai ter de ser removida mesmo que não queira sair do local”. Alguns dias depois, a Associação Comercial do Paraná, em tom mais brando, igualmente manifestou seu descontentamento com a presença dos moradores de rua e pediu a sua remoção do centro da cidade. Procurados, os dirigentes das duas associações não atenderam aos pedidos de entrevista. 

Presidente da Fundação de Assistência Social de Curitiba e mulher do prefeito, Marcia Fruet reagiu com veemência à proposta. Após a morte da sem-teto, ela postou em sua página no Facebook uma dura nota. “Esse é o resultado das exigidas medidas higienistas, propaladas como civilizatórias. Quando os representantes de classe verbalizam o ódio, a intolerância, legitimam a violência, despertam o que de pior há no ser humano”, escreveu.

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Fábio Aguayo, da associação de bares (Foto: Daniel Caron)

 

E acrescentou: a discussão veio à tona por conta do ano eleitoral. Ela lembra que até 2012 a cidade tinha apenas um albergue para abrigar 400 moradores de rua. “Para se ter uma ideia, havia apenas quatro chuveiros para atender toda essa população. Nos últimos dois anos, foram construídas dez novas unidades, além de oito conveniadas.”

Setores do empresariado que exigem o expurgo da população de rua, a “higienização social”, afirma Fruet, têm uma visão simplista e retrógrada. Pelo fato de pagarem impostos e gerarem empregos, acham-se isentos de qualquer outra responsabilidade. “Esse problema é uma questão mundial e a comunidade, como um todo, não pode fechar os olhos. O raciocínio dessa sociedade que se diz civilizada é baseada no lema ‘o que não quero ver posso eliminar’”, conclui.

“Viver na rua é como estar na antessala da morte”, diz o coordenador do Movimento Nacional da População de Rua, Leonildo José Monteiro Filho. Ele reconhece os eventuais estorvos causados pelos sem-teto, mas insiste em dizer que ninguém vive nessa situação por desejo. “Eles são doentes, fragilizados e não têm mais forças para superar essas condições.” A única solução, acredita Monteiro Filho, é um trabalho intersetorial entre o poder público e a iniciativa privada, além de ONGs e instituições religiosas.

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Marcia Fruet, da Fundação de Assistência Social, critica a posição de Aguayo (Foto: Andressa Katriny/CMC)

Tanto para Fruet quanto para Monteiro Filho, a grande dificuldade de convencer alguns setores da sociedade que não basta remover os sem-teto das ruas e depositá-los, como gado, nas periferias. “Na reunião que tive com empresários”, afirmou a presidente da fundação, “o argumento mais utilizado é que se trata de desocupados que precisam trabalhar. Lamentavelmente não houve, até o momento, nenhuma oferta de trabalho”.

Coordenador do Centro de Apoio de Proteção aos Direitos Humanos do Ministério Público do Paraná, o procurador Olympio de Sá Sotto Maior Neto segue a mesma linha. Segundo ele, a complexidade da questão requer um tratamento multidisciplinar e articulado entre os níveis federativos, com a participação sensibilizada da sociedade civil. “A experiência demonstra que apenas retirar os moradores da rua não leva à superação do problema.”

No caso de Curitiba, Sotto Maior sugere uma parceria de esforços entre o município e os empresários, justamente aqueles que mais reclamam da situação. A primeira medida seria a realização de um censo para mapear os sem-teto e descobrir suas potencialidades. Depois, por meio de um convênio entre a fundação de assistência da prefeitura e as associações classistas patronais, oferecer treinamento e posteriormente apoio na reinserção no mercado de trabalho. “O que não podemos é tomar medidas preconceituosas, à base da força, da opressão, contra indefesos e fragilizados.”

O discurso policialesco, da violência, ressalta o procurador, só contribui para alavancar o ódio, o preconceito, e criar cada vez mais psicopatas e assassinos. Ele lembra que a prática de medidas higienistas opõe-se à adoção de ações protetivas e dificulta a elaboração de políticas que realmente contribuam para garantir a dignidade e a emancipação social dos moradores de rua. Resta saber se os orgulhosos integrantes da “República de Curitiba” estão abertos a tais apelos ou se estão irremediavelmente contaminados pelo espírito de linchamento que dita o comportamento de parte do Brasil.