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Número 896,

Cultura

Papinho Gourmet

Ainda o preconceito

por Marcio Alemão publicado 19/04/2016 04h17
Tira a Bela e pode ir para o mundo. Nos realities, eu não lembro de ver negros no júri e não lembro de algum ter saído vencedor.
Ilustração: Estella Maris Foto: IstockPhoto
Papinho Gourmet

– Não precisa nem acreditar. Basta olhar.

– Não sei se você já reparou que em programas de culinária mulher feia não tem muita chance.

– Espera, deixa eu lembrar... uau! É fato.

– A esta altura do campeonato dá pra acreditar que esse ainda seja um critério de escolha?

– Não precisa nem acreditar. Basta olhar.

– Bela Gil, Rita Lobo, Carolina Ferraz, Bel Coelho, Nigella...

– E os rapazes não fogem muito à regra.

– Os gordos têm espaço em programas com temas bizarros. O camarada que come intestino de orangotango e olhos de aranha é gordinho e careca.

– Espera: é permitido dizer que uma pessoa é gorda? Não seria mais correto dizer “obeso-descendente”?

– Talvez. Da mesma forma que eu acredito que dizer “mulher feia” pode provocar celeuma.

– Você tem razão. O que é a beleza? O que é ser bonito, feio?

– Continua a dar vazão a essas dúvidas fundamentais que você chegará a um comercial de Natura.

– Outro que se encaixa nessa faixa dos... dos fofos simpáticos é o que apresenta Sabores da América.

– Esse vai morrer em cena.  Em um programa ele estava à procura das melhores receitas com bacon. Comeu uns dez sanduíches com gordura suficiente para entupir o Eurotúnel.

– Os mestres de cerimônia do Mestres da Fritura também são bem esquisitos.

– Vou colocar água nessa fritura: e por que não temos apresentadores/ chefs afrodescendentes?

– A Bela é.

– Tira a Bela e pode ir para o mundo. Cadê? Nos realities, eu não lembro de ver negros no júri e não lembro de algum ter saído vencedor.

– Você chegou a escrever sobre isso, não foi?

– Falei que um grande chef negro era o Samuelsson, que é um etíope criado na Suécia e que comandou o Aquavit, em Nova York, por anos. Hoje ele aparece em alguns shows. Mas é o único.

– Outro assunto que parece pertencer a um mundinho particular: nomes de doceiras e docerias.

– Não estou lembrando. Doces não são minha paixão.

– Pat Piva.

– É fato. Agora lembrei da Isabella Suplicy.

– Stefan Behar.

– Que coisa, meu chapa! Será que Gilcineide Silva não teria a menor chance?

– Sei lá. Tô tentando imaginar, nos corredores do Shopping JK, duas lindas se encontram e uma comenta: “Beka vai casar!” “Ai que fantástico! Com o Nico Ferreira Bulhões?” “Ele mesmo. E sabe quem vai fazer o bolo e os docinhos? Wanderclea de Jesus!”

– Rapazes também não têm chance nesse meio, né?

– O Nico Ferreira Bulhões teria, mas a confeitaria  Jeuvânio Jonas teria pouca chance de atrair uma clientela refinada.