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Número 896,

Economia

PIB

A Índia acelera e avança

por Carlos Drummond publicado 20/04/2016 15h50
Com políticas avessas ao consenso da austeridade, o gigante conquista a dianteira da expansão econômica mundial
Índia

A segunda nação mais populosa tem a maior alta do PIB

Países continentais entre os cinco mais populosos do mundo, o Brasil e a Índia ocupavam posições próximas em 2014 no ranking de Produto Interno Bruto elaborado pelo Banco Mundial. O PIB brasileiro, de 2,35 trilhões de dólares, estava em sétimo lugar e o indiano, de 2,05 trilhões, na nona posição.

Transcorridos dois anos, houve uma mudança substancial. A Índia, economia de maior crescimento no mundo em 2015, com uma expansão de 7,5% e previsão de alcançar a mesma taxa neste ano, ultrapassará o Brasil, com variação negativa de 3,8% em 2015 e projeção de um novo recuo neste ano, de 3,73%.

O colapso das cotações do petróleo explica parte das mudanças de desempenho. Na Índia, o preço baixo estimulou a atividade econômica, melhorou as contas do governo, reduziu a vulnerabilidade externa e contribuiu para baixar a inflação, segundo o Fundo Monetário Internacional.

No Brasil, a queda da commodity aumentou o custo de exploração da Petrobras, atingida também pela Operação Lava Jato, e diminuiu a receita de exportações de derivados, com repercussão negativa nas contas do País.

Atribuir a diferença de desempenho só a fatores conjunturais seria, entretanto, um equívoco. “A Índia ignorou a maior parte das recomendações dos organismos internacionais nas últimas décadas. A economia é regida por planos quinquenais e, em vez de privatizações, praticou a política de desinvestimento, com a venda de parte das ações de empresas públicas e manutenção do controle estatal”, afirma o economista Carlos Alonso Barbosa de Oliveira, da Universidade de Campinas.

“Os bancos estatais são responsáveis por 80% da oferta de crédito. O governo controla a conta de capital, exerce uma política fiscal expansionista e uma política cambial que protege a produção nacional e favorece as exportações.”

No Brasil, o quadro é outro. Há um histórico de obediência aos ditames do FMI e do Banco Mundial, falta planejamento de longo prazo, a privatização dos anos 1990 foi arrasadora e as instituições privadas dão o rumo ao sistema financeiro. A conta de capital não é controlada e o real só foi valorizado depois da deterioração acelerada da economia. A política fiscal expansionista é um tabu.

O crescimento indiano deverá continuar. “O aumento do consumo interno, o ressurgimento do sentimento favorável à revitalização da atividade industrial e uma incipiente retomada do investimento privado deverão ampliar a recuperação”, prevê o FMI.

Gráfico

Em um elogio ao governo capaz de surpreender só aqueles desatualizados em relação às mudanças de orientação do Fundo desde 2009, os seus diretores-executivos saudaram “as recentes medidas destinadas a aumentar o gasto público em infraestrutura e a racionalização de subsídios”.

Os executivos enfatizaram ainda “a necessidade de uma consolidação orçamentária favorável ao crescimento”. Para o economista Ricardo Hausmann, do Centro para Desenvolvimento Internacional da Universidade de Harvard, “a Índia obteve ganhos importantes em capacidades produtivas, permitindo-lhe diversificar exportações na direção de produtos mais complexos, inclusive medicamentos, veículos e eletrônicos”, e poderá ser a nação de crescimento mais rápido na próxima década.

Na crise iniciada em 2008, Brasil e Índia tomaram rumos diversos. Aqui, o estímulo ao consumo com a redução, pelo governo Lula, dos juros dos bancos públicos, acompanhada pelas instituições privadas, limitou o efeito recessivo a alguns meses.

Lá, também houve estímulo ao consumo, mas outras medidas deram solidez e continuidade ao crescimento. O economista Prabhat Patnaik, ex-professor do Centro de Estudos de Economia e Planejamento da Escola de Ciências Sociais da Universidade Jawaharlal Nehru, de Nova Délhi, atribui o sucesso da reação da economia indiana a três causas.

O primeiro “fator antirrecessivo” foi o estímulo fiscal “introduzido imediatamente em contraposição à crise, com expansão do déficit na comparação com o PIB, contra a forte oposição do capital financeiro, por minar a sua legitimidade social”.

A segunda medida, semelhante àquela adotada no Brasil, foi o crescimento do consumo, estimulado por juros baixos. A terceira iniciativa foi “o encorajamento, pelo governo, de investimentos em larga escala em infraestrutura, com a concessão de empréstimos pelos bancos nacionalizados”.

Segundo Supriyo De, da consultoria econômica do Ministério da Finança indiano, “a crise financeira global testou a política fiscal e a resposta foram medidas contracíclicas, incluídas reduções de impostos e o aumento dos gastos”. Agora, a recuperação contempla uma “correção do encaminhamento da política fiscal rumo a um regime de prudência”.

O economista André Nassif, do BNDES, em estudo sobre as economias indiana e brasileira, considera o atual processo de crescimento acelerado da nação asiática um resultado “não apenas das reformas estruturais introduzidas, sobretudo, a partir de 1991, mas também da manutenção do papel estratégico do Estado na coordenação de políticas econômicas e na atuação direta em setores fundamentais para assegurar o desenvolvimento econômico”.

Entre as lições da economia daquele país, o economista relaciona os investimentos maciços e contínuos em educação e treinamento, a coexistência de um ambiente de livre-concorrência, com a coordenação estatal e a consolidação de instituições sólidas, “importantes para o sucesso de setores de maior intensidade tecnológica e difusores de progresso técnico e externalidades econômicas positivas para a economia como um todo”.

Dharavi
Na favela de Dharavi, em Mumbai, com 1,2 milhões de habitantes, só 1% dos barracos tem banheiro (Danish Siddiqui/Reuters/Latinstock)

Se o objetivo da política econômica do País é alcançar um crescimento expressivo do PIB e estabilidade de preços, avalia Nassif, a Índia oferece lições importantes. “Políticas de longo prazo para indústria, educação, infraestrutura, ciência e tecnologia tendem a maximizar os resultados esperados em termos de grandes transformações econômicas e sociais, quando adotadas simultaneamente a políticas monetária, fiscal e cambial direcionadas para o crescimento econômico.”

A Índia é a sexta economia manufatureira do mundo, segundo um levantamento de 2015 da Organização para o Desenvolvimento Industrial das Nações Unidas. Na pesquisa anterior, ocupava a décima posição.

Entre 2011 e 2015, a participação da indústria no PIB atingiu 30% na Índia e 23,4% no Brasil, mostra o acompanhamento do Banco Mundial. Um exemplo da vitalidade do setor é o polo de tecnologia da informação de Bangalore, o “Vale do Silício” da Índia, com 250 empresas globais.

O investimento estrangeiro direto aumentou, mas a sua aceitação obedece a critérios estabelecidos decorrentes dos interesses do país. “Permanecem controles sobre investimentos estrangeiros em áreas estratégicas como a produção de medicamentos”, acentua Barbosa de Oliveira.

Há um movimento inverso no setor, de expansão internacional. Indústrias de fármacos da Índia investiram 1,5 bilhão de dólares em aquisições de empresas nos Estados Unidos no ano passado.

A melhora da distribuição de renda é lenta quando comparada à chinesa, embora contínua. Segundo o Banco Mundial, a parcela da população com renda inferior a 1,9 dólar por mês caiu de 37% em 1990 para 9,6% no ano passado. Há muito a melhorar.

Na favela de Dharavi, em Mumbai, uma das maiores do mundo, com 1,2 milhão de habitantes, o equivalente a 55% da população da cidade, só 1% das habitações tem banheiro. Ao menos um bom exemplo o Brasil teve a oferecer. A experiência do Bolsa Família foi debatida na Índia, que decidiu adotar um programa semelhante de transferências financeiras, noticiaram jornais de Nova Délhi.

*Reportagem publicada originalmente na edição 896 de CartaCapital, com o título "O elefante acelera"