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Número 895,

Cultura

Álcool e Literatura

Gênios da garrafa

por Nirlando Beirão publicado 21/07/2016 01h18
A bebida pode irrigar a boa narrativa. Mas às vezes a ressaca é dolorosa
Tore Johnson/ Pix Inc./ The Life Images Collection
Gênios da garrafa

"A vida moderna é uma opressão e o álcool, o único alívio que existe" - Ernest Hemingway - 1935

Quatro dos sete americanos que venceram o Nobel de Literatura eram definitivamente alcoólatras. Os outros foram simpatizantes. E como observou o crítico Lewis Hyde no ensaio Alcohol and Poetry, cerca de metade dos escritores americanos alcoólatras acabou por dar fim à própria vida.

Os laureados cuja vida e cuja obra recendiam a destilados e a fermentados tinham incontestáveis méritos que nem sempre o Nobel espelha: o teatrólogo Eugene O’Neill (Nobel de 1936), e os romancistas William Faulkner (1949). Ernest Hemingway (1954) e John Steinbeck (1962). Deixam, nas entrelinhas, uma alusão ao efeito criativo da bebida: desinibição, fantasia, alívio, engajamento. A segunda estatística, a que cita o suicídio, oferece a outra face da moeda: bebida pode também significar descontrole, depressão, vexames públicos, internamentos compulsórios e autoaniquilamento.

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"O que há de tão maravilhoso em ser sóbrio? Cristo meu, a maioria do mundo é sóbrio e veja só o que é!" - John Berryman, 1972

Não busquem na inglesa Olivia Laing e no seu Viagem ao Redor da Garrafa, recém-publicado em português, um julgamento moral. Ms. Laing – ela própria procedente de uma família disfuncional e ébria – traça um roteiro geográfico e sentimental em torno de seis talentosos escritores afetados pela sombra às vezes acolhedora, às vezes arrepiante do vício. 

Há entre eles afinidades que vão além da dependência. Encontros que podem começar fortuitos, mas que em torno do copo acabam se fortalecendo, como aconteceu com John Cheever e Raymond Carver, numa noite de verão de agosto de 1973, no dormitório da Universidade de Iowa – onde Cheever, aos 61 anos, lecionava e Carver, 35, tentava afiar sua narrativa na Oficina de Escritores. Cheever bateu à porta do quarto 204 com um copo na mão: “Desculpe-me. Meu nome é John Cheever. Você teria um pouco de uísque?” 

A amizade, entre literais trancos e barrancos, duraria enquanto eles tivessem de copo na mão. “Eu e ele não fazíamos nada senão beber”, contaria Carver à Paris Review. “De certa forma, dávamos aulas, mas durante todo o tempo que estivemos lá não acho que nenhum de nós tenha jamais tirado a capa de nossa máquina de escrever.”

Cheever escreveu (para a New Yorker) aquela que é a mais pungente narrativa sobre o que de mais pernicioso o álcool pode fazer com um homem: o conto O Nadador. A Neddy Merril, após o mergulho matinal na piscina de seu anfitrião, ocorre a ideia de voltar para casa através de uma sequência de piscinas, por todo o condado. O mergulho do nadador se dá no espaço mas também transcorre no tempo – viagem alegórica nos abismos do alcoolismo. 

Mais mitológica ainda do que a amizade tóxica de Cheever e Carver foi aquela iniciada por Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway em maio de 1925, na Paris dos roaring twenties – muito apropriadamente numa mesa de bar. O Dingo American Bar da Rue Delambre fazia jus ao adjetivo do nome. Fitzgerald, 28 anos, era o enfant terrible das letras da América, contista bem pago e autor de três romances definitivos: Deste Lado do Paraíso, Os Belos e os Malditos e O Grande Gatsby. Hemingway tinha três anos menos que Scott e acabara de publicar seu primeiro livro de contos, Em Nosso Tempo – reescrito, um a um, depois que sua mulher Hadley perdera uma pasta com todos os manuscritos. Sóbria, diga-se de passagem.

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"Há uma terrível semelhança entre a euforia do álcool e a euforia da metáfora" - John Cheever

Scott e Ernest foram com a cara um do outro. A Europa dos expatriados era como um eterno verão e Paris, em especial, oferecia aquela animação trepidante que iria irrigar o romance póstumo de Hemingway (Paris É uma Festa, publicado em 1964). Mas nem tudo lhes sorria como um mar de rosas.

Hemingway orgulhava-se em dizer – “bebo desde os 15 anos”. E exercitava a arte de resistir, com aquele corpanzil de boxeador, os efeitos desestabilizadores das bebedeiras. “Poucas coisas me dão mais prazer”, dizia. De fato, até se matar, às vésperas dos 62 anos, Hemingway bebeu um oceano. Criou drinques (por exemplo, o Papa Doble, dose dupla de daiquiri que o Floridita, de Havana, celebrizou), dá nome a bares pelo mundo afora (como o do Ritz de Paris), suas histórias cheiram a adega (num de seus últimos livros, Do Outro Lado do Rio, Entre as Árvores, o personagem do coronel apaixonado mal consegue se levantar de frente de uma dezena de bellini do Harry’s Bar de Veneza).

Para seu companheiro de copo, porém, a bebida foi se convertendo – com a agravante dos sucessivos surtos psicóticos da mulher, Zelda – numa angustiante derrocada. De repente, aquele alegre prosélito do drinque moderado (“quando bebo, minhas emoções crescem. As histórias que escrevo quando sóbrio são estúpidas”) foi se afundando no enredo atormentado do posterior e autobiográfico O Colapso. Clínicas de reabilitação, períodos de sobriedade, recaídas frustrantes, a ponto de merecer de Hemingway, logo ele, cachaceiro contumaz, a intimidade de um belo puxão de orelhas, lamentando ver Scott “feder a álcool e fazer o possível para humilhar a si mesmo e seus amigos”. 

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Big Daddy: Por que você bebe tanto? Brick: Me dá mais um drinque que eu te conto, 1975

Encharcado de licores, de vinhos baratos e de uísques de milho foram também a vida – e a ficção – dos outros dois eleitos de Olivia Laing: o teatrólogo Tom, depois Tennessee Williams, e o poeta John Berryman. Williams elevou ao panteão dos beberrões míticos dois de seus melhores personagens: a Blanche Dubois de Um Bonde Chamado Desejo e o Brick Pollitt de Gata em Teto de Zinco Quente. O teatrólogo de gênio refugiou-se na psicanálise para amainar a compulsão deletéria (um dia, contabilizou cinco drinques de manhã, um daiquiri e três taças de vinho no almoço e outras três taças no jantar). O barbudo e visceral Berryman buscou o consolo de uma autocrítica por escrito, num romance a se chamar, não por acaso, Recuperação.

Após uma temporada num rehab, parecia de fato recuperado. No dia 5 de janeiro de 1972, comprou uma garrafa de uísque e sorveu, de um trago, metade dela. Dois dias depois, iria se jogar de uma ponte sobre o Rio Mississippi, em Minneapolis. Seu corpo foi identificado por um cheque em branco que trazia no bolso. 

Um porre sem fim

Da Round table do Algonquin aos Beatniks

Era uma vez uma lendária mesa no bar do Hotel Algonquin, na Rua 44, em Manhattan, onde escritores igualmente lendários – e alguns candidatos a um espaço na revista The New Yorker e à consequente posteridade literária – afiavam a língua, enquanto entorpeciam o palato, ou vice-versa. The Round Table, era assim chamado aquele clube do Bolinha dos anos 20, em citação da távola redonda do rei Artur e dos cavaleiros de Camelot. 

Lá nas brumas do Medievo, a desejada rainha Geneviève gerava a confusão. Na Round Table, Dorothy Parker (1893-1967) era quem promovia a turbulência. Só mesmo Ms. Parker para, com seu humor cortante e sua sofreguidão insaciável – em muitos sentidos –, estar à altura daquele panteão das letras recendendo a álcool e a testosterona. Frasista emérita, ela ria de sua própria intemperança. “Gosto de tomar um Martini, dois no máximo. Depois do terceiro, estou embaixo da mesa, após o quarto, estou embaixo do meu anfitrião.” 

São raras, na verdade, as artesãs das palavras capazes de competir com os rapagões da literatura no quesito da intoxicação alcoólica. A francesa Marguerite Duras (1914-1996) vivenciou, ao vivo e nas suas páginas, os efeitos químicos do álcool e a compulsão poderosa da embriaguez, percorrendo um inesgotável repertório de bebidas: uísque, xerez, Campari, conhaque, champanhe, Bourbon (duplo, por favor), gim, rum e, claro, sendo ela uma francesa, um saboroso bordeaux e um capitoso bourgogne, que a continuaram acompanhando mesmo depois da decisão penosa de se desintoxicar (“Só bebo vinho”, disse numa entrevista. “Vinho não é álcool”).

Do time masculino que o livro de Olivia Laing ignorou – reconhecendo de antemão que seriam omissões significativas – o mais notável representante daquilo que os americanos chamam eufemisticamente de drinking problem é William Faulkner. Autor de uma antológica autojustificativa – “a civilização começa com a destilação” –, ele contou a seu tradutor francês que gostava de trabalhar à noite, sempre tendo ao alcance da mão uma garrafa de um daqueles poderosos uísques de milho do Deep South, onde ele nasceu (em 1897, no estado do Mississippi) e instalou sua vigorosa ficção. “Às vezes, de manhã, eu não tenho a mínima ideia do que queria dizer com aquela palavra ou aquela frase.” Quando pretendia beber apenas, hum, socialmente, preferia o mint julep típico das plantations do Kentucky até a Louisiana. Tomava-o num copo previamente gelado.

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Para Dorothy Parker, o dry martini abriria outros apetites

Mas o que o aliviava em momentos de tensão como quando tinha de ir a Hollywood amea-lhar, escrevendo roteiros com temas alheios, alguns trocadinhos, teve o poder colateral de fazê-lo sucumbir a seus demônios interiores e aguçar sua vocação para a autodestruição. Viveu apenas 64 anos totalmente cambaleantes. 

Se para Faulkner a bebida podia eventualmente exprimir um desconforto profissional, para toda a geração beat dos anos 50 e 60 e de seus herdeiros o álcool sempre funcionou como epifania pessoal e exaltação literária. Álcool e toda e qualquer substância ilícita que estivesse por perto: anfetaminas, cannabis, cocaína, morfina, mescalina, cogumelos alucinógenos, pílulas para dormir. Jack Kerouac (1922-1969) celebrou, em On the Road, aquela zoeira de criaturas alucinadas que varam as pradarias em carrões conversíveis arremessando latas de cerveja pelo caminho. 

Descendentes tardios de Kerouac e dos beatniks, Charles Bukowski (1920-1994) e Hunter Thompson (1937-2005) também entraram no rol da fama dos beberrões gringos sem limites, junto com figuras como Stephen King, alcoólatra assumido, atormentado talvez pelos monstros assustadores que ele próprio gestou, ou Raymond Chandler (1888-1959), que chafurdou no submundo do crime – real e imaginário – de uma Los Angeles sombria, traiçoeira, nem um pouco solar.