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Número 895,

Cultura

Exposição

A aura sombria

por Rosane Pavam publicado 09/04/2016 06h03
A obra fotográfica de quatro artistas atesta a melancolia em relação ao projeto da cidade moderna
Gatherot

Marcel Gautherot adentra o Planalto Central enquanto Brasília ainda se faz. Oscar Niemeyer confiara a ele o registro de obras finalizadas, como o prédio do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, e o conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte. O arquiteto se sente seguro, portanto, em entregar a esse franco-brasileiro a pintura fotográfica de seu mais ambicioso sonho. Gautherot aprecia a simetria das formas, é um moderno como Niemeyer. Mas parece enxergar algo diferente nas fundações do Palácio do Congresso Nacional, em 1958. O prédio em construção tem já o aspecto da ruína. A base metálica se esconde na névoa de poeira, de encontro às nuvens carregadas. O veículo que passa ao largo do grande esqueleto luta com ímpeto contra a tempestade anunciada no céu. “Museu” é a palavra visível na placa ao lado da construção que um dia abrigará o ir e vir dos parlamentares nacionais. Estamos em 1958 e o autor da fotografia aqui descrita parece não ter boas notícias a dar aos brasileiros sobre sua futura capital.

Filho de pais operários e simpático às ideias de esquerda, Gautherot é o único fotógrafo com alma de artista entre os contratados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, como o entende Lucio Costa, o projetista do Plano Piloto da cidade. E um artista deve ser um homem de visão. Com sua câmera Rolleiflex, Gautherot vislumbra o sonho fantasmagórico da cidade moderna. Ele não acentua em laboratório as cenas sombrias, que o tempo por vezes intitulará premonitórias. Entre as 160 imagens exibidas na exposição Modernidades Fotográficas, 1940-1964, em cartaz até o início do ano que vem na sede do Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, as de Gautherot jamais necessitam de grande trabalho extra depois de clicadas. Embora prescinda do uso de câmeras portáteis, como as escolhidas por Henri Cartier-Bresson, ainda assim o fotógrafo segue um dos preceitos desse mestre, o de expor corretamente desde o negativo, ciente da arquitetura do momento.

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A inauguração de Brasília. ( Farkas)

“Ele conciliava dois lados, o da pureza formal e da captura não adulterada”, diz o curador Samuel Titan Jr., que concebeu esta exposição, em companhia do alemão Ludger Derenthal, especialmente para o Museu de Fotografia de Berlim. Durante cinco meses, mesmo sem divulgação especial por parte da instituição pública, a mostra recebeu 56 mil visitantes em 2013. Na seção da Fundação Gulbenkian em Paris, dois anos depois, foram 10 mil passantes. Um deles, jornalista do site Huffington Post, elegeu-a uma das cinco melhores exposições daquele ano. A exibição caminhou ainda por Lisboa e Madri.

É a mostra de maior sucesso do IMS até o momento, e uma de suas mais bem raciocinadas, com catálogo editado (178 págs., R$ 124,90). Titan organizara outras exposições monográficas, em torno das obras de artistas específicos da fotografia, que só agora começam a ganhar crédito no circuito das artes plásticas. Mas nesta, como ocorrera na exposição sobre o fotojornalismo da revista O Cruzeiro, em 2012, faz uma leitura transversal a partir das possibilidades do acervo. Sua ideia, acolhida pelo museu berlinense, foi a de contemplar quatro fotógrafos a atuar em um período crucial de 25 anos.

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A perplexidade no desfile de inauguração de Brasília, em 1955. (Medeiros)

Pelas fotografias de Gautherot, Thomaz Farkas, José Medeiros e Hans Gunter Flieg, desenham-se diferentes anseios. “Naquele início dos anos 1940, há uma mudança importante das técnicas fotográficas, e a câmera portátil se difunde em toda parte. O fotojornalismo se impõe e ocorre uma nova onda de imigração. Três entre esses fotógrafos, excetuado José Medeiros, vêm de fora. Nesse momento político, a propaganda varguista avança sobre a fotografia, incorporando-a à máquina da propaganda estatal. Em 1964,  a antiga proposta editorial de O Cruzeiro começa a fenecer e, com ela, uma produção característica.”

Por meio dessas fotografias em preto e branco, as formas se destacam e os campos de luz se abrem à densidade. Um tom melancólico nas capturas indica que essa modernidade talvez seja recebida com reserva pelos artistas. E nada se parece com o que Geraldo de Barros fez. “A partir da década de 1940, surgem várias definições do que é moderno na fotografia. O moderno no primeiro Farkas não é a modernidade na cabeça do Gautherot, na abordagem técnico-industrial do Flieg ou no cosmopolitismo muito carioca do Medeiros.” Para Titan, dizer que um deles fez mais que o outro ou imaginar Barros no pódio, enquanto Medeiros se vê distante da tendência, não pode ser sustentado.

A obra de Farkas recebe uma leitura além da abstracionista. Em Brasília, o fotógrafo não se interessa pelos claros e escuros ou pelas óbvias curvas da cidade. A essa altura amigo do fotojornalista Medeiros, ele parece buscar o instante decisivo. Uma imagem inédita registra o 21 de abril de 1960. É o dia da inauguração da capital, mas Farkas corta os edifícios na composição e se concentra nas cenas periféricas. Uma delas se dá quando a faixa “Vamos a Brasília” escorrega do FNM cercado de entulho. Os olhares dos personagens em torno do caminhão se desencontram. É um espírito de fim de festa, quando a festa nem mesmo começou.

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Usina Hidrelétrica de Peixoto no Rio Grande, por Hans Gunter Flieg, fotógrafo de outra modernidade

Farkas algo repete a desconexão que o amigo Medeiros notara durante o Sete de Setembro de 1955, no Rio de Janeiro. Ali, uma família negra aparecia vestida para o desfile, testemunhado, contudo, a distância. Cada um dos três adultos olhava para um lado, como se sua inclusão na modernidade se desse na circunstância de testemunhas isoladas. Duas crianças olhavam perplexas para o fotógrafo, com pequenas bandeiras brasileiras nas mãos. Medeiros caminhou do puro espetáculo das praias cariocas à inquietação dos xavantes na Serra do Roncador, da alta sociedade nos salões de carnaval aos terreiros de candomblé. Mas a figura central em suas fotos quase sempre pareceu distante do tempo vivido.

A paixão enciclopédica por todos os rostos, tão natural em Medeiros, jamais se vê na obra de Flieg, alemão que aqui chegou em 1939, aos 17 anos, e documentou os grandes projetos de engenharia. O que ele faz nem é síntese modernista, nem fotojornalismo, nem vanguarda. Há em Flieg, como observa Titan, um quarto sentido de modernidade. Suas máquinas têm algo de humano, como se atuassem em um filme mudo de René Clair. Entre todos os fotógrafos, é o mais sensual. Na usina hidrelétrica de Peixoto no Rio Grande, que ele registra entre São Paulo e Minas Gerais, há jorros de vida em 1972.