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Número 894,

Economia

Desemprego

Quem paga a conta pela crise econômica

por Juliana Elias — publicado 01/04/2016 15h07, última modificação 02/04/2016 00h43
Os trabalhadores são as vítimas da irresponsável guerra política em curso e da mais grave recessão desde o fim da ditadura
Itaci Batista/ Estadão Conteúdo
Rosemeire

O desemprego atingiu a família de Rosemeire Silva

Rosemeire Ferreira da Silva, auxiliar de enfermagem de 49 anos, mora no Pari, na zona leste de São Paulo, com o marido e dois filhos. Em dezembro, estava entre os demitidos da clínica onde trabalhava. Em janeiro o marido, pintor, perdeu o emprego com o fechamento da empresa de serviços de construção à qual prestava serviços. Os filhos não têm emprego fixo e a situação da família agrava-se com rapidez.

“A minha filha fazia um curso de recursos humanos em uma faculdade, mas agora teve de parar. E lá em casa já chegou ‘a cartinha’, um aviso enviado pela Caixa Econômica Federal, financiadora do apartamento da família em um conjunto habitacional, de dois meses de atraso nas parcelas do imóvel e do possível risco de despejo.

A mensalidade de 400 reais da faculdade da filha, dividida com a mãe, por ora não cabe mais no orçamento. “A ideia é ajeitar as coisas agora para ela retornar ao curso mais adiante.” Rosemeire também frequenta um curso superior de enfermagem, pago com um financiamento do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), e deve graduar-se no fim deste ano.

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A casa de Rosemeri está com prestações atrasadas e poderá aumentar o estoque de imóveis em oferta. (Itaci Batista/ Estadão Conteúdo)

A história da auxiliar é um exemplo da piora da situação das famílias no segundo ano consecutivo de recessão econômica no País. Segundo várias pesquisas, o roteiro de sobrevivência inclui, no início, o corte de despesas supérfluas, como idas ao salão de beleza, a restaurantes e viagens.

Depois, substituem-se produtos por alternativas mais baratas, o transporte particular por público, o plano pós-pago do celular por um pré-pago, a escola particular pela rede pública, a carne vermelha e o peito de peru por frango e mortadela.

O corte do plano de saúde e da faculdade vem logo depois. A última etapa é a queima de patrimônio, com a venda do automóvel e a troca da casa por uma habitação menor própria ou um imóvel alugado. 

“Se a família cortou o supérfluo ou substituível e chegou às contas básicas, é porque a situação financeira está grave”, diz Ricardo Rochman, professor de Finanças na Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas. “Cortes em educação, condomínio, prestação da casa, plano de saúde são um passo adiante da economia com substituições.”

Segundo uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria e do Ibope, entre 2008 e 2015 o porcentual dos indivíduos que alteraram algum hábito de consumo aumentou de 20% para 57% e a parcela daqueles sem planos de alterá-los caiu de 46% para 18%. Do total de entrevistados, 47% reduziram ou abandonaram o lazer e 49% diminuíram ou cortaram as idas a restaurantes.

O mesmo comportamento foi adotado por 41% na compra de vestuário e 43% contiveram ou suspenderam a carne vermelha. A troca de produtos por similares mais baratos foi uma opção para 72% dos pesquisados, enquanto 13% transferiram os filhos da escola particular para a rede pública, quase o dobro dos 7% de 2012.

No ano passado, houve uma redução de 1,5% no número de clientes da saúde suplementar, segundo a Associação Brasileira dos Planos de Saúde, a primeira queda depois de dez anos de crescimento contínuo. “Não falamos mais de índices econômicos, de grandes números feitos para bancos, indústria, governos.

A crise chegou também à casa da ‘dona Maria’ e ela foi obrigada a fazer o seu ‘ajuste fiscal’. A retração econômica atingiu o cotidiano das famílias”, descreve Renato Meirelles, diretor do instituto de pesquisa Data Popular.

Ou pagávamos o convênio médico ou comíamos. Prefiro comer”, resume Cláudia Souza, esteticista de 49 anos da zona sul de São Paulo.

O plano de saúde para a família com três filhos subiu para mais de 3,7 mil reais mensais no ano passado e pouco depois o marido Luiz Sergio, 70 anos, aposentou-se e passou a receber o equivalente à metade do seu salário de funcionário púbico, a principal renda da casa.

“Só para ele, o plano custaria 1,8 mil reais, quase o valor da aposentadoria inteira”, diz a esteticista. Fica mais barato pagar consultas médicas avulsas. Antes um complemento de renda, o seu trabalho de transporte de crianças tornou-se agora indispensável.

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O total de alunos em escolas particulares caiu 12%, calcula Amábile Pacios, da Fenep. (Telmo Ximenes)

Entre os demitidos que ficaram sem o convênio bancado pela empresa e os participantes individuais, 800 mil abandonaram os planos de saúde em 2015 por não terem mais condições de pagá-los. “Neste ano, estimamos perder outros 700 mil, com sorte”, diz o presidente da Abramge, Pedro Ramos.

Atualmente, 50 milhões de indivíduos têm plano particular de assistência médica no País, quase um quarto da população. Em 2006, eram 37 milhões. “Os clientes tentam ao máximo manter os seus planos de saúde, em uma situação de problemas enormes na rede pública.”  

No supermercado, compras mensais superiores a mil reais deram lugar a pequenos gastos semanais. A carne ainda faz parte do consumo, mas em menor quantidade. Os produtos de limpeza saíram da lista de supermercado de Cláudia Souza. “Compro cloro puro e preparo em casa, 1 litro diluído em água rende 10.”

A faxineira semanal foi dispensada e a família conseguiu vender rapidamente o segundo carro. O próximo plano é se desfazer da casa que, entre reformas e ampliações nos últimos anos, tem hoje quatro suítes. “Ficou muito grande para nós e o condomínio custa 650 reais.” 

Segundo a pesquisa CNI-Ibope, em 2012 e 2013 a prestação do imóvel era um problema para 15% a 20% dos entrevistados. No levantamento do ano passado, 29% informaram dificuldades em honrar as mensalidades.

“É por isso que começamos a ver de fato mudanças de casa, um dos últimos recursos”, analisa Maria Carolina Marques, economista da CNI. São cidadãos de menor renda que se mudaram para bairros melhores ou um imóvel maior.

Com a queda da renda, não conseguem manter o mesmo padrão de vida. “Vão para um lugar menor ou passam a morar na casa dos pais ou avós, um movimento que foi forte na Europa durante a crise e cresce por aqui.”SeuPaisDrummond01.jpg

A ocorrência simultânea de perda do emprego, redução do volume de trabalho para os autônomos e aumento dos preços obrigam ao corte de gastos.

O Produto Interno Bruto (PIB) caiu 3,8% em 2015, a maior queda anual desde 1981, e houve uma redução de 4% no consumo das famílias, a primeira retração desde 2003.

O desemprego, de 4% entre 2011 e 2014, atingiu 7,6% em janeiro, a maior taxa para o mês desde 2009, no acompanhamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em fevereiro, as empresas fecharam 104,6 mil postos de trabalho com carteira assinada, muito acima das 2,4 mil vagas extintas no mesmo mês do ano passado e o pior resultado para o mês desde 1992, segundo o Ministério do Trabalho e Previdência Social.

O rendimento médio do trabalhador brasileiro, segundo o IBGE, subiu 3% entre janeiro de 2015 e o mesmo mês deste ano, para 2.242 reais, mas o reajuste não cobriu a inflação e o resultado foi uma queda de 7% no poder de compra. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo, indicador oficial de inflação, gira na casa dos 10% ao ano, magnitude não atingida desde 2003. 

A crise obrigou a publicitária Helena Kolbe, 35 anos, a refazer as contas e cortar gastos. Desde 2009, quando a sua primeira filha nasceu, Kolbe parou de trabalhar e o marido, engenheiro de software, está empregado.

Com o crescimento dos filhos Lavínia, de 6 anos, e Henrique, de 4, precisaram de uma casa maior, mas o custo elevado dos imóveis em Santos levou-os a buscar uma alternativa em Valinhos, no interior de São Paulo.

A conta fechou só depois de transferirem os filhos de uma escola particular para a rede pública. “Sabíamos que Vinhedo tem uma boa rede municipal, botamos na ponta do lápis e vimos que era uma alternativa. Tem dado certo.” SeuPaisDrummond02.jpg

No início deste ano, o total de alunos das escolas particulares caiu 12%, em relação a 2015, segundo a Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep).

Foi a primeira retração depois de quase uma década do movimento inverso, de migração de alunos da rede pública para estabelecimentos pagos. “As famílias da classe C e D alimentaram esse crescimento.

Segundo as nossas pesquisas, ter o filho em escola particular era um dos seus sonhos”, diz Amábile Pacios, diretora da Fenep e coordenadora de um colégio em Brasília. “Agora, é naquele grupo que mais perdemos alunos.” 

A inflação dá indícios de queda, mas a retração ainda vai longe e eliminará mais empregos. Muitas empresas seguraram as demissões até pouco tempo atrás para evitar as elevadas despesas trabalhistas ligadas às dispensas, mas agora os cortes devem recrudescer.

Espera-se uma nova queda do PIB, entre 3% e 4% neste ano e a retomada do crescimento só depois de 2018. Para Rochman, “a única certeza é que as crises vêm e vão. O Brasil é mais maduro hoje e a economia talvez volte a crescer antes do previsto.” 

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Nelson Barbosa, da Fazenda, tenta outro pacote. Última cartada? (Gustavo Escatena/ Imagem Paulista)

Na segunda-feira 21, o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, apresentou um plano de reforma fiscal para aperfeiçoar a gestão das finanças da União e dos governos estaduais, estabilizar o nível de renda e o emprego e promover uma reestruturação fiscal duradoura e sustentável.

Na sexta-feira 18, durante o Fórum Brasil, evento realizado em São Paulo por CartaCapital, Barbosa antecipou uma das medidas, a negociação da dívida de estados e municípios, em prol do aumento dos investimentos públicos.

Além dessa iniciativa, o pacote inclui uma proposta de limite para o crescimento do gasto público, a criação do regime especial de contingenciamento e a possibilidade de usar depósitos remunerados voluntários no Banco Central como instrumento secundário de política monetária. Resta saber se o governo terá margem de negociação para colocar o plano em prática. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 894 de CartaCapital, com o título "Quem paga a conta"