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Número 894,

Internacional

Cuba

O abraço interrompido entre Cuba e EUA

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 06/04/2016 04h20
A visita longamente esperada trouxe poucas novidades concretas, mas muitos símbolos sugestivos
Nicholas Kamm/ AFP
Obama e Raul

Sem intimidades nem beijos. Raúl aceita a distenção, mas não está satisfeito e não se rende

Cercada de muita expectativa, a visita de Barack Obama a Raúl Castro não trouxe grandes surpresas. A maior parte dos avanços ao alcance da Casa Branca foi feita com antecedência.

Os passos recentes incluíram a autorização para até 110 voos regulares diários (20 para Havana) a partir de setembro, o restabelecimento do serviço direto de correios entre os dois países, a instalação da fábrica de tratores Saul Berenthal, em Mariel (graças a uma brecha legal no embargo aberta pela Zona Econômica Especial do porto) e da autorização para operar em Cuba da transnacional de telecomunicações AT&T e das hoteleiras Starwood e Marriott.

Havana, por sua vez, devolveu aos EUA um míssil da Otan enviado à ilha por engano em 2014 e retirou a sobretaxa de 10% antes imposta ao câmbio de dólares. O anúncio mais importante ligado à visita propriamente dita foi o de um acordo com a Google para ampliar a disponibilidade de banda larga e Wi-Fi em Cuba.

Convém notar, porém, a linguagem dos símbolos. Quando o presidente dos EUA anunciou seu desejo de ir a Cuba em 15 de dezembro, condicionou a visita a “progressos nas liberdades dos cubanos, porque não me interessa validar o status quo”.

Entretanto, a visita foi confirmada, em 18 de fevereiro, sem novidades significativas nessa direção e a nota oficial mencionou apenas a normalização de relações comerciais e reuniões com empresários. Obama não foi recebido pelo presidente cubano ao desembarcar do Air Force One no aeroporto de Havana e só o encontrou no palácio, sinal da disposição do governo castrista de negociar em seus próprios termos.

E Raúl, que não se negou aos protocolares apertos de mão, recusou ostensivamente o abraço do colega, sinal mais evidente das limitações do encontro.

Obama foi acompanhado em seu passeio pelo centro histórico da capital cubana pelo cardeal-arcebispo Jaime Ortega, um lembrete do papel mediador da Igreja Católica na reaproximação entre os dois governos, e deixou-se fotografar na Praça da Revolução, em frente aos monumentos a Che Guevara e Camilo Cienfuegos, como para mostrar sua disposição de trabalhar com Cuba tal como é.

A cena foi equilibrada pela banda da guarda cubana a tocar o hino nacional dos EUA, mas ainda assim enfureceu jornalistas e sites conservadores, esquecidos de que Richard Nixon e Bush pai posaram debaixo de retratos de Mao Tsé-Tung, Ronald Reagan falou aos soviéticos sob um busto de Lenin e Bush filho cumprimentou seu colega do Vietnã perto de uma pintura de Ho Chi Minh.  

Por outro lado, ao contrário do papa Francisco e da maioria dos presidentes latino-americanos que visitaram Cuba, Obama não foi ver Fidel. Raúl nunca foi menos radical que o irmão, antes pelo contrário (declarou-se marxista antes dele), mas o presidente dos EUA quer negociar um futuro e não rememorar o passado ou homenagear a revolução.

Sem deixar de reconhecer alguns de seus méritos, como ao agradecer a médicos cubanos por seu trabalho contra o Ebola na África e elogiar a parceria em vacinas contra o zika e câncer.

Raúl poderia ter feito um discurso conciliador, mas marcou posição. Além de cobrar o fim definitivo do embargo e a devolução da base de Guantánamo (o que não está no poder de Obama), desafiou um jornalista que perguntou pela libertação dos presos políticos: “Dê agora mesmo a lista dos presos políticos, mencione-a agora e antes do cair da noite estarão soltos”. 

Acontecem, sem dúvida, episódios de repressão, inclusive a detenção por horas de algumas integrantes do grupo oposicionista Damas de Branco ao realizarem um pequeno protesto antes da chegada de Obama, mas a existência de presos de consciência na ilha é no mínimo discutível. A Anistia Internacional não a reconhece.

A Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional, organização oposicionista legal da ilha, classifica como tais 77 presos por outros motivos alegados, mas convém lembrar que com critérios análogos, oposicionistas estadunidenses contam até 200 presos políticos nos EUA, Chelsea (ex-Bradley) Manning entre eles.

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Obama tenta vender aos cubanos o sonho de fazer de Havana uma outra Miami. (AFP)

Obama não quis entrar nessa discussão. Em seu discurso a Cuba com a presença de Raúl na tribuna e transmissão ao vivo pela tevê cubana, sua ênfase foi nos poderes milagrosos do livre-mercado.

“Muitos sugeriram que eu viesse a Cuba derrubar alguma coisa (alusão ao apelo de Ronald Reagan pela derrubada do Muro de Berlim ao visitar a cidade em 1987), mas eu apelo aos jovens para erguer algo.

Temos um claro exemplo do que o povo cubano pode construir, chama-se Miami. Que mudanças virão depende do povo cubano, não vamos impor nosso sistema. É tempo de suspender o embargo, mas mesmo que façamos isso amanhã, os cubanos não realizarão seu potencial sem mais liberdade para abrir negócios.”

O quadro pintado por Obama de uma Havana transformada em Miami soa irreal demais para seduzir tantos cubanos quanto ele gostaria. Para começar, mesmo em condições ideais quaisquer iniciativas de Cuba não teriam as facilidades, o mercado e o apoio financeiro que tiveram os empresários e profissionais fugidos do castrismo ao chegar à cidade da Flórida, importante e próspero refúgio de milionários desde bem antes (e mesmo hoje, eles e seus descendentes fazem apenas um terço da população).

Surpresas talvez aconteçam quando a envelhecida geração da Sierra Maestra for sucedida por lideranças mais jovens. Mais razoável, no entanto, é apostar em uma Cuba de economia mista e medianamente próspera, como a China ou o Vietnã de hoje. Em todo caso, é animador que o presidente dos EUA aposte em persuadir os jovens cubanos, oferecer-lhes acesso a informação pela internet e lhes apontar um futuro, mesmo quimérico, em vez de insistir em um retorno ao passado. 

Relativamente plausível nos anos 1960, a expectativa dos refugiados cubanos e seus descendentes de recuperar propriedades perdidas para a revolução condicionou a política e a diplomacia de Washington por tempo demais.

Cinquenta e sete anos depois, não faz muito mais sentido do que uma pretensão de recuperar propriedades perdidas para a revolução bolchevique ou de ser indenizado pela abolição da escravatura. Não para Obama, que lembrou ter nascido em 1961, ano da invasão da Praia Girón (Baía dos Porcos para os estadunidenses), embora ainda paute muito do discurso conservador nos EUA. 

Um advogado de famílias cubanas protestou por Obama discursar no Gran Teatro de La Habana (no qual também falara o último presidente dos EUA a visitar a ilha, Calvin Coolidge em 1928) por este ter sido “roubado” de seus clientes.

Outra família reclamou de ele “transformar um funeral em festa” ao assistir a um jogo de beisebol no estádio que lhes foi confiscado em 1960 ao se mudarem com seu time para New Jersey. Até o acordo para reabrir o aeroporto de Havana para voos regulares dos EUA foi contestado por seu suposto herdeiro José Ramón López, filho de um sócio de Fulgencio Batista:

“O aeroporto de Havana é propriedade privada – minha. Como podem empresas americanas ir para lá e beneficiar-se dele?” Por essas e outras, não há como imaginar uma normalização plena a curto prazo.

Aviões da Cubana de Aviación, que pertenceram à mesma família até 1958, correriam o risco de ser apreendidos pela Justiça dos EUA, que em 2011 condenou o governo cubano a indenizar em 2,8 bilhões de dólares o agente da CIA Gustavo Villoldo, que participou do bombardeio à Praia Girón e da captura e execução de Che Guevara, pela morte de seu pai, cujo suicídio, em 1959, foi atribuído às ameaças e pressão do governo revolucionário.

A esse obsoleto contencioso judicial soma-se o engessamento em lei do igualmente anacrônico embargo, por obra do ato Helms-Burton de 1996, assinado por Bill Clinton depois de aprovado pelo voto de praticamente todos os congressistas republicanos e da maioria dos senadores e de grande parte dos deputados democratas (não do então deputado independente Bernie Sanders), quando a crise cubana pós-soviética estava no auge e se supunha faltar apenas um empurrão para derrubar o castrismo.

A atual maioria da oposição nas duas casas inviabiliza a revogação desse aparato a curto prazo e a eventual vitória republicana nas eleições presidenciais provavelmente revogaria os avanços da era Obama.

Em todo caso, o presidente dos EUA sabe que a abertura de Cuba ao capitalismo é um assunto de médio e longo prazo. A razão mais importante para desafiar mais de meio século de inércia foi remover uma dificuldade no relacionamento com a América Latina para mais facilmente reincorporá-la à sua esfera de influência incontestável, que pretende reconstruir com a consolidação e expansão do Tratado Transpacífico e o desgaste econômico e político dos governos desenvolvimentistas sul-americanos.

À mesma estratégia pertence o apoio ao processo de paz na Colômbia e a reunião do secretário de Estado John Kerry com os negociadores das Farc em Havana. Ao contrário dos líderes dos EUA na Guerra Fria e de seus seguidores na América Latina, a política de Obama não pretende erradicar a esquerda, e sim domesticá-la, permitindo sua participação subordinada no jogo político conquanto não ameace os interesses das transnacionais ou o jogo estratégico com a China. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 894 de CartaCapital, com o título "O abraço interrompido"