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Número 894,

Cultura

Literatura

A era de ouro dos quadrinhos

por The Observer — publicado 01/04/2016 04h19, última modificação 01/04/2016 15h13
As HQs ampliam o público e já não são um território masculino
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Saga, a ópera espacial, demonstra ampliação e diversidade nos temas dos quadrinhos atuais

Por Andrew Harrison

Nada mata a excitação de um fenômeno da cultura pop como proclamar ter se tornado adulto ou maduro. Na última vez em que isso ocorreu com o mundo das histórias em quadrinhos, no fim dos anos 1980, a adoção de temas e situações adultas transformou-se em um beco sem saída.

Clássicos como a desconstrução do super-herói Watchmen, de Alan Moore, e seu thriller anarquista V de Vingança, ou a visão brutalista de Batman, o Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, passariam no teste do tempo. O problema é que não vinha nada depois.

Transcorridos 30 anos, estamos, porém, no meio de uma nova era de ouro das histórias com imagens, e desta vez muito diferente. Os quadrinhos crescem para fora e alcançam públicos mais amplos.

Há mais escritoras e artistas mulheres e criadores mais diversificados. Os melhores livros são movidos pelo imediatismo da pop art e a sensação de maravilhamento a tornar a forma tão viciante.

E, ao adaptar os principais personagens para franquias de cinema que dominaram as bilheterias nos últimos 15 anos, Hollywood trouxe novos leitores para os quadrinhos e permitiu a autores e desenhistas se afastar da obsessão pelos super-heróis.

Hoje os quadrinhos mais emocionantes tratam de temas acessíveis e amplos. Abordam família e diários de guerra, dramas adolescentes e adaptações de clássicos da literatura, tramas de realidade paralela ou escapadas interespaciais.

O mundo dos quadrinhos em 2016 se parece com o ramo da música em 1977-1980, quando selos ágeis independentes superaram as grandes companhias de discos e estas foram obrigadas a reagir.

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Kelly Sue DeConnick, humor ácido na criação de Bitch Planet

Os livros de super-heróis das duas maiores editoras, Marvel e DC, ainda dominam as listas de mais vendidos, mas títulos de editoras independentes, como Image, IDW, Boom! Studios e Dynamite, estão na corrida criativa.

Eles podem não ter a vantagem de branding de personagens como Homem de Ferro ou Super-Homem, mas seus números de vendas fariam inveja a muitas editoras. A primeira edição da história de ficção científica suburbana Paper Girls, do escritor Brian K. Vaughan, vendeu 75 mil exemplares.

O quinto volume de sua ópera espacial Saga vendeu mais de 29 mil cópias no primeiro mês. E isso não inclui a contribuição não especificada das vendas on demand para celulares e tablets.

“Os quadrinhos costumavam ser um gênero e hoje são finalmente aceitos como mídia”, diz Leah Moore, filha de Alan, que escreve para o semanário 2000 AD e faz a adaptação para quadrinhos de Sherlock Holmes. “Estamos próximos do ponto em que não curtir quadrinhos fará tão pouco sentido quanto não gostar de filmes ou romances.”

Steve Walsh, da Gosh! Comics, na Berwick Street, em Londres, concorda. “Sempre oferecemos um leque maior que o simples tema dos super-heróis, por isso sempre tivemos uma base de clientes diversificada. Mas até nós percebemos a chegada de mais mulheres e jovens à procura de um lugar para começar nos quadrinhos. É animador.”

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O traço orgânico de Fiona Staples confere humanidade à Saga

Na condução da nova onda está a ópera espacial de fugitivos Saga, da canadense Fiona Staples e de Vaughan, antigo coprodutor do seriado Lost.

Embora em um ambiente cósmico, cheio de sexo bizarro e povoado por aranhas humanoides assassinas e uma realeza de robôs com tevês no lugar da cabeça, Saga conta a história familiar emocionante, e muitas vezes engraçada, de Alana, Marko e uma criança que tentam criar juntos. Ela tem asas e vem do planeta ciência, ele tem chifres e vem do planeta magia.

É Romeu e Julieta no espaço e provavelmente o ponto de entrada mais fácil para o novo mundo da HQ. O amplo apelo da série repousa em grande parte no trabalho artístico orgânico e pictórico de Staples, que traz uma humanidade verossímil a seus ambientes de fantasia.

“É fascinante ouvir que Saga é a primeira HQ para tanta gente porque eu a criei em uma época em que estava muito frustrado com o cinema e a tevê e apenas queria fazer algo para mim mesmo. Eu acabara de me tornar pai e queria colocar todos aqueles sentimentos e emoções dentro de um épico, uma ópera espacial impossível de filmar. Ser o primeiro quadrinho para novos leitores é uma terrível responsabilidade. Ele conseguiu um público maior do que jamais tínhamos sonhado e é tudo por causa de Staples. É preciso ser um artista genial para tornar narráveis ideias inacessíveis. Ela transformou uma história para ninguém em uma história para quase todo mundo”, diz Vaughan.

Se sua primeira HQ não for Saga, então é provável que seja The Wicked + The Divine, fantasia ambientada numa Londres densamente povoada e visualmente deliciosa do escritor Kieron Gillen e do artista Jamie McKelvie. Mais enraizada na cultura dos fãs de rock e pop, WicDiv trata da recorrente reencarnação de um panteão de deuses em forma humana.

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The Wicked + The Divine, deliciosa metáfora sobre fama, juventude e mortalidade

O atual ciclo de deuses reencarna como astros pop inspirados em Prince, Kanye West e outros. Metáfora fascinante da juventude, fama e criatividade, a série tem seguidores fanáticos e uma conexão instintiva com as correntes das redes sociais. É moderna, gloriosamente pretensiosa e a narrativa limpa e pop art de McKelvie garante sua originalidade.

“O centro do meu livro é que meu pai morreu quando eu tinha 38 e aguardava os 40”, explica Gillen, ex-jornalista de games e prolífico autor de quadrinhos, escritor das séries Thor, X-Men e Homem de Ferro da Marvel. “The Wicked + The Divine é sobre a curta duração da vida. Se você sabe que vai morrer, por que fazer alguma coisa?” 

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O mundo misógino de Bitch Planet

Como a música e o cinema, a cena dos novos quadrinhos tornou-se um campo de batalha no debate de gêneros. Em janeiro, o festival de quadrinhos francês em Angoulême enfrentou um boicote de autores e artistas quando inicialmente deixou de indicar uma única mulher em todas as categorias de prêmios.

O drama de prisão Bitch Planet, da americana Kelly Sue DeConnick, passa-se em uma colônia penal feminina fora do mundo, para onde uma sociedade misógina envia rebeldes, assassinas, ladras e as que simplesmente respondem. Não há abraços e lições, mas mortes horríveis, e todos os homens são bastardos. É uma rebelião.

“Eu quis fazer uma sátira maliciosa, com um senso de humor indecente e uma sensação de fanzine, daí o incrível trabalho artístico de Valentine (De Landro)”, diz DeConnick. Ela escreveu Bitch Planet ao experimentar “uma espécie de revolta” após reinventar a heroína de maiô dos anos 70 Ms. Marvel como o Capitão Marvel, um soldado mais descontraído, com um novo nome que não delata o gênero, e sim um uniforme prático (desenhado por Jamie McKelvie, de WicDiv).

“A maioria dos leitores amou o Capitão Marvel, mas alguns caras me acusaram de arruinar os quadrinhos com minha horrível agenda feminista. Eu pensei: ‘Se vocês acham que isso foi pesado, ainda não viram nada’.”

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Kieron Gillen e Jamie McKelvie, autores de The Wicked + The Divine

De onde vêm todos esses novos leitores? Hoje há diversos pontos de entrada ao novo universo dos quadrinhos. Os filmes da Marvel abriram as portas para muita gente. A ascensão da companhia independente Image Comics (WicDiv, Bitch Planet, Saga e a série Os Mortos Vivos) ao terceiro lugar do setor, depois da Marvel e da DC, ajudou.

Mas a chegada dos smartphones e de apps de quadrinhos digitais como Comixology foi a chave para tornar as HQs mais acessíveis. “Se você tem um celular, tem uma HQ no bolso”, diz Brian Vaughan. “Você não precisa ir a uma livraria. Imediatamente tivemos mais leitoras mulheres que nunca. Quase um terço das vendas de Saga é de digitais hoje.”

Acima de tudo, houve uma “geekização” da cultura pop. Mangá, Marvel, cosplay, Doctor Who, Harry Potter, Adventure Time, o novo Star Trek, The Hunger Games, The Walking Dead, games online, Star Wars, Game of Thrones, em todos esses reinos de fãs é possível encontrar um lugar para construir sua identidade. 

*Publicado originalmente na edição 894 de CartaCapital, com o título "Era de ouro"