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Número 893,

Cultura

Música

Na música, o melhor drinque de Cuba

por Ana Ferraz publicado 25/03/2016 16h00, última modificação 26/03/2016 08h44
Cubanos radicados em São Paulo servem um coquetel de jazz, samba e tambores
Alexandre Inserra
Mombo que Sambo

Mambo que Sambo, um maestro e 27 músicos dispostos a incendiar o palco

Os atabaques rompem o silêncio. A pulsação sobe à medida que o ritmo acelera. Em iorubá, o maestro invoca a proteção dos orixás, num canto ancestral a unir as duas Áfricas. “Me gusta ser lo que soy, negro, índio, cubano, brasileiro”, entoa. Ao trompete, borda a melodia encorpada pelos tambores e ritmada pelo berimbau. Invoca a Bahia, o batuque cresce e com ele a energia, a esta altura quase palpável. A plateia deixa-se tomar pelo som poderoso e se entrega ao ritmo quente. 

Ele é Jorge Ceruto, cubano nascido há 44 anos em Guane, estado de Pinar del Río, “uma aldeia de índios perto do Golfo do México”. Passou a infância entre instrumentos espalhados na casa pelo pai e pelo avô, ambos maestros na orquestra formada por familiares, vizinhos e amigos. A mãe trabalhava no teatro, do outro lado da rua. 

Aos 2 anos arriscava brincadeiras na flauta e no sax, predileções paternas. Aos 6 escolheu o trompete. Ainda criança, manifestava a vontade de conhecer o Brasil. Desde 1998 o trompetista, cantor, compositor e arranjador vive no País. Atribui à fé e às energias por ela movimentadas uma série de fatos auspiciosos a lhe abrir os caminhos rumo à terra sonhada. 

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Jorge Ceruto, trompete e talento a serviço do encontro entre Cuba, Brasília e África (Alexandre Inserra)

No coquetel de fusões servido por Ceruto estão mambo, blues, samba e uma ampla gama de influências. “Trazemos um pouco dos lugares onde tocamos, das músicas que ouvimos. Tudo vem da África, do encontro de países de diferentes vertentes. Pesquiso e misturo ritmos, trabalho que desenvolvo desde Cuba, porque nasci tocando os tambores.” 

No Brasil, a primeira experiência forte foi no Candeal, em Salvador. “Quando vi a timbalada me senti no meio da África. Aí o coração bateu mesmo.” A música que intitula o primeiro CD, Mambo Que Sambo, foi uma homenagem a João Donato. “Quando nos encontramos, ficamos 72 horas falando de música.” O segundo CD, duplo, com 24 faixas autorais, deve ser concluído ainda neste semestre.

Outro cubano que cresceu sob o poderoso som dos atabaques é Pepe Cisneros, 47 anos. “Nasci em Guantânamo, no campo, lugar de muitas festas religiosas. A parede do meu quarto dava para o terreiro onde tocavam tambores”, conta o pianista, compositor e arranjador. Ele morava em Havana nos anos 1990 quando sentiu o baque da crise pós-queda da União Soviética. Os tempos difíceis foram um incentivo para acompanhar uma cantora ao Brasil. Tinha 24 anos e veio para São Paulo.  

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Claudia Rivera, do Nuevo Jazz, se apaixonou pelo piano ao ouvir Ernesto Lecuona. Tinha 4 anos ( Alexandre Inserra)

Se o estudo de Heitor Villa-Lobos durante os anos de formação em percussão e o piano na Escuela Nacional de Arte de Havana lhe abriram o apetite pela música brasileira, a fome se aprofundou ao ouvir os alquimistas Hermeto Paschoal e Egberto Gismonti em fitas cassete levadas por amigos brasileiros. “Era a cópia da cópia da cópia. E era o máximo. Quando cheguei aqui em 1992 percebi que o buraco era ainda maior. Conheci vários monstros. Arismar do Espírito Santo foi um dos primeiros. Vieram Sizão Machado, Nailor Proveta. Babei. O Brasil é quase um continente e eu pirei com os ritmos.” 

Forró, maracatu, xaxado, carimbó, samba. Engolfado pela pluralidade rítmica e desestimulado pela frágil situação de seu país, Cisneros adotou a nova terra. “Fiquei 20 anos sem voltar à Ilha. Meus pais, avós, irmã, uma sobrinha cantora, todos estão lá.” Artista de técnica refinada, elogiada por seus pares e pela crítica, e gosto apurado pelo jazz, formou em 2010 a banda instrumental Cuba 07. A influência de luminares tais como Miles Davis, John Coltrane, Thelonious Monk, Dizzie Gillespie aliada à envolvente levada cubana resulta em sonoridade ímpar. Trompete, sax, piano, contrabaixo e flauta, escoltados por timbales, congas e batas fazem explodir o caldeirão sonoro. 

A fusão entre música brasileira e cubana, “Cuba é minha mãe e o Brasil, o meu pai”, tomou forma em shows nos quais convidados como Fernando Ferrer, sobrinho do icônico cantor Ibrahim Ferrer, do Buena Vista Social Club, e a paulista Verônica Ferriani interpretaram clássicos imortalizados por Elis Regina. No momento, Cuba 07 finaliza gravação feita no Jazz nos Fundos com participação do saxofonista cubano Felipe Lamoglia. No repertório, peças de Cisneros e criações coletivas. 

À semelhança de Ceruto e Cisneros, Yaniel Matos foi criado entre músicos. Avós e tios tocavam nas festas familiares. Tinha 8 anos quando entrou para o Conservatorio Esteban Salas, em Santiago de Cuba, onde nasceu. Começava ali, ao piano e ao cello, promissora carreira que anos depois viria aportar no Brasil.  

 

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Pepe Cisneros, com sua banda Cuba 07, ficou extasiado ao conhecer os ritmos brasileiros (Alexandre Inserra)

“A música brasileira é muito rica em harmonia e melodias”, avalia o maestro, compositor e produtor que em agosto de 1999 veio a São Paulo com a orquestra de Issac Delgado, salseiro de grande popularidade, hábil na cozinha rítmica temperada com pop, jazz e ritmos afro-caribenhos. Jovem saído do concorrido Instituto Superior de Artes, Matos era respeitado e requisitado por grandes bandas como Orlando “Maraca” Valle e Paulo FG y su Élite. 

Seis meses após retornar a Cuba, surge nova temporada no Brasil. Na decisão de se estabelecer em definitivo pesaram o apreço pela terra de música inspiradora, o acolhimento e uma flechada certeira no lado esquerdo do peito. “Aqui é minha casa, tenho grandes amigos, família, minha música, estou feliz. Vir para cá e recomeçar foi como uma pós-graduação.” 

Na capital paulista, floresce a carreira do músico que admira Richard Wagner, Igor Stravinski, Keith Jarrett, Cecil Taylor, Alejandro García Caturla, Heitor Villa-Lobos. Matos lançou quatro CDs, os dois primeiros com o Mani Padme Trio (Um dia de Chuva, 2003, Depois, 2007) e os demais solo (Em Movimiento, 2008) e La Mirada (2014). Seu talento transita entre a pungência do cello e a pluralidade do piano e faz do improviso busca e realização. Prepara novo CD-solo, outro com o Mani Padme Trio e lança a primeira produção nos Estados Unidos ao lado da cantora texana Sarah Sharp. 

A flautista e pianista cubana Claudia Rivera tem no currículo 14 de seus 28 anos dedicados ao estudo da música. Diferentemente dos colegas de Ilha e ofício, não foi criada em meio musical. O pai é artista plástico e a mãe, quando em Havana, funcionária num hospital. A aproximá-la de Ceruto, Cisneros e Matos, além da sedução pela música brasileira e a vontade de fazer a carreira deslanchar a partir de São Paulo, estão o talento e a precocidade na definição da profissão. Tinha 4 anos quando ouviu no rádio Malagueña, de Ernesto Lecuona. Correu para a mãe e comunicou, “quero ser pianista”.

“É minha paixão”, diz sobre o instrumento cujo estudo iniciou aos 10 anos na Escola Vocacional de Arte Paulita Concepción. Dali passou para o Conservatório Amadeo Roldán, onde assim como nas demais instituições de ensino cubanas nota ruim significa expulsão automática. No momento de cursar a universidade veio para São Paulo e ingressou na Emesp Tom Jobim, onde se especializa em música brasileira e jazz. 

Como todo cubano tem um amigo brasileiro em missão musical catequizadora, essa indefectível figura fez um bom trabalho e Rivera ama Tom Jobim, Milton Nascimento, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, João Bosco, Elis Regina. Em fase de amadurecimento como compositora, mistura no cadinho os sotaques brasileiro, cubano e africano, se inspira em Chick Corea e Bill Evans e classifica como jazz suas criações, “porque jazz é sinônimo de liberdade”.

Fundou o grupo Nuevo Jazz (saxofone, piano e flauta, percussão e bateria) e participa do quinteto Batanga & Cia, do percussionista Pedro Bandera. Ampara-se nos êxitos obtidos para ir além. “Em Cuba o músico é valorizado, mas no momento de a carreira progredir as portas se fecham.” 

*Reportagem publicada originalmente na edição 893 de CartaCapital, com o título "O melhor drinque da ilha"

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