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Número 892,

Saúde

Epidemia

Vacina contra o zika

por Drauzio Varella publicado 16/03/2016 05h14
O que parecia uma virose banal virou emergência de saúde pública
Shutterstock

A doença causada pelo vírus zika só preocupou as autoridades sanitárias em 2015, quando surgiram os casos de microcefalia, em Pernambuco. Em menos de um ano o vírus espalhou-se pelo Brasil, América Central, Caribe e chegou ao México. Não há exemplo de doença transmitida por artrópodes com disseminação tão rápida. A busca de uma vacina tornou-se prioridade internacional.

Stanley Plotkin, da Universidade de Pensilvânia, declarou à revista Science: “Não vejo problemas técnicos como aqueles encontrados com as vacinas contra HIV, tuberculose e outros agentes”. Segundo ele, o zika é da família dos flavivírus, a mesma dos causadores da febre amarela, dengue e encefalite japonesa, para os quais há vacinas protetoras.

Na revista Science, o professor Jorge Kalil, diretor do Instituto Butantan, defendeu que uma preparação com vírus vivos, porém atenuados, pode ser segura e mais eficaz do que aquelas obtidas com vírus mortos.

O grupo do Butantan planeja empregar essa tecnologia, já usada pelo National Institute of Allergy and Infectious Diseases (Niaid) na obtenção da vacina contra a dengue licenciada pelo Butantan, para a fase de testes de eficácia em andamento.

O americano Thomas Monath, virologista da New Link Genetics que estudou o zika vírus em macacos da Nigéria nos anos 1970 e colaborou para a obtenção de uma vacina contra o ebola, levanta duas questões: 1. Não se sabe se a infecção pelo zika confere imunidade duradoura ou se a doença pode recidivar. 2. Se os anticorpos contra a dengue ou a febre amarela derem reação cruzada com os da vacina contra a zika, as avaliações de eficácia ficarão comprometidas.

Anthony Fauci, diretor do Niaid, sugere outra estratégia: inserir genes do vírus em plasmídeos (estruturas circulares de DNA) e infectar bactérias com eles, para que produzam partículas semelhantes ao zika, incapazes de se multiplicar, portanto, de causar doença.

O Instituto Jenner, da Inglaterra, trabalha com a introdução de uma proteína da superfície do zika em adenovírus inofensivos que infectam chimpanzés, para usá-los como vetores que ao vacinar seres humanos desencadeiem a formação de anticorpos antizika. 

Segundo Fauci, a fase de estudos em animais será completada em poucos meses. Estudos com número limitado de participantes estão previstos para o fim de 2016.

Ainda assim, uma vacina promissora levará anos para ser testada em estudos fase 3, antes da produção em larga escala.

Enquanto a vacina não chega, Jorge Kalil espera que o Butantan consiga produzir antissoros injetando o zika vírus em cavalos, para obter anticorpos protetores que possam ser administrados em seres humanos, tecnologia que o instituto domina há décadas.

Caso a doença provoque imunidade definitiva, tenho dúvida se a vacina chegará a tempo. Um vírus que se dissemina com tal velocidade poderá infectar tanta gente, que a vacinação se torne desnecessária ou indicada apenas para as mulheres em idade fértil.