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Número 892,

Economia

Superprodução

A crise abalou a siderurgia

por Vanderlei Campos — publicado 23/03/2016 04h38
A recessão e os chineses elevam os estoques mundiais de aço e o setor enfrenta 30% de ociosidade no País
Jarbas Oliveira
Siderurgia

Exceção à regra, a Siderúrgica do Pecém, no Ceará, deverá manter-se competitiva

siderurgia brasileira está no limite da sua resistência e busca medidas de proteção para preservar o seu parque produtivo. A maior crise já enfrentada pelo setor resultou até agora em mais de 30 mil demissões, 60 unidades industriais paralisadas, quase 30% de capacidade ociosa, redução de 16% no consumo interno em 2015 e depreciação generalizada dos preços internacionais.

Com investimento de 19 bilhões de dólares entre 2009 e 2014, o parque produtivo está atualizado tecnologicamente, mas os pagamentos do financiamento daquela modernização sobrecarregam o caixa das empresas, pressionado por sucessivas quedas dos preços internacionais e retração das vendas.

Com capacidade para produzir cerca de 50 milhões de toneladas por ano, as siderúrgicas do País não passaram de 33 milhões de toneladas no ano passado, em consequência principalmente da queda nas vendas internas. As exportações ganharam algum fôlego com a desvalorização cambial, mas conseguiram cobrir somente parte das perdas no mercado interno. 

Segundo estimativas de Luiz Francisco Caetano, analista de investimento da Planner Corretora, no ano passado o volume vendido ao exterior aumentou 52,1%, mas a receita caiu 13,5%, por causa do declínio dos preços do aço.

“As usinas estão se esforçando para não demitir”, diz Marco Polo de Melo Lopes, presidente-executivo do Instituto Aço Brasil. Neste momento, diz, o setor sacrifica as suas margens para manter volume e preservar uma escala capaz de sustentar a indústria.

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Desde o ano passado, a CSN paralisou três altos-fornos, um em Volta Redonda e dois em Cubatão (Foto: Andrew Harrer/Bloomberg News/Getty Images)

Hoje há um excedente entre 700 milhões e 800 milhões de toneladas de aço no mundo. Os planos de investimentos em siderurgia são de longo prazo, não permitem freadas bruscas e haverá um acréscimo de cerca de 100 milhões de toneladas na oferta neste ano. A formação dos estoques elevados começou entre 2001 e 2012, quando a produção dobrou de 800 milhões para 1,6 bilhão de toneladas.

A China participou com 84% daquela expansão. Representantes do setor nas Américas e na Europa apresentaram no mês passado à Organização Mundial do Comércio um alerta sobre o risco de se reconhecer a China como economia de mercado. Uma decisão nesse sentido impediria as ações anti-dumping, fundamentais para barrar a entrada nos mercados importadores de produtos chineses com preços artificialmente baixos.

A decisão sobre a mudança do status da China, prevista para o fim deste ano, coincidirá com o pico de produção e oferta, com maior risco de práticas anticompetitivas na indústria do aço, segundo o IABr. Em 2000, a China exportou para o Brasil 12 mil toneladas, 1,3% das importações do produto. Em 2014, forneceu 2,1 milhões de toneladas, 52% do total. “Ninguém cresce assim sem subsídio”, acredita Lopes.

Os Estados Unidos adotaram em dezembro medidas prejudiciais às exportações brasileiras para proteger as suas próprias siderúrgicas. O País deverá seguir o mesmo caminho para impedir danos irreversíveis ao setor. “No Brasil, poderá ocorrer alguma medida protecionista e isso traria algum alento à siderurgia nacional”, diz Caetano.

Em novembro, representantes do setor siderúrgico reuniram-se com a presidenta Dilma Rousseff, o ministro de Desenvolvimento Industrial e Comércio, Armando Monteiro, e o então ministro da Fazenda Joaquim Levy. Dilma determinou a criação de um grupo de trabalho com integrantes dos dois ministérios e da Casa Civil para analisar a situação da siderurgia. Ao lado de medidas de incentivo à exportação, a entidade propõe uma elevação da alíquota de importação, hoje entre 12% e 14%, para 35%, o que, segundo Lopes, está dentro dos padrões da OMC. A proposta gerou reação das indústrias consumidoras de aço, temerosas de aumentos dos preços do insumo.

O aguçamento da crise intensificou a movimentação dos empresários. No mês passado, os empresários Benjamin Mário Baptista Filho, presidente da ArcelorMittal Brasil e do Segmento de Aços Planos América do Sul, Benjamin Steinbruch, o principal executivo da Companhia Siderúrgica Nacional, e Jorge Gerdau Johannpeter, presidente do conselho de administração do Grupo Gerdau, reuniram-se com os ministros Jaques Wagner, da Casa Civil, e Armando Monteiro, do Mdic, para pleitear medidas em defesa do setor.

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O governo não descarta o reajuste das alíquotas de importação, mas a posição do governo é “examinar alternativas ao aumento de taxação”. Os empresários querem também tornar as exportações sustentáveis e pleiteiam uma compensação à redução de Reintegra, que devolve parte dos tributos aos exportadores, reduzido entre 1% e 3%. 

As indústrias dos setores metalomecânico, automotivo e de construção, equivalentes a cerca de 80% das empresas consumidoras de aço, calculam que as siderúrgicas nacionais representam 90% da oferta e praticam preços 35% superiores à média internacional. “Já disse aos empresários da siderurgia que o problema é demanda. Todos precisamos vender mais e não se consegue isso aumentando o nosso custo”, resume Carlos Pastoriza, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos. “Não vemos razão para aumentar a alíquota”, afirma José Romeu Ferraz Neto, presidente do Sindicato da Indústria de Construção Civil do Estado de São Paulo.

As pequenas e médias empresas do segmento de construção civil não costumam buscar fornecedores externos e a importação, portanto, estaria restrita às companhias de grande porte, hoje com poucos contratos de obras nas suas carteiras. Ferraz Neto reconhece as dificuldades do setor, mas lembra que nos momentos de aquecimento a indústria ficou mais exposta ainda aos fornecedores externos. “Se o concorrente estrangeiro cumpre as normas técnicas e não faz dumping, não há por que taxar mais”, defende.

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Segundo Luiz Moan, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, grande parte das importações da indústria automotiva se deve à necessidade de atender a características específicas dos produtos e pouco tem a ver com a busca de preços atrativos. Assim, um aumento de alíquotas incidiria sobre itens que não competem com o aço brasileiro. “No mundo há um excesso de aço e de veículos e estamos em situação difícil. A saída é política, é preciso recuperar o grande patrimônio do País, que é o seu mercado interno.”

Neste momento, a maior parte das grandes siderúrgicas posterga investimentos e reduz operações. No começo do ano, a CSN paralisou um alto-forno na Usina Presidente Vargas, em Volta Redonda.

Em 2015, a Usiminas desligou dois altos-fornos e desativou a produção de toda a área primária, inclusive da aciaria, nas suas instalações em Cubatão. A companhia conseguiu redirecionar 300 empregados para outras atividades da usina. Ainda assim, demitiu 1,8 mil. Para o presidente Rômel Erwin de Souza, as dispensas foram necessárias para manter os empregos remanescentes, incluídos aqueles das laminações da usina de Cubatão, que permanecerá em operação.

Em plena crise, entrará em operação neste semestre a Companhia Siderúrgica do Pecém, no Ceará, a única construída fora da China nos últimos anos, com investimentos de 5,4 bilhões de dólares. Segundo Sérgio Leite, presidente da CSP, o plano da empresa para o período de 2017 a 2019 prevê “margem suficiente para operar com competitividade nos próximos anos e atravessar com segurança e inovação este momento menos favorável”.

Além de contar com localização estratégica e as vantagens logísticas do Porto do Pecém, no Ceará, a CSP está instalada em uma zona de processamento de exportação, com acesso a incentivos fiscais para 80% da produção voltada à exportação.

*Reportagem publicada originalmente na edição 892 de CartaCapital, com o título "Fornos desativados"