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Número 892,

Política

Opinião

Brecht atualizado

por Celso Amorim — publicado 12/03/2016 19h51
Caberia um adendo à conhecida frase do dramaturgo alemão: Mais pobre é a nação que vilipendia seus heróis
Fred Stein/AFP

Há cerca de três semanas viajei a Roma, onde fui participar de um seminário organizado pela seção italiana da entidade ActionAid sobre cooperação para o desenvolvimento. Proferi também uma palestra na Universidade de Roma 3, a mais nova do complexo universitário da capital italiana, onde discorri sobre a política externa do governo Lula, sempre objeto de curiosidade e admiração da parte dos meios acadêmicos europeus. 

Meses antes, havia estado em outra universidade romana, La Sapienza, esta fundada no século XIV. Pela atitude da audiência e pelas perguntas, pude perceber o respeito que nossas ações externas inspiravam.

Tive experiências semelhantes no King’s College e na London School of Economics, no Reino Unido, para citar apenas dois dos centros universitários que visitei. O fato de terem chamado, para o seminário, um ex-ministro brasileiro, além da ministra do Desenvolvimento Social (representada por um secretário da pasta), é em si mesmo significativo.

Na verdade, o evento buscava caminhos para programas de combate à desigualdade, na Itália e no mundo. Nesses tempos de autoestima baixa, é gratificante perceber que nosso país continua a ser uma referência em temas vitais para a construção de um mundo mais justo.

Fui a Roma pela Alitalia, que, a exemplo de outras companhias, mantém convênio com entidades dedicadas à assistência a populações carentes. Nesse caso, tratava-se do Programa Mundial de Alimentos, o PMA, órgão das Nações Unidas, com sede na capital italiana, e dedicado a suprir carências alimentares, na maior parte das vezes em caráter emergencial.

No passado, e ainda hoje, creio, o PMA tem servido para escoar excedentes agrícolas dos países ricos, principalmente dos Estados Unidos. Assim, além dos objetivos humanitários, as doações ao programa constituíam uma maneira de subsidiar os agricultores dos países desenvolvidos, criando uma forma sutil de concorrência desleal com as nações mais pobres, produtoras de gêneros alimentícios.

O fato é, porém, que o PMA, até aqui sempre dirigido por uma personalidade norte-americana, transformou-se em um órgão atuante, com impressionante capacidade logística, da qual a ONU se vale para outras atividades (emergências de saúde, desastres naturais).

No Haiti, logo após o terremoto de 2010, pude testemunhar a eficiência e a dedicação dos seus funcionários e dirigentes. Tudo isso para dizer que, no citado voo da companhia de aviação italiana, pude ver, na tela à frente da minha poltrona, a publicidade do PMA. Imediatamente, chamou-me a atenção o lema criado para atrair doações: “Zero Hunger” ou, em italiano, muito próximo do português, “Fame Zero”. 

Minha primeira reação foi de indignação pela apropriação do nome do nosso programa, sem crédito ao original. Mas, ao pensar melhor, considerei que o mais importante era o fato de uma ideia, nascida em nosso país e levada aos quatro cantos do mundo pelo presidente Lula (e imitada em muitos lugares), tivesse penetrado tão profundamente na mente de políticos, ativistas e acadêmicos planeta afora, a ponto de se tornar lema de uma campanha de um organismo internacional dirigido por uma norte-americana. Assim, antes de indignar-me, deveria rejubilar-me com aquele plágio não confessado. 

Este é apenas um exemplo de como as nossas atitudes no campo externo, lideradas pelo ex-presidente, deixaram marcas profundas.

Para ficar restrito ao campo da cooperação, recordo-me de que, certa vez, o homem então mais rico do mundo, Bill Gates, que desenvolve atividades importantes de filantropia, esperou quase meia hora por mim no escritório de nossa missão nas Nações Unidas, em Nova York, almoçando o sanduíche que trouxera em um brown bag, enquanto eu terminava uma reunião com os ministros dos BRICS.

Quando finalmente pude recebê-lo, Gates me propôs uma parceria de sua fundação com a Agência Brasileira de Cooperação para ações conjuntas, na área da saúde, na África.

Ao lembrar-me desses episódios, ao ver o homem que mais batalhou pela igualdade no Brasil e no mundo e que inspirou nossas políticas ser humilhado por meio de procedimentos truculentos desnecessários e ser vítima de um verdadeiro cerco, minha tristeza cresce ainda mais.  

Recentemente, vi citada na mídia uma cena que eu mesmo havia relembrado em um artigo que escrevi sobre Glauber Rocha, há 30 anos. Ao fim de sua peça intitulada Galileu Galilei, Bertolt Brecht põe na boca do jovem assistente do sábio, Andrea Sarti, a exclamação “Pobre da nação que não tem heróis”, à qual Galileu responde com uma afirmação dura e penetrante: “Não Andrea, pobre da nação que precisa de heróis”.

Ao ver o operário metalúrgico, que alçado à condição de líder político, diminuiu a desigualdade em nosso país e colocou o Brasil no mundo, pensei que Brecht poderia ter complementado seu pensamento: “Mais pobre ainda, Andrea, é o país que vilipendia seus heróis”.

*Foi chanceler durante os governos Lula e ministro da Defesa no primeiro mandato de Dilma Rousseff.