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Número 891,

Sociedade

Brasiliana

Parque Lange

por René Ruschel — publicado 18/03/2016 19h49, última modificação 20/03/2016 11h02
Um engenheiro de 94 anos mantém um refúgio natural no meio de Curitiba
René Ruschel
Lothar-Lange

Para cada neto que nasce, planto uma araucária, diz Lothar Lange

Em um bairro de classe média em Curitiba, o engenheiro Francisco Lothar Paulo Lange luta contra o avanço da cidade. Ao seu redor nascem ruas, crescem prédios, multiplicam-se os carros. Mas Lange ignora o progresso urbano, resguardado em um santuário de 800 metros quadrados.

Em vez de asfaltos, calçadas e paralelepípedos, flores e pinheiros de mais de 50 anos. O canto dos pássaros abafa o barulho das buzinas. As paredes de madeira, enfeitadas com fotos antigas, lembram uma casa de campo e destoam do exibicionismo kitsch da vizinhança. 

Aos 94 anos, Lange não desiste. A perda da audição o obriga a usar um aparelho no ouvido. Para ler e escrever recorre a uma lupa. “Não consigo ficar parado. Preciso estar sempre ativo.”

Nascido em Ponta Grossa, a 100 quilômetros de Curitiba, descendente de alemães, austríacos e dinamarqueses, graduou-se em 1948 em engenharia elétrica e mecânica no extinto Instituto de Engenharia de Itajubá, em Minas Gerais, atualmente uma universidade federal. “Todos os meus colegas de turma faleceram. Só eu resisto ao tempo”, afirma com muito bom humor e uma ponta de orgulho.

Antes de voltar ao estado natal, trabalhou na Companhia Docas de Santos. Em 1953, plantou raízes (literalmente) em Curitiba. Funcionário da empresa estatal de energia elétrica, desbravou os rincões paranaenses para levar luz aos moradores. Em um velho mapa, guardado entre livros e documentos pessoais, anotou o nome de todas as cidades e regiões por onde passou a serviço da Copel. 

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A casa de madeira, modesta, ocupa um pequeno espaço nos 800m² (Foto: René Ruschel)

Em 1977, Lange aposentou-se do serviço público, mas não vestiu o pijama. Durante dez anos atuou como consultor da Copel. Aos 68 anos, considerou ter chegado a hora de mudar a rotina e buscar novos desafios. Decidiu voltar às origens da infância e instalou-se em uma pequena propriedade rural em Ponta Grossa. Enquanto buscava inspiração, transformou-se em agricultor e artesão.

Plantou milho e criou carneiros, animais que lhe rendiam a lã para ponchos e tapetes. Seria a capacidade de se reinventar o segredo da longevidade? “Meu pai é um homem prático. Quando define algo, simplesmente planeja e executa. Seus objetivos são as suas necessidades”, diz o também engenheiro Francisco Lange Junior.

Lothar Lange
Sua casa abriga flores e pinheiros de mais de 50 anos (Foto: René Ruschel)
À exceção dos livros técnicos, Lange nunca foi um leitor voraz na juventude ou ao longo da vida adulta. Até chegar aos 70 anos, quando se tornou escritor e tradutor, embora rejeite as duas definições. “Não sou escritor. Apenas retrato o que vi na convivência com os outros”, define-se, modestamente. Empírico, foi observador atento do comportamento e das necessidades humanas. Apesar de não ser “escritor”, publicou 12 títulos desde então.

Lange narrou a história dos Campos Gerais, região onde nasceu, descreveu a cultura e o cotidiano dos “guartelhanos”, moradores originários do Cânion Guartelá, considerado o sexto maior do mundo em extensão, registrou a vida nômade dos tropeiros que cortavam o estado para vender mulas em São Paulo e remontou o surgimento da Baía de Paranaguá, a cidade mais antiga do Paraná, fundada em 1648. 

O décimo terceiro livro está pronto, à espera de publicação. Nos anteriores, Lange encarregou-se pessoalmente de todos os detalhes, da diagramação à impressão. Desta vez, por conta da idade avançada, entregou os originais e a tarefa de concluir o trabalho ao filho. Seria uma autobiografia?, pergunto. Sua vida, responde, é muito simples e ele acredita não ter o que ensinar aos leitores.

A obra, explica, é antes um relato do que viu e viveu em quase um século de existência. “Para mim, escrever é como fazer uma viagem sem se preocupar com a chegada e que só tem importância enquanto dura.” Considera-se um homem privilegiado, que teve a oportunidade de assistir às profundas mutações do planeta. “Algumas boas, outras nem tanto”, acrescenta. 

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Lange começou a escrever aos 70 anos e aguarda a publicação de seu 13º livro (Foto: René Ruschel)

E o futuro? Ele diz não pensar a respeito. Quer continuar a plantar araucárias para comemorar a chegada dos netos. “Cada um que nasce, eu planto uma árvore. Já são quatro, mas apenas duas, ‘Alexandre’ e ‘Paulo’, produzem pinhão”.

Acredita que sua missão como escritor está encerrada. “Acho que agora chega”, comenta com um leve sorriso. Outras empreitadas o esperam. Enquanto isso, lá fora, entre buzinas e fumaça, Curitiba, sem notar a presença discreta de Lange, segue seu destino.

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