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Número 891,

Economia

Análise

A austeridade não funciona

por Luiz Gonzaga Belluzzo e Gabriel Galípolo — publicado 14/03/2016 02h05
No Brasil dos juros aberrantes, chama a atenção o desprezo pelo óbvio. Burrice demais, às vezes, é esperteza
The Print Collector/Getty Images
Austeridade

O mantra da mídia é de que só o arrocho salarial, a precarização da saúde e as táticas de extermínio de idosos poderão nos salvar

Dizia o Barão de Itararé: de onde menos se espera, não sai nada mesmo. A edição do dia 19 de fevereiro de 2016 da revista The Economist dispôs-se, entretanto, a contrariar a máxima do Barão.

As matérias intituladas “Sem munição” e “Estranhos caminhos para a frente” corroboram o fracasso do quantitative easing em reanimar as economias desenvolvidas. Na esteira dos estudos do Bank for International Settlements e do Federal Reserve, já mencionados em nosso artigo anterior, a quase bicentenária e conservadora revista constata o que os conservadores nativos não enxergam.

A expansão da liquidez financia a aquisição de ativos já existentes, reais ou financeiros, como a recompra das próprias ações ou o aumento de recursos líquidos a fim de acumular ativos financeiros e reforçar balanços, em vez de financiar a aquisição de bens e serviços. Novas bolhas de ativos.

A The Economist chama a atenção do leitor para os receios que assediam os investidores: a economia mundial estaria afundando em outra desaceleração. Diante da impossibilidade de manejo das taxas de juro, já negativas ou próximas de zero na maioria das economias desenvolvidas, os policymakers estão desarmados para enfrentar a recessão.

Em vez de repetir o mantra da mídia brasileira, de que só o arrocho salarial, a precarização da saúde e as táticas de extermínio de idosos poderão nos salvar, a The Economist sugere providências para sacudir as economias do seu letárgico crescimento. A revista desanca, de forma tão surpreendente quanto bem-vinda, governos que abraçam a austeridade e trabalham contra os estímulos fiscais.  

É particularmente heterodoxa a conclamação aos políticos para que se juntem aos bancos centrais no combate à crise. Lá vai a bomba dos herdeiros de Walter Bagehot: “Passar por cima dos bancos e mercados financeiros e pôr dinheiro fresco diretamente no bolso das pessoas (...) Encorajando-as a gastar e não poupar ” ou “ganhos salariais para gerar uma espiral salários-preço”.

A revista sugere também o manejo de “ferramentas menos arriscadas”. Propõe desavergonhadamente o emprego da política fiscal para estimular o crescimento, uma heresia capaz de provocar frêmitos e chiados na opinião pública nativa:

“Mercados de ativos (bond markets) e agências de classificação vão olhar mais gentilmente o aumento da dívida pública se existirem ativos frescos e produtivos do outro lado dos balanços. Acima de tudo, tais ativos deveriam envolver infraestrutura (...) Seria sábio para os governos trabalharem mais na melhora da infraestrutura pública (...) Programas maiores e de longa duração de gastos de capital público dariam às empresas privadas uma maior confiança sobre a demanda futura e tornariam mais provável uma recuperação sustentada”.

Qualquer semelhança com as ideias apresentadas na Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de John Maynard Keynes, a mais importante contribuição do século XX ao pensamento econômico, não é mera coincidência. A Teoria Geral completa 80 anos nas noites de 2016.

O leitor não deve se deixar enganar e pensar que matérias como as da The Economist ou filmes como a Grande Aposta se referem a questões e problemas exclusivos às economias desenvolvidas.

As exóticas operações financeiras que antecederam a crise de 2008 no mercado hipotecário estadunidense, os mais de 500 bilhões de reais de juros que afundam a economia brasileira na depressão e destroem os balanços privados ou a exposição em derivativos do Deutsche Bank, equivalente a 20 vezes o PIB alemão, são manifestações do mesmo fenômeno, o fetiche da liquidez.  

Os juros altos daqui e os juros negativos de lá são a frente e o avesso do mesmo: exprimem o colapso das expectativas de longo prazo acerca dos rendimentos dos ativos reprodutivos e a corrida para os títulos dos governos. Uns porque a inflação é muito baixa, outros porque a projetam muito alta depois de um choque insensato de preços administrados.

Aqueles que tiverem a oportunidade de assistir à façanha cinematográfica de Adam McKay, A Grande Aposta (The Big Short), terão a oportunidade de compreender como o fetiche da liquidez transformou o mercado financeiro em uma pirâmide de apostas simultâneas na valorização e na desvalorização da riqueza fictícia.

No final da corrida dos insensatos, não somente os investidores contracorrente botaram as fichas na queda dos Collateralized Debt Obligation (CDOs), e de outros ativos lastreados em hipotecas.

Também os “grandes demais para falir” jogaram contra as próprias redes: enquanto vendiam para os clientes a gororoba tóxica, apostavam na desvalorização dos papéis, comprando seguros de crédito. O “short” foi mais “big” do que sugere o livro de Michael Lewis que inspirou o filme. No episódio, gol contra contou a favor.  

O supracitado Keynes tinha familiaridade com os mercados financeiros. Foi trader bem-sucedido, com algumas derrotas. O saldo, no entanto, foi bastante positivo. Morreu rico. Rico, mas não hipócrita.

Escreveu na Teoria Geral: “Este é o resultado inevitável dos mercados financeiros organizados em torno da chamada ‘liquidez’. Entre as máximas da finança ortodoxa, seguramente nenhuma é mais antissocial que o fetiche da liquidez, a doutrina que diz ser uma das virtudes positivas das instituições investidoras concentrar seus recursos na posse de valores ‘líquidos’. Ela ignora que não existe algo como a liquidez do investimento para a comunidade como um todo. A finalidade social do investimento bem orientado deveria ser o domínio das forças obscuras do tempo e da ignorância que rodeiam o nosso futuro. O objetivo real e secreto dos investimentos mais habilmente efetuados em nossos dias é ‘sair disparado na frente’ como se diz coloquialmente, estimular a multidão e transferir adiante a moeda falsa ou em depreciação”. 

Prossegue o rico irreverente: “Esta luta de esperteza para prever com alguns meses de antecedência as bases de avaliação convencional, muito mais do que a renda provável de um investimento durante anos, nem sequer exige que haja idiotas no público para encher a pança dos profissionais, a partida pode ser jogada entre estes mesmos. Também não é necessário que alguns continuem acreditando, ingenuamente, que a base convencional de avaliação tenha qualquer validade real a longo prazo. Trata-se, por assim dizer, de brincadeiras como o jogo do anel, a cabra-cega, as cadeiras musicais. É preciso passar o anel ao vizinho antes de o jogo acabar, agarrar o outro para ser por este substituído, encontrar uma cadeira antes que a música pare. Esses passatempos podem constituir agradáveis distrações e despertar muito entusiasmo, embora todos os participantes saibam que é a cabra-cega que está dando voltas a esmo ou que, quando a música para, alguém ficará sem assento”. (Keynes, Teoria Geral, p.129, 1936).

Nos capítulos finais de sua Teoria Geral, Keynes conclui que não se pode com segurança abandonar à iniciativa privada o cuidado de regular o volume correto do investimento e propõe a eutanásia do rentista e, consequentemente, a eutanásia do poder opressor cumulativo do capitalista para explorar o valor da escassez de capital.

O número de livros, textos, matérias jornalísticas e filmes críticos ao mercado financeiro, produzidos após a crise de 2008, revela o aguçamento das consciências mais alertas para as consequências sobre nossas vidas das apostas e jogos dos homens das finanças. No Brasil dos juros mais altos do mundo, chama atenção o desprezo pelo óbvio. Burrice demais é esperteza.

*Análise publicada originalmente na edição 891 de CartaCapital, com o título "Se apertar mais, mata"