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Número 890,

Cultura

Protagonista

Umberto Eco, o último pensador

por Rosane Pavam publicado 27/02/2016 03h59
Escritor italiano valeu-se da erudição e do humor para narrar a trajetória dos perdedores
Giuseppe Cacace/AFP
Umberto-Eco

Conspirações, línguas inventadas, o submundo dos invisíveis nas narrativas do escritor

Um livro Umberto Eco jamais escreveu. Aquele no qual explicaria por que o ato de rir guarda relação direta com o fato de sabermos que vamos morrer. Era um texto difícil de ser escrito, ele argumentava, porque um homem tem várias razões para soltar uma gargalhada.

Por estar feliz, em primeiro lugar, embora os soldados japoneses o tivessem feito não porque se sentissem alegres, antes pela vergonha da prisão sob os americanos, assim como qualquer espectador pudesse abrir o sorriso durante um show de strip-tease apenas para dominar a timidez.

Mentir e rir seriam, segundo o escritor italiano, aquelas ações nas quais os homens de fato poderiam dizer-se exclusivamente humanos. Os bichos, ao contrário dos homens, desconhecem que são mortais e se veem incapazes de produzir esse efeito do humor. Portanto, sua suspeita era a de que, quando riem, em verdade os homens se revelam conscientes da própria morte.

Escritor, professor e máximo pensador contemporâneo, Umberto Eco morreu em sua residência milanesa aos 84 anos, no último dia 19, de causa não revelada pela família, ciente de que seria possível reconstituir tal argumentação, embora ele não tivesse se detido na produção desse manuscrito.

Bastaria, para isso, que um bom investigador de indícios perseguisse o fio de sua história, dizia. Esse sucessor teria de se dispor a uma incansável narrativa em que os acontecimentos do presente se casassem com as análises contextuais de símbolos, signos e hermetismos dos tratados medievais e compêndios pela história.

E precisaria usar de todo o artifício para armar, a partir de seus argumentos, um enredo inescapável, de que o leitor jamais se cansasse. Mas que outro escritor, exceto o italiano, teria idêntico talento para transformar em narrativa sem fôlego uma aventura intelectual?

Eco morreu como personagem de Eco ao sugerir a existência de um mistério sem muita chance de solucionar-se, um empreendimento, portanto, sobre o qual penderia a ameaçadora sombra do fracasso. Ele amava os perdedores, as teses que a ciência comprovava infundadas. “Coleciono livros sobre temas em que não acredito, cabala, alquimia, magia, línguas inventadas. Livros que mentem, ainda que involuntariamente”, contava.

“Tenho Ptolomeu em minha biblioteca, não Galileu, porque Galileu disse a verdade. Eu prefiro a ciência lunática.” Suspeitava que Dan Brown, o autor de O Código da Vinci, fosse em verdade um personagem de O Pêndulo de Foucault, seu romance com mais edições no Brasil, 19 desde o lançamento, em 1989, no qual a teoria da conspiração nadava em caldo esotérico.

“Eu inventei Dan Brown”, afirmava. “Ele compartilha meu fascínio pelos conspiradores maçons, pelos confrades da Rosacruz, os jesuítas, os templários, o segredo hermético, o princípio de que tudo se conecta. Talvez Dan Brown nem mesmo exista. E, se existir, ao contrário do que ocorre comigo, acreditará naquilo que relata.”

Dos perdedores da história tratavam direta ou indiretamente os 50 mil títulos de sua biblioteca, 30 mil deles encaixados entre os labirintos de estantes da Milão onde morava e 20 mil organizados na sua casa de veraneio em Urbino. Na residência milanesa ele escreveu O Nome da Rosa, sua primeira ficção, publicada quando ele contava 48 anos, em 1980.

“Adiei o momento de contar histórias porque tinha outras coisas para fazer. Só depois de ter conseguido o que queria, o meu lugar na universidade, a publicação dos meus ensaios, dois filhos, perguntei-me: ‘O que vou fazer agora?’ Vou contar histórias.”

Foram 10 milhões de exemplares de seu romance de estreia em 30 línguas. E 12 edições brasileiras desde a pioneira, em 1983. O enredo transcorre em um monastério do século XIV onde religiosos são assassinados. O monge William de Baskerville conduz a investigação, que se dará em torno do segundo volume da Poética, o tratado desaparecido de Aristóteles sobre a comédia.

Em 1986, o filme a partir do livro foi levado às telas pelo cineasta Jean-Jacques Annaud, mais uma vez merecedor de enorme atenção pública. Mas a obra cinematográfica recusara diversas passagens do livro, cujos capítulos poderiam discorrer longamente sobre a teologia cristã e o pensamento herege.

Meses após a estreia, perguntaram a Eco se ele tinha gostado da adaptação cinematográfica. “Você deve estar brincando”, respondeu. “Cortaram dois terços do meu livro, tiraram dele todas as discussões sobre Escolástica, centraram o enredo no crime do mosteiro e na iniciação sexual do noviço, além de terem colocado um galã como Sean Connery para interpretar o baixinho e feioso Baskerville, com o objetivo de ganhar milhões de espectadores no mundo. Você pergunta se eu gostei? Eu adorei.”

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Em visita ao set de O Nome da Rosa, adaptação na qual atuaram Sean Connery e Murray Abraham (Collection Cinema/AFP)

Com Umberto Eco, muitos leitores viram o conhecimento pela primeira vez. Em seus 20 livros de ensaios e sete romances, produzidos por cinco décadas, o professor da Universidade de Bolonha desenhou os muitos retratos da morte, do humor e da aventura, como aqueles em Baudolino, Kant e o Ornitorrinco, Entre a Mentira e a Ironia ou A História da Feiura, sem dar ao leitor a chance de entediar-se.

O particular em sua escrita era que possuísse dois níveis, o da descrição de acontecimentos e o de seus subentendidos, ele que, semioticista e historiador, dissecava signos e símbolos, falava várias línguas e analisava em profundidade as religiões medievais, a música contemporânea ou os quadrinhos, os perfis dos cômicos, dos desenhistas e dos cientistas, com o sabor da literatura.

Crescera com as revistas dos pais e os livros do avô, um encadernador cujos preciosos trabalhos à época de sua morte não haviam sido reclamados pelos clientes e restavam numa caixa no sótão. Era apaixonado pelo texto tanto quanto pelo processo de ilustrá-lo e escreveu histórias em quadrinhos na juventude.

Seu fascínio pelas narrativas populares levou-o a considerar que era injusta a crença de que os produtos nascidos da indústria cultural necessariamente representassem um mal a ser combatido.

Nos ensaios de Apocalípticos e Integrados (1965), buscou abordar a cultura de massa de um novo modo. Ele condenava a recusa apocalíptica a toda cultura nascida fora da elite, como os gibis, ao mesmo tempo que equivalia a um erro a integração sem crítica aos fenômenos da sociedade de massa, como a tevê.

Em ficções como Número Zero, do ano passado, realçava o verdadeiro intento de um jornal informativo, o de chantagear, difamar e prestar serviços a seu editor.

Era um autor culto, largamente apreciado pelos que o liam. “Sempre me perguntam por que meus romances, tão difíceis, têm sucesso certo”, disse certa vez.

“Sinto-me ofendido pela questão. É como se perguntassem a uma mulher: ‘Como os homens podem se interessar por você?’ Eu também gosto de livros fáceis que me põem imediatamente para dormir.” Em uma palestra recente, atacou as redes sociais. “Antes os imbecis falavam sozinhos no bar depois de um copo de vinho, e eram geralmente silenciados.

Agora, pelo Twitter ou pelo Facebook, têm o mesmo direito de falar que um Prêmio Nobel. Mas é normal e acontece em muitas comunidades. Nos grupos com mais de 50 pessoas, aquelas que se expõem são sempre as idiotas.”

No fim do ano passado, Umberto Eco, que abandonara o cigarro, mas portava um deles sempre apagado ou a ponta de uma cigarrilha, de modo a ainda reproduzir os gestos do fumante, anunciara a criação da editora La nave di Teseo.

Ele a fundara na companhia de antigos funcionários da Bompiani, que, incorporada ao Grupo Mondadori, sofria o infortúnio de se ver comandada por Silvio Berlusconi.

Com o objetivo de combater a concentração editorial, que entrega o negócio dos livros a amadores endinheirados e corrompidos, La nave di Teseo anunciou a publicação de 50 títulos anuais. O último livro de Eco, o ensaístico Pape Satàn Aleppe, que abriria os trabalhos da casa em maio, teve o lançamento antecipado para sábado 27, uma semana após a morte do escritor.

*Obituário publicado originalmente na edição 890 de CartaCapital, com o título "O último pensador"

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