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Número 890,

Internacional

Britânica

Expulsos do paraíso

por Francisco Colaço Pedro — publicado 17/03/2016 01h41, última modificação 22/03/2016 17h02
A saga dos últimos nativos de Chagos contra a rainha Elizabeth II e os Estados Unidos
Ilhas Maurício

Os chagossianos querem de volta as suas ilhas, ocupadas por uma base dos EUA

Em Port Louis, Ilhas Maurício

A ilha foi vendida”, anunciaram. “Nunca mais regressarão.” Olivier Bancoult tinha 4 anos quando sua família recebeu a notícia. Nasceu em Chagos, arquipélago perdido no Oceano Índico 7 graus ao Sul do Equador, batizado por portugueses, colonizado por franceses e britânicos. “Somos descendentes dos escravos”, conta, “vivíamos em prosperidade, com a nossa língua, cultura e tradições.” Rita David, natural de Diego Garcia, a maior das 60 ilhas e atóis, emenda: “A vida era fácil, cheia de alegria. Cada habitante tinha a sua casa e a sua horta. Servíamos a terra, a terra nos servia”. 

Tudo começou a mudar em meados dos anos 60 do século passado. Os Estados Unidos consideraram o lugar ideal para uma base militar. “Dona” da região, a Inglaterra trocou Diego Garcia por um desconto na compra de armas nucleares. “Foi o início do nosso calvário”, recorda Bancoult. Sem alarde, os britânicos expulsaram os cerca de 2 mil habitantes. Em maio de 1973, um barco despejou a última leva de chagossianos nas Ilhas Maurício. Rita David, então com 24 anos e quatro filho, lembra o desespero das famílias removidas. A maioria nunca tinha saído dos atóis. A 2 mil quilômetros de casa, em um arquipélago conhecido pelas luas de mel extravagantes e os hotéis de luxo, os removidos encontraram fome, doenças, drogas e prostituição. 

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A última leva de nativos foi retirada à força em 1973.

Como muitos conterrâneos, Rita David vive desde então em Cassis, um dos bairros mais pobres de Port Louis. “Dormíamos em caixas de papelão, em casas miseráveis.” Às dezenas, os chagossianos começaram a morrer. Muitos, dizem, de “sagren”, saudade profunda. O pai de Bancoult sofreu um ataque cardíaco e morreu cinco anos depois. Um irmão faleceu aos 38, viciado em álcool. Outro, aos 36, de overdose de heroína. Um terceiro, com 11 anos, morreu misteriosamente enquanto pedia esmola. A irmã suicidou-se. Bancoult, o sobrevivente, jurou lutar pelo seu povo.

Tem sido uma longa e desigual batalha. A primeira vitória só viria em novembro de 2000, quando Bancoult, líder do Chagos Refugees Group, desceu as escadas da Suprema Corte de Londres e ergueu os dedos em “V”. A expulsão fora, por fim, considerada ilegal e o direito dos moradores de regressar à terra natal, reconhecido. A alegria durou pouco. Em 2002, um estudo financiado pelo Reino Unido concluiu que o regresso de assentamentos humanos ao arquipélago seria inviável, por causa das mudanças climáticas. Um embuste, segundo o jornal inglês The Guardian, que tempos depois revelaria que o governo britânico manipulara o resultado do estudo original, favorável ao regresso. Em 2004, a rainha Elizabeth II assinaria um decreto para proibir o regresso. E, em 2009, seria anunciada a criação em Chagos da maior reserva natural marinha do mundo. Dois anos depois, documentos divulgados pelo WikiLeaks mostrariam tratar-se de mais um estratagema para impedir o retorno dos habitantes originais. 

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Desde 1973, os EUA mantêm uma base militar na região.

Uma década e meia após a vitória na Supremo Corte de Londres, a esperança voltou. Segundo a UK Chagos Support Association, surgiu “a melhor oportunidade para pôr fim a meio século de injustiças sem sentido”. Um novo estudo concluído em 2015 forçou o governo britânico a admititir que o retorno seria “perfeitamente realizável”. Neste ano, expira o contrato entre os EUA e a Inglaterra de cessão da Ilha de Diego Garcia. Embora seja certa a renovação do acordo, “os novos termos poderiam incluir apoio ao reassentamento”, especula a associação. Celebridades como a advogada Amal Clooney dão hoje visibilidade a uma causa que, afirma Bancoult, “permaneceu em segredo por demasiado tempo”. 

Enquanto isso, a vida em Chagos prossegue. Entre coqueiros e praias de areia branca repousam duas pistas repletas de bombardeiros, 30 navios de guerra e 2 mil militares norte-americanos. “Bem-vindos à pegada da liberdade”, diz uma placa em Diego Garcia. Os militares levam uma vida confortável. Têm à disposição campos de golfe, cassino, clubes e restaurantes. O conforto os levou a apelidar o arquipélago de Ilha da Fantasia. 

Trata-se, na realidade, de um dos black sites da CIA. Em dezembro de 2014, a Al-Jazira denunciou que centenas de “suspeitos de terrorismo” teriam sido sequestrados, transportados até Chagos e torturados na base após os ataques de 11 de setembro. Jornalistas ou observadores internacionais são proibidos de visitar os atóis e as ilhas.

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No livro Island of Shame, o antropólogo David Vine explica como Diego Garcia é fundamental para os EUA controlarem a Ásia e o Golfo Pérsico, rico em petróleo: “Uma rede de bases em ilhas estratégicas, remotas e isoladas, para dominar a maior parte do globo sem a ocupação direta do território”. Dos Açores ao Japão, de Guantánamo a Guam, existem mais de mil bases militares norte-americanas pelo planeta.