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Número 889,

Economia

Inovação

As gigantes investem em startups

por Juliana Elias — publicado 23/03/2016 21h22
Empresas como a Natura e a Samsung apostam em projetos embrionários brasileiros
Juh Guedes
Natura

Estimular novas ideias às vezes é mais importante que o lucro imediato

A sobrevivência uniu grandes e pequenos. Em busca de ideias inovadoras e novos nichos, megagrupos nacionais e internacionais tornaram-se caçadores de startups no mercado brasileiro. Natura, Samsung, 3M, Google e Facebook são algumas das gigantes que apostam em projetos embrionários, mas promissores. E até agora não têm do que reclamar.

Há pouco mais de um ano, equipes de executivos e técnicos da Natura percorreram o País, não em busca de novos mercados ou clientes, mas para prospectar startups. “Começamos a perceber que havia um ecossistema crescendo rápido e que ainda não estava contemplado por nós, e eram as startups”, afirma Luciana Hashiba, gerente de Inovação da fabricante de cosméticos. Fundada há 67 anos, a Natura sempre teve uma área forte de pesquisa e desenvolvimento dos seus produtos, elaborados com matérias-primas nativas e processos de produção sustentáveis. Até pouco tempo atrás, a maior parte da atividade de pesquisa e desenvolvimento concentrava-se nos centros próprios ou em parcerias externas com universidades e empresas consolidadas. Agora as coisas mudaram. “Estamos experimentando um jeito diferente de inovar. É a vez de inovar a inovação”, resume Hashiba.

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A Natura mantém um programa próprio de estímulo às startups, explica Luciana Hashiba. (Juh Guedes)

As primeiras incursões começaram a dar resultados. Uma comunidade de 34 startups mantém contato permanente com a companhia entre workshops, treinamentos e trocas de experiência e oito delas renderam contratos e parcerias relacionadas a diferentes áreas da empresa.

A Natura é uma das primeiras nacionais a se unir ao time de gigantes que começaram a testar programas próprios de fomento a startups como um novo pilar de inovação. A parceria interessa, entre outros setores, àqueles de tecnologia, consultoria, finanças e entretenimento, mostra a adesão ao modelo por parte de Microsoft, Ernest & Young, MasterCard e Disney. A estratégia foi adotada há um ano pelo Google, atual Alphabet, que iniciou o programa Google Launchpad para dar suporte a novos projetos em diversas cidades do mundo. O Facebook acompanha as primeiras turmas selecionadas pelo FbStart, a sua iniciativa do gênero lançada em 2014.

Trata-se, segundo especialistas, de uma terceira onda de consolidação das startups como modelo de negócios de grande potencial tanto econômico quanto inovador. Na primeira etapa, elas eram restritas aos parques tecnológicos de universidades e só aos poucos adentraram as empresas privadas. Depois veio o dinheiro. Multiplicaram-se os fundos de investimento e as companhias de “venture capital” com recursos bilionários de investidores ávidos por aplicar em negócios nascentes, aguardá-los crescer e colher os lucros. Houve também uma corrida de aquisições conforme os negócios evoluíam e as condições de atuação se modificavam. 

As grandes empresas compreendem agora que as mudanças são rápidas, podem surgir a qualquer hora e em qualquer lugar. Mas o que fazer se as corporações gigantes não se caracterizam pela agilidade? Pois foi o reconhecimento dessa limitação que as levou a fomentar startups “dentro de casa”. Algumas montaram sua própria incubadora ou “aceleradora corporativa”. Outras forneceram o capital inicial para empreendedores de fora colocarem ideias em pé. Um terceiro grupo forneceu infraestrutura ou criou um espaço de diálogo e cooperação, incluídos o apoio profissional e a realização de congressos, workshops ou hackathons, maratonas de criação que reúnem programadores, designers e outros profissionais ligados ao desenvolvimento de softwares. 

O novo modelo corporativo é flexível. Algumas empresas não oferecem aporte financeiro às startups, e aquelas que o fazem não exigem participação societária como contrapartida. A esmagadora maioria não impõe compensação nenhuma. “Não necessariamente vamos usar o produto delas. É realmente um investimento para elas crescerem e beneficiarem a sociedade, não a nós”, afirma Camila Fusco, diretora de Empreendedorismo do Facebook para a América Latina. No Brasil, o FbStart reservou 15 milhões de dólares para startups e depois de um ano conta com uma comunidade de 300 iniciantes vinculadas ao programa. 

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Camila Fusco, do Facebook. (Zé Carlos Barreta)

“É um investimento a fundo perdido mesmo. Não adquirimos cotas das empresas, não esperamos contrapartida delas”, diz Antônio Marcon, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento da Samsung e responsável por coordenar a implantação no Brasil do Programa de Economia Criativa, desenvolvido pela matriz na Coreia do Sul. Os participantes receberão aportes de 140 mil a 200 mil reais e os selecionados na primeira edição serão conhecidos neste mês. “Não é dinheiro o que ganhamos com isso. É um ecossistema de inovação cada vez maior e mais forte em torno de nós”, diz Eduardo Conejo, gerente responsável por outro programa de startups da Samsung, o Ocean.

“O tempo de colocação de produtos no mercado encurta sempre e isso obriga as empresas a inovar num tempo cada vez menor”, explica Sheila Pires, superintendente-executiva da Associação Nacional das Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), que reúne os parques tecnológicos e as incubadoras brasileiras.  “As pequenas são muito mais ágeis e trazem um time que pensa fora daquele universo preestabelecido. Ao se associarem a elas, as grandes queimam várias etapas.” O diá­logo da associação com as corporações sempre existiu, mas, de um ano para cá, a procura teve um aumento substancial. Os editais para os programas da Natura e da Samsung foram feitos no ano passado em parceria com a Anprotec, os primeiros do gênero nos 30 anos da associação.  

“Há muito tempo trabalhamos com vários atores do sistema da inovação, entre clientes, fornecedores e universidade. Mas as startups são completamente novas para nós”, diz Marcelo Tambascia, gerente-técnico corporativo da 3M, fabricante de produtos para saúde, segurança no tráfego, material de escritório, abrasivos e adesivos fundada em 1902 nos Estados Unidos. A subsidiária brasileira realiza encontros com empreendedores desde 2014, em parceria com a Anprotec. “É um modelo que ainda estamos experimentando e descobrindo. Mas tenho certeza de que ele veio para ficar.” 

“Damos suporte ao que a Natura intui”, diz Gladys Mariotto, fundadora da Já Entendi, de Curitiba, uma das primeiras startups a trabalhar com a fabricante de cosméticos. “A nossa equipe é enxuta, ninguém faz uma coisa só, todo mundo trabalha em tudo. Eles nos pedem algo para ontem, nós fazemos para ontem.” Mariotto e sua equipe convertem conteúdo técnico em vídeos acessíveis a colaboradores de baixa escolaridade, um instrumento utilizado para capacitar a rede de consultoras da Natura, os funcionários do Walmart e os operários da construção da Vila Olímpica do Rio de Janeiro, entre outros públicos. Criada há três anos, a Já Entendi saiu de um para 15 funcionários, multiplicou centenas de vezes o faturamento e neste ano passará de empresa pequena para média. “As grandes nos procuram em busca de agilidade, inovação e para sair um pouco da ‘casinha’. Elas já perceberam que, se não se unirem aos anões, serão passadas para trás.”

*Reportagem publicada originalmente na edição 889 de CartaCapital, com o título "Gigantes protetores"