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Número 889,

Cultura

Papinho Gourmet

Food Trucks: da rua pra garagem

por Márcio Alemão publicado 28/02/2016 04h36
Gigantescas pretensões, preços absurdos e uma entrega medíocre atrapalham muitos negócios
José Cruz/Agência Brasil
food truck

Entra ano, sai ano e continuamos a ver isso acontecer: pessoas acharem que o ramo é lucrativo e relativamente simples

–A turma do food truck não tá muito feliz. Vi em uma matéria recente na grande mídia.

– Os paleteros idem.

– Até arrisco dizer que muitos sorveteiros, com rara exceção. Mas este momento pouco risonho para a turma dos caminhões era previsível.

– Todos grandes chefs com gigantescas pretensões, preços absurdos e uma entrega absolutamente medíocre.

– Como sempre, continuam confundindo rendez-vous com art nouveau. Uma viagem de três dias pela América e voltam cheio de ideias.

– 120 horas diárias de programação gourmet na tevê também obnubilam a capacidade de discernimento.

– Repara que até o gestual dos apresentadores é igual. As mãos abertas em concha fazem círculos e sempre, sempre, sempre vêm acompanhadas de palavras: very rich flavour; juicy; crisp; a bunch of flavours; sumptuous sauce, absolutely fresh.

– E enchem a boca pra dizer isso. Vi dois irmãos ingleses que passeavam pelo interior da Inglaterra ajudando donos de restaurantes a melhorar seus cardápios. E um deles falou tudo isso referindo-se a um biscoito de aveia. Pelamor!

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Os food trucks contaminaram muita gente. (Ilustração: Estella Maris)

– A questão é que isso contaminou um monte de gente. E parte delas foi pro caminhão.

– Que é um ambiente bastante complicado pra cozinhar se você não tem longa prática, vivência, experiência.

– Sem dizer que a ideia atraiu muitos que nunca haviam pisado numa cozinha profissional. Ele fazia pra galera um búrguer sensacional.

– Entra ano, sai ano e continuamos a ver isso acontecer: pessoas acharem que o ramo é lucrativo e relativamente simples.

– Em outra ponta, pegando carona no papinho da semana passada, impressionou-me o movimento da nobreza das casas da pamonha. 

– Outro mundo. Mas aí você tem de considerar que o local é quase um ponto turístico pra muitos que passam. Os derivados do milho, como a pamonha, o curau, o bolo de milho, têm um lugar na memória gustativa e emocional de muita gente.

– E são quitutes difíceis de reproduzir em casa. 

– Fechamos o círculo virtuoso quando colocamos nessas casas, ou melhor, quando tiramos dessas casas qualquer pretensão. Nenhum chef. Cozinheiras. E um preço razoável.

– Se bem que um chef poderia emprestar maior delicadeza às ofertas.

– Agora me lembrei de um fato curioso: a pamonha de Piracicaba foi uma precursora dos trucks. E por que eu nunca vi um food truck especializado em milho?

– Pamonhas, pamonhas, pamonhas. 

*Publicado originalmente na edição 889 de CartaCapital, com o título "Da rua pra garagem"