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Número 887,

Cultura

Papinho Gourmet

Papinho momesco

por Marcio Alemão publicado 13/02/2016 23h30, última modificação 14/02/2016 08h48
Chegou a turma da alegria
Estadão Conteúdo

-Chegou a turma da alegria.

– Se é bem da alegria, não sei. 

– Mas com certeza é do funil.

– E reparou a facilidade com que dão conta de um barril?

– A turma anda achando que cachaça é água.

– A oferta da matéria que vem do alambique tem sido bem maior do que a que vem do ribeirão.

– Uma loucura o que se consome dela nestes tempos.

– Já ouvi muitos dizerem que pode lhes faltar tudo na vida: arroz, feijão e até pão.

– Até sei aonde você vai chegar: abrem até mão do amor, e acham graça, desde que não lhes falte a danada da cachaça.

– Condenar é difícil porque a oferta é grande.

– Tem até disputa: vira, vira, vira!

– E quando não é a branquinha é a lourinha.

– Vamos combinar que nessa época o calor pega.

– Já te contei sobre a minha travessia no Deserto do Saara.

– Me lembro bem. Você contou que o sol era tamanho que queimava sua cara.

– Sonhava com um lindo apartamento com porteiro, elevador e ar refrigerado.

– Controlar a sede quem conseguia?

– Hoje tem a tal Lei Seca. Precisa tomar cuidado.

– De fato. Mas ainda tem gente que enfrenta a lei e diz que, se a polícia prender, depois que soltar ele passa a mão no saca-rolhas mais uma vez e bebe até se afogar.

– Confesso que não tenho a menor paciência para essa festa e nem para seus admiradores.

– Eu nada contra tenho, mas não aguento aqueles que vêm pedir dinheiro e ainda por cima te ameaçam: não vai dar, não? Você vai ver a grande confusão. Eu vou beber até cair! Me dá um dinheiro aí!

– Que caia!

– E muitos caem porque vão pra folia sem se alimentar direito.

– Falando nisso, você já comeu carne de jacaré?

– Comi e gostei.

– E os miúdos desses bichos mais exóticos?

– O tal do jacaré que eu comi, na ocasião haviam tirado o coração do bicho e trocado pelo coração da minha sogra.

– Eu soube! Ficou famoso o caso.

– Justamente porque a velha se mandou e o jacaré morreu.

– Nesse período uma coisa é certa: todo mundo fica meio maluco.

– Eu quase fiz uma besteira no último Carnaval.

– Das grandes?

– Ameacei de morte o meliante que havia pego minha cueca pra fazer pano de prato.

– Tá de brincadeira! Aquela que tava lavada?

– Justamente aquela, presente que eu ganhei da namorada!

– Bom, já se faz tarde e tô indo levar minha irmã ao médico.

– É grave? Mas, qual das irmãs?

– Nada. Coisas da Ana, que de tanto piscar o olho acabou sem a pestana.

– Acontece.

– Toda hora.

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