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Número 886,

Cultura

Romance Histórico

Um novelão à brasileira

por Nirlando Beirão publicado 10/02/2016 05h09
O tormentoso affair de Zizinha e Quincas, em cenário tórrido de embates políticos na Corte e de mimosas contradanças nos salões de Paris

Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela” – começa o romance Senhora, de José de Alencar. “Desde o momento de sua ascensão ninguém lhe disputou o cetro; foi proclamada a rainha dos salões. Tornou-se a deusa dos bailes; a musa dos poetas e o ídolo dos noivos em disponibilidade. Era rica e formosa”. 

O romancista cearense, naquele estilo copioso que não se recomenda aos diabéticos, chamou de Aurélia Camargo a seu personagem. E de Alfredo Moreira seu galanteador. Ninguém haveria de ignorar, nos sussurros bisbilhoteiros da Corte imperial, a notável semelhança entre Aurélia e Eufrásia Teixeira Leite, mulher rica, aristocrática, deslumbrante, solteira, altiva, independente, vaidosa na medida certa. E como não perceber ser Alfredo calcado, com a malícia arremessada contra um fogoso liberal pelo conservador que era Alencar, no jovem Joaquim Nabuco, filho de senador mas de posses limitadas, político, escritor, polemista, modelo de elegância?

Senhora foi publicado em 1875 em intermitências de folhetim. Eufrásia, aliás Zizinha, já estava então instalada a protegida distância das maledicências provincianas e da tutela da família carola, inconformada com a petulância daquela herdeira decidida a recusar, já madura aos 20 anos, casamentos de interesse e disposta a ser dona de seu próprio nariz.

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Retrato de Eufrásia, por Carolus Duran (Paris, 1887)

Zizinha vivia, desde o outono de 1873, em Paris, e ali chegara para ficar, na companhia da irmã mais velha e sentinela, Francisca, e, mercê da fortuna herdada pela morte da mãe e do pai no curto espaço de um ano, aninhada em confortável palacete da Rue Bassano, nos Elysées, tendo sua curiosidade intelectual de dame du monde abastecida pelas soirées da ópera e por suas leituras eruditas, deixou-se envolver também pelo circuito de convivas requintados e admiradores obstinados bem à feição da Paris que pulsa, por exemplo, naquela Educação Sentimental, de Gustave Flaubert.

Desfazia-se dos pretendentes, la belle brésilienne, sem jamais perder a graciosidade do negaceio, mas o fato é que seu coração pertencia a Quincas, a quem o acaso – ou a premeditação? – havia vinculado, em laço de afeição recíproca, a bordo do navio Chimborazo, aquele no qual Zizinha embarcara, em agosto de 1873, para seu doce desterro parisiense. 

Para todos os efeitos, mal se conheciam, Zizinha e Quincas (a imaginação alheia iria denunciar flertes anteriores, namoricos de adolescentes, valsas compartilhadas em bailes fidalgos). No Chimborazo, aconteceu o encontro casual – que se tornaria arrebatador. Respirando a mesma brisa marítima, sob o mesmo luar, no mesmo convés, lá estava Zizinha e lá estava Quincas, o Belo – “dândi, sedutor de muitas solteiras e algumas casadas, afável e gentil no seu quase metro e noventa”.   

Estas aspas pertencem a Ana Maria Machado, em Um Mapa Todo Seu (Editora Alfaguara 22 páginas. R$39,90). É, sem contar a ficção à clef de José de Alencar, o quinto livro a incursionar pelos labirintos emocionais do vigiado idílio, com solavancos e estilhaços dignos de novelão de época naquele horário das 6 da tarde.

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Joaquim Nabuco enquanto jovem

Ana Maria Machado, que se distingue naquela Academia Brasileira que se diz de letras pela inusitada circunstância de ter profunda intimidade com elas, as letras, tece uma hipnotizante crônica de paixão impossível a partir da relação da ex-sinhazinha de ninho nobiliárquico e fortuna cafeeira (neta por parte de mãe do Barão de Campo Belo, por parte de pai do Barão de Itambé, sobrinha de Barão de Vassouras e sobrinha-neta do Barão de Aiuruoca) com o abolicionista impenitente, odiado pela oligarquia do campo e pelos reacionários da cidade.. 

Não que lhes faltasse o combustível do amor – ao contrário. Mas o roteirista do enredo político-social do agonizante Império brasileiro cobrava do cosmopolita Nabuco – ele que sempre se empenhou com tanto afinco em trafegar por postos diplomáticos em Londres e nos Estados Unidos – a presença física no combate à vergonha da escravidão, que ele litigava nos escritos e em mandatos parlamentares vitoriosos, pelo seu Pernambuco natal, mas também intercalados por fracassos eleitorais.

Eufrásia, por sua vez, enfronhada nas artimanhas dos investimentos financeiros, a ponto de, em ousadia inédita, ser a primeira mulher a acompanhar os pregões da Bourse de Paris, multiplicou o já polpudo espólio paterno, avaliado em 767 contos, 937 mil e 866 réis, correspondente à dotação pessoal de dom Pedro II. Não iria, portanto, a bem-sucedida Zizinha, sacrificar seu bem-estar emocional nas pegadas imprevisíveis de um marido à moda antiga, a quem a família da moça tinha na conta de um janota enfatiotado e sinistro caça-dotes. 

Amaram-se, porém, com ardor romanesco, mas, entre propostas aceitas e recusadas, encontros e desencontros, o que decretou a ruptura definitiva, em 1887, 14 anos depois do Chimborazo, foi exatamente o contrário do que os parentes oligárquicos de Zizinha, tão ciosos de seu valor patrimonial do mercado casamenteiro, mais temiam. Sabedora de que o amado amargava sucessivas derrotas e um crônico mal-estar pecuniário, escreveu-lhe de Paris: “Seria para mim um imenso prazer, poderia ser-lhe útil e ninguém o saberia”. Oferecia-lhe dinheiro. “É difícil hoje avaliar a profundidade com que um homem de bem do século XIX foi capaz de se sentir ofendido com essa proposta”, conta Ana Maria Machado. Ferido em seu orgulho, Nabuco recusou – e não mais se falaram.

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Os pais Joaquim José e Ana Esméria. (Carolus Duran)

Se Nabuco foi, por sua convicções progressistas, uma figura bem acima da média na pálida galeria da elite nativa, Eufrásia, esta sim, merece o respeito devido a uma mulher muito à frente de seu tempo. O belo Quincas iria se casar e gerar uma prole. Eufrásia, não – ela fez da liberdade afetiva o estandarte de uma vida intensa e digna, encerrada aos 80 anos, já de volta ao Brasil. Deixou para a cidade de Vassouras todo o seu patrimônio. A Casa da Hera, mansão familiar convertida em museu, guarda agora as relíquias carinhosas de uma dama de verdade.