Você está aqui: Página Inicial / Revista / Petróleo e crise / A Petrobras abala toda a economia
Número 885,

Economia

Crise

A Petrobras abala toda a economia

por André Barrocal publicado 12/02/2016 17h35, última modificação 15/02/2016 13h27
Como as atuais decisões da estatal aprofundam a crise econômica do País
Dilma-e-Bendine

Dilma deu carta branca a Aldemir Bendine: O problema é financeiro (Marcelo Camargo/ABr)

No início da década, a Petrobras vislumbrava figurar entre as dez maiores empresas do planeta. Seu plano anual de negócios, com projeções para 60 meses, estimava investimentos de 200 bilhões de dólares.

A versão 2014-2018 do documento apontava uma produção de 4,2 milhões de barris diários de petróleo em 2020, volume capaz de colocar o Brasil em quinto ou sexto lugar no ranking mundial dos produtores. Águas passadas. Com a cotação internacional do petróleo ladeira abaixo e a atingir os menores níveis em 12 anos, a timidez dá o tom na empresa atualmente.

Uma escolha que não se explica só pela queda do petróleo tem acentuado impacto econômico e é motivo de críticas ao presidente da estatal, Aldemir Bendine, e ao Palácio do Planalto.

A Petrobras anunciou faz pouco tempo um novo corte em suas pretensões de investimento, agora fixados em 98 bilhões de dólares até 2019. Quando a versão original do Plano de Negócios 2015-2019 ficou pronta, em junho passado, os aportes haviam encolhido e somavam 130 bilhões.

De lá para cá, o petróleo só fez baratear. O valor do barril caiu pela metade, para 30 dólares. Nos últimos dias, a cotação andou pela casa dos 20 dólares e ninguém sabe onde está o fundo do poço. Em 2014, época de ainda grandes ambições, o brent superava os 100 dólares. 

O pé no freio da maior empresa brasileira abala toda a economia. Ainda não se sabe quanto o País encolheu no ano passado, as estimativas variam de 3% a 4%, mas a estatal contribuiu bastante para a derrocada. 

Em outubro, o Ministério da Fazenda calculou que o efeito Petrobras foi responsável por 2 pontos porcentuais da queda do Produto Interno Bruto em 2015, em razão da redução dos investimentos da empresa, que desde 2010 representam 9% das inversões totais. Ao menos para 2016, a companhia decidiu elevar os gastos em 1 bilhão de dólares, apesar do corte recente.

O mercado de trabalho também sente o baque. Se a Petrobras de fato investir menos, deixarão de ser gerados, no mínimo, 4 milhões de empregos, segundo o Grupo de Economia da Energia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Diga-se, em defesa da companhia brasileira, que petroleiras do mundo todo têm sido forçadas a se ajustar à nova realidade do petróleo. Desde 2014, início da marcha à ré no valor da commodity, o setor cancelou 380 bilhões de dólares em investimentos, dos quais 44% sairiam do papel de 2016 a 2020, informa um relatório recente da consultoria Wood Mackenzie, especializada em energia e mineração. Também, desde 2014, o setor demitiu 260 mil trabalhadores, conforme outra consultoria, a Graves & Co., e o número pode chegar a 300 mil neste ano.

Com o valor do petróleo a derreter, o Palácio do Planalto não pretende retomar os leilões do cobiçado pré-sal. Além do fator preço, novas concessões significariam o aumento de oferta do produto em um mercado saturado e exigiria um fôlego financeiro em falta na Petrobras, obrigada por lei a participar de todos os empreendimentos no pré-sal.

O único leilão realizado foi em outubro de 2013, com o brent a 110 dólares. “Ninguém faz leilão de bloco de exploração com 30 dólares o barril. A não ser que você queira dar para alguém”, declarou Dilma Rousseff em um café da manhã com jornalistas na sexta-feira 15.

Os cofres públicos acusam o golpe da desvalorização do petróleo e do retraimento da Petrobras. No ano passado, o governo arrecadou 5% a menos do que em 2014 e a estatal contribuiu para o recuo.

A prefeitura de Campos, jurisdição da maior bacia petrolífera do País, recebeu de royalties 45% a menos do que em 2013. “Não sentimos apenas a queda no preço, mas um grande impacto negativo decorrente da quebra de expectativa gerada ao redor da commodity”, diz a prefeita Rosinha Garotinho, pessimista em relação a 2016.

Presidente da Petrobras de 2005 a 2012, José Sergio Gabrielli não vê razões para apostar em alta do petróleo neste ano e no próximo. Mas, no médio e longo prazo, sim. O corte de investimentos em produção pelo mundo, a expansão do refino doméstico no Oriente Médio e a desaceleração do shale gas nos Estados Unidos, diz, vão limitar a oferta global.

Gabrielli
O ex-presidente Gabrielli enxerga falta de experiência no setor (Waldemir Barreto/Ag. Senado)

O orçamento de 2016 da Arábia Saudita, dona do maior campo e da maior petroleira do mundo, expõe o impacto fiscal decorrente da queda do preço, algo que talvez leve os sauditas a rever sua atitude de Pilatos na Opep, o cartel internacional que há mais de um ano assiste inerte ao despencar das cotações. É de se esperar também a elevação da demanda mundial, segundo Gabrielli, e por ora não há à vista qualquer combustível viável alternativo. 

Em um cenário de crise petrolífera global, a estatal brasileira sofreria com um agravante particular. “A Petrobras tem hoje um problema de visão estratégica”, afirma Gabrielli. A diretoria e o Conselho de Administração estariam dominados por uma ótica financista, de curto prazo, com obsessão por saldar dívidas.

O negócio do petróleo, de longo prazo por natureza, seria coadjuvante. “O atual Plano de Negócios mostra uma empresa interessada em ser pequena e com foco na produção de petróleo, sem se importar com o papel estruturante que a Petrobras pode desempenhar para o Brasil.”

Gabrielli ressalta que seria possível produzir petróleo no pré-sal a 8 dólares. O cálculo não leva em conta custos como transporte, impostos etc., mas dá uma mostra da competividade da região mesmo em um cenário de preços baixos no mercado mundial. 

Além de influenciada pela queda do barril, a atual postura da companhia resulta da mesma guinada ortodoxa feita por Dilma no Ministério da Fazenda, no início do segundo mandato. Talvez por conta das críticas ao suposto excesso de intervenções do governo na empresa, a presidenta resolveu adotar uma solução no modelo Joaquim Levy.

Nomeou um banqueiro, ou melhor, um bancário, para dirigir a Petrobras. Servidor do Banco do Brasil, o executivo presidiu a instituição por seis anos. No Conselho de Administração, órgão responsável por definir os grandes objetivos a serem perseguidos pela diretoria, não há mais um só ministro indicado pelo governo. O único integrante com cargo federal é Luciano Coutinho, do BNDES. 

Desde então, as prioridades mudaram. Agora são três, basicamente: lucro para o acionista, foco na exploração e produção de petróleo, sobretudo no pré-sal, a atingir a marca de 900 mil barris diários em 2015.

E reduzir a enorme dívida de cerca de 500 bilhões de reais, nascida do gigantismo ambicionado pouco tempo atrás. Em linha com a visão de Levy de “cortar, cortar e cortar”, o executivo tenta diminuir despesas.

Avalia, por exemplo, que a companhia tem trabalhadores terceirizados demais e funcionários acostumados a salários e benefícios sem paralelos em outras petroleiras com ações nas Bolsas de Valores, o que tiraria a competitividade da estatal. A queda contínua do petróleo de um ano para cá só reforçou a rota e as convicções.

Figuras influentes do campo governista não poupam críticas a Bendine. Enxergam o executivo como um financista sem o domínio da geopolítica do petróleo e sem a compreensão do peso da estatal para o PIB. O presidente da estatal conhece as críticas. E diz que, ao ser convidado para o cargo, deixou claro à presidenta não entender do setor.

Dilma teria minimizado a informação. O problema da Petrobras, teria dito, é financeiro. A relação dos dois seria “sinérgica” até aqui, segundo um assessor presidencial. Os recentes ajustes no Plano de Negócios foram apresentados primeiro a Dilma, em uma reunião de véspera no Planalto. O presidente da estatal não atendeu aos pedidos de entrevista.

Outra queixa: ao assumir, Bendine ajudou a desfazer na empresa um clima descrito por um amigo seu como de “terror”, herança de Graça Foster, a antecessora. A calmaria, segundo esse amigo, virou antipetismo, graças à postura de Bendine.

Hoje, alguns dirigentes e vários funcionários professam pelos corredores que o drama financeiro da companhia nasceu da corrupção, e não da queda do petróleo e do congelamento do preço da gasolina por três anos no primeiro governo de Dilma. 

Bacelar
Bacelar, representante dos funcionários no Conselho de Administração: Não entendo como uma empresa tão importante esteja à deriva

A postura de Bendine e a distância do governo em relação à Petrobras explicam-se por um certo cálculo político do Planalto. O sentimento de que a companhia cambaleia por obra de malfeitos não se restringe aos seus corredores.

Uma pesquisa do Datafolha de novembro colocou a corrupção pela primeira vez no topo dos problemas brasileiros, com 34%. Bem à frente da saúde (16%), outrora líder disparada. Associar-se à empresa poderia ser ainda mais desgastante para a impopular Dilma e seu governo igualmente reprovado.

A distância de Brasília em relação à estatal é visível no Conselho de Administração, segundo o petroleiro baiano Deyvid Bacelar, representante dos funcionários no colegiado. Único a votar contra o Plano de Negócios, ele diz que os conselheiros escolhidos pelo governo agem por conta e convicção próprias.

Um deles, o economista Roberto Castello Branco, disse em público que a Lei da Partilha no pré-sal, tão cara a Dilma, “é danosa” à Petrobras e ao Brasil. “Não entendo como uma empresa tão importante para o País esteja tão à deriva, com uma gestão tão autônoma e sem participação do governo”, diz Bacelar, portador de um diagnóstico similar àquele de Gabrielli sobre a falta de visão estratégica na cúpula.

Bacelar defende que o governo, na qualidade de acionista majoritário, coloque mais dinheiro na Petrobras, para ajudá-la a superar a fase difícil de petróleo em baixa e de dívidas altas por vencer. A capitalização é ideia por enquanto descartada, mas não fora de cogitação. Em reunião extraordinária do Conselho da estatal na terça-feira 19, Bendine teria dito que, no momento necessário, o governo compareceria. 

O executivo começou a sondar Brasília a respeito no fim de 2015. O então ministro Joaquim Levy era contra, por medo do impacto na dívida pública. O atual titular da Fazenda, Nelson Barbosa, disse a agências internacionais, na segunda-feira 18, que, diante do recente ajuste nos planos da empresa, “não há necessidade de recorrer ao mercado com novas captações nem de aumento de capital por parte dos acionistas”. Mas não tem deixado de conversar com Bendine sobre como seria possível capitalizar a estatal sem afetar a dívida pública.

Sem suporte federal e com as perspectivas negativas para o valor do petróleo, Bendine e o diretor-financeiro, Ivan Monteiro, estão decididos a resolver o problema de caixa da empresa com a venda de ativos. No portfólio da dupla, cabe tudo o que não é exploração e produção de petróleo, perto de 20 a 30 áreas.

Entre os bens estão a BR Distribuidora, rede de postos, a Fafen, fábrica de fertilizantes, a Transpetro, processadora de gás natural, e a Braskem, da área petroquímica, recém-incluída no pacote. A intenção é arrecadar 14 bilhões de dólares neste ano com as vendas.

Em café da manhã com jornalistas no fim de dezembro, o presidente da Petrobras disse haver caixa suficiente para atravessar 2016 mesmo sem abrir mão de nenhum ativo. Se obtiver os 14 bilhões, o prazo se estenderia a meados de 2017, segundo Monteiro.

Não será fácil. Com o setor em baixa pelo mundo e concorrentes loucas para fazer caixa, quem compraria as empresas? Em julho passado, com o barril até mais valorizado do que hoje, o México fez o primeiro leilão de campos de exploração de petróleo após 80 anos de monopólio estatal. Um fracasso.

Em outubro, a Agência Nacional do Petróleo (ANP), voltou a fazer leilões após dois anos. Outro fracasso. “Vender ativos em um momento como este é sempre ruim. Não só porque o mercado está em baixa, mas porque todo mundo sabe da necessidade da Petrobras de vender. Isso compromete o poder de negociação”, diz o economista Helder Queiroz, ex-diretor da ANP. 

Os petroleiros são outro obstáculo. A Federação da categoria, a FUP, é contra passar adiante ativos considerados valiosos. Reclama, por exemplo, da principal alienação selada, uma fatia de 49% da Gaspetro por 1,9 bilhão de reais. “Preço de banana”, na opinião do coordenador-geral da entidade, José Maria Rangel.

Segundo ele, avaliações contratadas pela própria Petrobras sugeriam valor mínimo de 5,9 bilhões. O Sindicato Nacional dos Oficiais da Marinha Mercante denunciou Ivan Monteiro à Comissão de Valores Mobiliários por declarar a intenção de vender a Transpetro, assunto que não havia sido discutido ainda no Conselho de Administração.

A política de venda de ativos foi um dos motores de uma greve de 20 dias dos petroleiros, em novembro passado, primeira paralisação de caráter e eminentemente político, sem reivindicações salariais ou trabalhistas, desde 1995.

Para encerrar a greve, a direção da Petrobras topou criar um grupo de trabalho conjunto com petroleiros para revisar o Plano de Negócios e a venda das subsidiárias. Acaba de colocar na praça uma nova versão sem que o grupo tenha concluído as discussões. Mais tempestade pela frente. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 885 de CartaCapital, com o título "O Brasil sem guarda-chuvas"