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Número 885,

Política

Opinião

Narcoboss de cinema

por Wálter Maierovitch publicado 25/01/2016 05h52
Influenciado por séries de tevê, El Chapo sonhava em ver sua história contada na tela
Day Donaldson/ Flickr

A recaptura do narcoboss mexicano Joaquín Guzmán Loera, apelidado El Chapo, não reduzirá a oferta de drogas ilegais ou os lucros dos fortemente armados cartéis do México.

Por ano, os sete maiores cartéis mexicanos movimentam cerca de 20 bilhões de dólares e, segundo o jornal Washington Post, as apreensões policiais não ultrapassam 1% do colocado no mercado consumidor, sendo o principal o norte-americano. Armas e munições são adquiridas com facilidade em território dos Estados Unidos.

Em 1989, terminou o reinado de Miguel Ángel Félix Gallardo, o maior traficante mexicano de todos os tempos, e do qual El Chapo era discípulo. Seu pai dedicava-se à ilegal extração do suco da papoula (ópio), usado na elaboração da heroína. Félix Gallardo fundou o cartel de Guadalajara e fez parceria, para receber cocaína, com o cartel colombiano de Medellín, comandado por Pablo Escobar.

A prisão desse maior narcoboss levou El Chapo a formar o cartel de Sinaloa, também conhecido por cartel do Pacífico. O negócio prosperou e a revista Forbes, em edição de 2009, apontou El Chapo como o 41º homem mais rico do planeta.

Para se ter ideia, e consoante a conhecida DEA, o chefão do cartel de Sinaloa chegou a controlar todo o mercado de heroína de Nova York e monopolizou a oferta e venda de drogas em 1.286 municípios dos EUA.

Com muita grana e ego incontrolável, El Chapo, incentivado pelo filho e delfim Alfredo Guzmán, quis ter sua vida mostrada pelo cinema, em produção laudatória.

Na verdade, empolgara-se com os sucessos de duas séries televisivas sobre a vida de chefões das drogas e da novela mexicana  protagonizada pela bela atriz Kate del Castillo, no papel de chefe de cartel de drogas: séries Escobar, el Patrón del Mal, uma produção da colombiana TV Caracol e Andrés Parra no papel principal, e Narcos, com Wagner Moura como  Escobar.

Na busca de parceiros, descuidou da segurança e foi visitado pelo ator americano Sean Penn, que legitimamente o entrevistou para a revista Rolling Stone e conversou sobre a almejada produção cinematográfica.

Nos anos 90, El Chapo entrou na alça de mira da DEA pela ousadia de ter mandado cavar, para driblar a fiscalização de fronteira, um túnel subterrâneo de 443 metros de extensão. Pela abertura do túnel na mexicana Tijuana era colocada a droga posteriormente retirada na cidade americana de San Diego.

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Obra de túnel para fuga do traficante Joaquín “El Chapo” Guzmán. ( Procuraduría General de la República México)

Preso na Guatemala em 1993 e extraditado, o narcoboss, em 2001, logrou fugir rocambolescamente da prisão de segurança máxima de Jalisco: saiu num furgão entre lençóis transportados a uma lavanderia terceirizada.

Da cadeia sempre comandou o cartel de Sinaloa, ganhou fama a ponto de ser chamado de “segundo presidente” do México. Na condição de foragido firmou aliança, para compra de cocaína e posterior revenda, com Martín Leonel Pérez Castro, apelidado “El Rey Midas”, um dos comandantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Na Itália, o cartel de Sinaloa forneceu drogas à poderosa ‘NDrangheta calabresa. Dessa maneira, o cartel de Sinaloa chegou à Europa e, logo a seguir, conquistou mercados na Austrália e Ásia.

No curso da fracassada política de “guerra às drogas” do então presidente Felipe Calderón, baseada no denominado Plan Mérida apoiado por George W. Bush, o capocartel El Chapo não foi molestado. A rádio norte-americana National Public chegou a informar, em 2010, que em Sinaloa suspeitava-se de El Chapo ser favorecido pelo presidente Calderón.

El Chapo contou com a sorte na guerra com o cartel de Tijuana dos irmãos Arellano Felix. Matadores do cartel de Tijuana confundiram o automóvel de El Chapo com o do cardeal Juan Jesús Posada Ocampo, assassinado em seu lugar e depois canonizado pela Igreja.