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Número 885,

Política

Paraná

Investigação chega mais perto de Richa

por Henrique Beirangê publicado 29/01/2016 05h36, última modificação 16/02/2016 17h06
O irmão e o primo do governador tucano do Paraná são citados no esquema de propina
Daniel Castellano
Beto-Richa

Familiares de Richa teriam recebido dinheiro da Valor Construtora

Sob ameaça de instauração de uma CPI contra sua administração, o governador do Paraná, Beto Richa, passou os últimos dias cercado de aliados e advogados para montar uma estratégia que tente afastá-lo do escândalo na Secretaria de Educação.

As investigações sobre o esquema de pagamentos de propinas apontam que o montante desviado ultrapassa os 20 milhões de reais. Segundo reportagem publicada no site de CartaCapital, o esquema, afirmam testemunhas, abasteceu a campanha do governador e de seus aliados nas últimas eleições. Agora, os investigadores querem saber como o dinheiro foi movimentado.

Os primeiros detalhes das apurações revelam que o dono da Valor Construtora, Eduardo Lopes, teria enviado recursos para contas no exterior.

As acusações partiram de ex-funcionárias das empresas de Lopes. O empresário seria o responsável por organizar a distribuição do dinheiro entre servidores da Educação e para as campanhas políticas. A propina era desviada de escolas projetadas, mas não construídas.

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Pepe é secretário de Infraestrutura do estado (Gazeta do Povo)

O restante da quantia era enviado ilegalmente para fora do Brasil por meio de um doleiro, ainda não identificado. Sabe-se apenas que o homem de prenome Rui frequentemente levava dólares e euros à sede da construtora. O doleiro levaria as notas amarradas na perna e saía sempre portando uma mala. A identificação de Rui depende da degravação de um aparelho onde ficavam registradas as imagens da câmera de segurança no saguão da empresa.

Os investigadores esperam ainda identificar outros participantes do esquema na análise das imagens do circuito interno. Suspeita-se que o doleiro seria o facilitador das remessas de recursos para ao menos dois países, Moçambique e Estados Unidos. Durante o último ano, Lopes tinha interesse na abertura de uma filial no país africano, mas segundo as funcionárias, não houve sucesso na conquista de obras no exterior.

Uma subsidiária teria, porém, sido criada no nome de uma empregada doméstica em Moçambique e de outros laranjas e servido para lavar dinheiro. Outra via de ocultação de propina seria em Nova York. Uma das delatoras afirma que Lopes costumava viajar com grandes quantias para os EUA e não escondia de ninguém o fato de manter recursos fora do País. 

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Antoun aparece em outros escândalos do governo tucano (Estadão Conteúdo)

As contas nos EUA, segundo uma testemunha, estariam registradas em nomes da esposa e do filho de Lopes. Os dois foram detidos por envolvimento no esquema. Gustavo Lopes cumpre prisão preventiva desde o fim do ano passado e a esposa de Eduardo, Patricia Baggio, foi presa na sexta-feira 15. A Justiça lhe concedeu prisão domiciliar por causa da amamentação de um filho de 4 meses.

A busca e apreensão na casa do empreiteiro poderá fornecer novas pistas. Diversos celulares, em posse de Lopes, eram usados para falar com integrantes da Assembleia Legislativa e intermediários de políticos. Os aparelhos não estavam em nome do empresário, mas  de laranjas. A identificação dos destinatários das chamadas pode se tornar uma prova cabal de envolvimento dos parlamentares investigados.

Como em todo folhetim policial, a logística para o transporte de dinheiro envolvia um estratagema curioso. Quantias de até 800 mil reais eram sacadas na boca do caixa e levadas para a sede da construtora. Lá, a propina era separada em caixas de vinho e redistribuída no meio das garrafas como presente aos destinatários da propina. 

Para esclarecer várias dúvidas da investigação será necessário despertar o interesse do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Os autos que citam o nome de Richa e de Durval Amaral, ex-chefe da Casa Civil e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, estão em poder da PGR. Os trechos em que são citados o presidente da Assembleia, Ademar Traiano (PSDB), e o deputado Plauto Miró (DEM) foram enviados para o procurador-geral do Paraná.

Sobre o envolvimento de Amaral, há outras perguntas sem respostas. Segundo as testemunhas, o empresário teria tentado, ainda antes do início da operação, firmar um Termo de Ajustamento de Conduta com o estado e o TCE. A iniciativa permitiria à Valor concluir as obras em atraso. O relatório, a respeito da lisura do acordo, segundo a advogada das delatoras, teria ficado, curiosamente, a cargo do conselheiro acusado de participar do esquema.

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(Alep)

Para piorar a situação do governador, a investigação atinge o irmão e secretário de Infraestrutura, Pepe Richa, e um primo, o já famoso Abi Antoun, citado em outros escândalos da administração do tucano. Os dois teriam recebido propina do esquema. 

Também causa embaraços ao governador um relógio da marca Rolex. Richa foi presenteado por Maurício Fanini, ex-diretor da Secretaria de Educação, com o mimo. Fanini seria o contato de Lopes, que possuía uma coleção de relógios da marca. A apuração quer saber se o ex-funcionário público ganhou o relógio do empresário e por qual motivo. Um Rolex pode valer até 500 mil reais. 

Os ganhos do empresário permitiam excentricidades. Uma das coberturas em Curitiba pertencentes a Lopes estava avaliada em 4 milhões de reais, sem contar os carros importados e a Mercedes-Benz vermelha usada pelo filho.

Nos últimos dias apareceram novos nomes do tucanato envolvidos na fraude. Para os investigadores, os desvios teriam começado alguns anos antes sob o patrocínio de um expoente do PSDB paranaense, o deputado federal Valdir Rossoni. Segundo as delatoras, a Valor conquistou obras na cidade de Bituruna sem participar de uma concorrência e sem apresentar um acervo técnico, laudo que comprovaria sua experiência em tocar empreendimentos semelhantes.

Tatiane de Souza, uma das laranjas usadas por Lopes, contou que na empresa se ouvia que Rossoni era um político influente na cidade. Valdir é pai do ex-prefeito de Bituruna Rodrigo Rossoni, que chegou a ter o mandato cassado por abuso do poder econômico nas eleições. Procurado, o deputado não quis comentar as acusações. No dia 15 de fevereiro, a assessoria do parlamentar encaminhou a seguinte nota:

"Tal afirmação não condiz com a verdade, uma vez que eu não estou sendo investigado por nenhuma operação policial, não estou e nem estive envolvido em fraude alguma e não fui citado por participar do referido esquema. Exatamente por isso me abstive de fazer qualquer declaração. Se os investigadores tivessem qualquer suspeição, teriam me notificado oficialmente, o que não ocorreu.  Para justificar a suposição de meu envolvimento no caso, o repórter cita 'Tatiane de Souza, uma das laranjas usadas por Lopes, contou que na empresa se ouvia que Rossoni era um político influente na cidade'. Qualquer ilação baseada neste vago depoimento é absurda, tendenciosa e inverídica, considerando que, naturalmente, sou um político influente em Bituruna, cidade de 25 mil habitantes onde iniciei minha carreira política como prefeito em 1982 e me estabeleci como industrial".

CartaCapital reitera o que foi apurado junto a mais de uma autoridade envolvida nas investigações, não só no Paraná, como em Brasília. A afirmação da delatora de que o político é influente na cidade foi feito no contexto de um contrato que teria sido realizado em Bituruna sem apresentação de acervo técnico pela empresa investigada na operação Quadro Negro

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O deputado federal Valdir Rossoni também é investigado (Divulgação)

Roberto Brzezinski Neto, defensor de Lopes e ex-advogado de políticos citados no esquema, entre eles o primo de Beto Richa, aconselhou o cliente a não aceitar um acordo de delação premiada. Brzezinski acredita que o Tribunal de Justiça do Paraná revogará a prisão do empresário e de seu filho, mulher e irmã, considerada foragida. 

Parentes de Lopes estariam, no entanto, insatisfeitos com a estratégia do advogado. Para eles, Brzezinski atenderia aos interesses de outros investigados. Haveria a possibilidade de uma troca de defensor, o que abriria caminho para um acordo de delação. Procurado, Brzezinski também não atendeu aos pedidos de entrevista. Os promotores veem como certa a condenação do empresário.

Os investigadores reclamaram do inquérito inicialmente conduzido pela Polícia Civil do estado. Consideraram que a peça foi relatada antes do prazo. As operações com prisões só foram possíveis após a intervenção dos promotores e a avaliação é que tenha havido pressão por meio da Secretaria de Segurança, subordinada ao governo Richa. Agora, não se tem certeza se será possível realizar novas diligências eficazes.

A federalização do processo tornou-se a esperança para impedir qualquer interferência política. O fato de uma parte do dinheiro das escolas não construídas ter sido repassada pela União permitiria essa federalização. O empresário parece contar com a impunidade como aliada. Após a primeira operação que levou à cadeia suas laranjas na empresa, Lopes as visitou ainda no Instituto Médico Legal durante o exame de corpo de delito e vaticinou: “Não se preocupem. Isso não vai dar em nada. É só para dar uma resposta para a mídia”. Será? 

*Reportagem publicada originalmente na edição 885 de CartaCapital, com o título "Mais perto de Richa"

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