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Número 885,

Sociedade

Papinho Gourmet

Bem, faltou dizer que...

por Marcio Alemão publicado 29/01/2016 16h46, última modificação 30/01/2016 02h51
Existe de fato outro mundo gastronômico sendo pensado e realizado há muito tempo
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Papinho-Gourmet

"Os caras se debruçaram sobre os livros, sobre o laboratório, sobre a terra e sobre o mar. São estudiosos"

– O Noma vai fechar. Quer dizer: fechou.

– Noma é o dinamarquês, o dito melhor do mundo?

– Mas reabre em 2017. Até lá, diz o dono, Redzepi, que estará reformando uma grande área próxima da cidade onde vai funcionar o novo restaurante e a fazenda que vai abastecer o local.

– Fazenda para os povos do Norte não chegam a ser comparadas com as nossas.

– Eles chamam de “farm”, mas a gente poderia dizer “chácara”. Enfim, isso não tem a menor importância.

– Você foi ao Noma?

– Nunca e nunca fui ao El Bulli, nem ao El Celler de Can Roca, na Osteria Francescana, no Mugaritz, em nenhum restaurante do Heston Blumenthal. Na verdade eu mal tenho saído de casa.

– Grana?

– Grana. Logo, não deixo de ser uma fraude como cronista gastronômico.

– Concordo. Você nunca se debruçou sobre as grandes transformações da gastronomia.

– É mais fácil tirar sarro da espuma do que entender a espuma. A turma do Noma fez um vídeo de despedida. Vale dar uma olhada. Existe de fato outro mundo gastronômico sendo pensado e realizado há muito tempo.

– Com a ajuda da ciência.

– E da sensibilidade de seus pensadores. A descoberta, ou ainda o que seria mais correto dizer, a redescoberta da importância de alguns ingredientes, de muitos temperos, de ervas que sempre foram desprezadas. Os caras se debruçaram sobre os livros, sobre o laboratório, sobre a terra e sobre o mar. São estudiosos. 

– São curiosos.

– Ezra Pound um dia disse mais ou menos isto: sem curiosidade o futuro não existe.

– Sou sincero em dizer que, se a grana abundasse, eu gostaria de passar uma temporada ao lado desses caras.

– A história do Noma de ter sua fazenda faz parte de uma antiga conversa, que até foi escrita muitas vezes por aqui.

– Valorizar o local e ir em busca da melhor matéria-prima e sacar que, de repente, um espinafre, com uma pitada de zimbro e gotas de uma infusão de limão-cravo, vira um espinafre divino e sensacional.

– Posso dizer? É outro universo, outro mundo que, infelizmente, só pode ser acessado por alguns poucos privilegiados.

– Meio que dirigir um Fórmula 1.

– Meio isso.

– E a exemplo disso, ainda assim, nesse mundo, sobram os que batem na largada.

– Também é verdade que o mundo foi invadido por essa ideia, essas ideias e o que sobrou foi um amontoado de espuma sem sentido; outros propuseram uma volta quase desesperada às origens, e os raros escolhidos continuam fazendo mágicas, cada vez mais interessantes.

– Jogou na Mega Sena?

– Toda semana. Ainda dou uma bocada nessa revolução.