Você está aqui: Página Inicial / Revista / Petróleo e crise / As novas regras do Oriente Médio
Número 885,

Internacional

Irã

As novas regras do Oriente Médio

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 31/01/2016 00h19
O fim das sanções muda o mercado mundial de petróleo e o equilíbrio geopolítico da região
Joe Klamar/AFP
Acordo-Nuclear

O acordo dá bons negócios à Europa

Parecia impossível, mas a entrada em vigor do acordo nuclear entre o Irã e as potências (EUA, França, Reino Unido, Alemanha, União Europeia e Rússia) foi anunciada pelos chanceleres iraniano Javad Sharif e europeia Federica Mogherini no sábado 16. Dois dias antes, após desativar a maior parte de suas centrífugas, Teerã retirara o núcleo do reator de água pesada de Arak, último pré-requisito do tratado negociado e fechado em 14 de julho de 2015 e formalmente aprovado em 18 de outubro.

Por fim, Barack Obama, cuja política externa e militar foi em muitos aspectos uma decepção para os pacifistas, fez por merecer ao menos a caixinha da medalha do Nobel da Paz prematuramente recebido em 2009. Enfrentou o lobby sionista, a pressão dos sauditas, a oposição republicana e parte da opinião pública para concretizar ao menos esse passo para a estabilização da região mais explosiva do mundo.

Em agosto de 2010, analistas internacionais davam a guerra como inevitável. Segundo um documentário do Canal 2 de Israel, Benjamin Netanyahu ordenara a preparação de um ataque, mas as Forças Armadas e o Mossad recusaram-se a executar seus planos sem apoio de Washington. O primeiro-ministro israelense não desistiu e redobrou as pressões para obter uma guerra ou o desmantelamento total do programa nuclear iraniano. Seu serviço de inteligência criou um escritório especialmente para divulgar documentos forjados sobre os planos iranianos e influenciar a percepção internacional do Irã.

Rohani
Belas vitórias diplomáticas entre Rohani e Obama, que se fortalece contra os radicais (Mandel Ngan/AFP)

Netanyahu conseguiu, em 2012, a aprovação de sanções internacionais ao Irã, mas as julgou insuficientes. Continuou a pressionar por um ataque, apesar da contrariedade de seus militares e espiões, mas a reeleição de Obama e a eleição do cordato Hassan Rohani no lugar do nacionalista fanfarrão Mahmoud Ahmadinejad frustraram sua campanha, apesar do apoio de sauditas e republicanos. As negociações desejadas tanto pela Casa Branca quanto pela Europa começaram a sério e os esperneios do premier, incluído o passo sem precedentes de atropelar a Casa Branca e falar diretamente ao Congresso dos EUA, mostraram-se inúteis. Desde outubro, parece ter-se conformado com o fato consumado, em troca de receber de Washington mais ajuda militar e armas de última geração.

Pelo menos dois episódios sugerem, porém, tentativas de última hora de sabotagem ao acordo, uma pela monarquia saudita e outra por militares dissidentes do próprio Pentágono. O primeiro, discutido em CartaCapital 883, foi a execução pelos sauditas do clérigo xiita Nimr al-Nimr, no primeiro dia de 2016. O segundo, o improvável “erro de navegação” que levou dois barcos-patrulha da Marinha estadunidense para as vizinhanças de uma base naval iraniana em suas águas territoriais, o que levou à captura das tripulações na terça-feira 12 de modo a ofuscar o discurso anual do presidente Obama sobre o Estado da União. 

Obama
A despeito das falhas na política externa, Obama acerta ao firmar acordo com Irã (Mandel Ngan/AFP)

O Irã não mordeu a isca e os marinheiros foram rapidamente interrogados e libertados. Obama também não cedeu às pressões dos republicanos pró-Israel que exigiram a suspensão do acordo a pretexto desses incidentes e dos novos testes de mísseis iranianos. Esses últimos não foram ignorados, mas tratados como questões em separado pela Casa Branca e punidos com o bloqueio do sistema financeiro dos EUA a 11 empresas e indivíduos relacionados aos testes, sem prejudicar a retirada das sanções comerciais mais gerais.

Quatro prisioneiros iranianos-americanos, inclusive um repórter do Washington Post, foram libertados em troca de sete iranianos presos nos EUA. O Irã obteve a liberação imediata de 32 bilhões dos 100 bilhões de dólares congelados em bancos no exterior e poderá voltar a negociar com empresas e instituições financeiras europeias e receber investimentos. Para começar, a estatal iraniana Air Iran anunciou a aquisição de 114 aviões Airbus no valor de 10 bilhões. A União Europeia quer ampliar o comércio bilateral do atual valor de 8,3 bilhões para os 31 bilhões anteriores às sanções. Rohani espera receber de 30 bilhões a 50 bilhões em investimentos externos em cinco anos e ver sua economia crescer de 5% a 8% anuais.

A retomada dos negócios com os EUA é mais complicada, porque o embargo antecede a questão nuclear e foi engessado por leis impossíveis de revogar sem a colaboração dos republicanos, mas a concorrência com os europeus deve levar empresas como a Boeing a pressioná-los para flexibilizar essas restrições.

Irã
Somada à guerra de preços, a volta do petróleo do Irã ao mercado ameaça a estabilidade de muitos países (Behrouz Mehri/AFP)

A consequência economicamente mais importante é o retorno das exportações de petróleo à Europa. O Irã exportava 2,6 milhões de barris por dia em 2011, 665 mil dos quais para a União Europeia, mas isso caiu para 1,26 milhão em 2015, quase tudo para países asiáticos. A questão é se sua produção se recuperará mais rapidamente do que a queda estimada de 660 mil barris por dia na produção de países fora da Opep (queda de 1,1 milhão nos EUA, compensada em parte por outros produtores), de maneira a ampliar o excesso de oferta. 

A análise do alemão Commerzbank argumenta que Iraque e Líbia levaram um ano para retomar a produção após as intervenções de 2003 e 2011, mas não são casos comparáveis. Aquelas duas nações foram destroçadas, enquanto o Irã está intacto e tem um governo estável e tecnicamente competente. Em todo caso, o Departamento de Energia dos EUA estima um aumento de produção de 300 mil barris/dia até o fim de março e 600 mil até o fim de 2016 e o mercado parece trabalhar com essa hipótese, embora a Agência Internacional de Energia fale em 600 mil até o fim de junho e o governo iraniano em 1 milhão nessa mesma data.

Isso foi o suficiente para fazer o preço médio do barril de petróleo de alta qualidade (West Texas Intermediate) cair de 60 dólares em junho de 2015, logo antes de o acordo ser anunciado, para 50 em 16 de julho, 45 em 19 de outubro, 37 no fim do ano, 31 em meados de janeiro e 28 nos primeiros dias após a concretização do acordo. Chegara a um pico de 145 dólares antes da crise de 2008 e girara em torno de 100 do início de 2011 a meados de 2014.

A queda para 60 dólares foi provocada pelos sauditas. Sua política usual era ajustar a produção ao mercado para estabilizar o preço, mas na reunião de novembro de 2014, ante a desaceleração da demanda chinesa e o crescimento do fracionamento hidráulico de xisto nos EUA, optaram por manter a produção e deixar a cotação cair, com a expectativa de quebrar rapidamente esses produtores, recuperar sua participação e voltar a vender com mais lucro.

Talvez pretendessem também punir o Irã e a Rússia por seu apoio ao governo sírio. Mas uma queda de 60 para 30 e talvez menos (há quem arrisque 10 ou 15 dólares) provavelmente não estava em seus planos e os sauditas ainda se envolveram na guerra civil do Iêmen, um sorvedouro de recursos. Na virada do ano, Riad teve de subir tarifas e preços internos de combustíveis, mesmo se eram parte da fórmula com a qual essa monarquia absoluta e obsoleta garante a apatia política da maioria dos súditos.

Mesmo assim, a Arábia Saudita recusou-se a recuar da guerra de preços na reunião da Opep de dezembro. Suas reservas dão-lhe fôlego para alguns anos, enquanto muitos pequenos produtores dos EUA quebraram e outros mais devem fechar ou reduzir a produção em 2016. Mas, se os preços continuarem baixos nos anos 2020, a monarquia estará em apuros. Se cortar a produção, perderá participação no mercado. O fim das sanções a pôs em uma situação na qual sua importância econômica e estratégica só tende a diminuir.

Não é a única vítima da armadilha criada por ela mesma. A Venezuela, cuja conjuntura política e econômica foi crítica em 2015, estará ainda pior em 2016. No caso da Rússia, as dificuldades são parcialmente compensadas pela popularidade das aventuras geopolíticas de Vladimir Putin. Nesses dois casos, quanto pior, melhor, talvez pensem os estrategistas de Washington, mas outros países cuja estabilidade é importante para seus planos podem ser igualmente ou ainda mais abalados, notadamente o México e a Nigéria, que os narcotraficantes e o Boko Haram, respectivamente, podem empurrar para a beira do colapso.

O Irã, pelo contrário, tem perspectivas positivas. Ainda enfrenta a desconfiança e certa hostilidade dos EUA, mas saiu do isolamento e foi reconhecido como uma potência regional responsável, necessária aos entendimentos indispensáveis para conter a violência no Oriente Médio. Cresceu seu prestígio com governos amigos, entre eles Iraque, Síria, Rússia e China, e ao voltar a se tornar um mercado importante para aviões, bens duráveis e equipamentos, passará a ter aliados nos lobbies exportadores e financeiros ocidentais.

O cálculo segundo o qual precisa de um preço do petróleo ainda mais alto do que a Arábia Saudita para equilibrar seu orçamento é enganoso, pois Riad não tem alternativas (45% do PIB, 80% das receitas públicas e 88% das exportações são petróleo bruto e o restante das vendas externas são petroquímicos) e Teerã sim, pois sua agricultura e sua indústria e mineração não petrolíferas são relevantes. Para os iranianos, a queda dos preços do petróleo e gás (10% do PIB, 45% das receitas públicas e 60% das exportações em 2015) será compensada pelo maior volume e os demais setores da economia, livres do embargo, podem florescer. Caso se confirme a expectativa de crescimento acelerado após a forte retração devida às sanções, o regime terá anos de euforia e alta popularidade, mesmo se o petróleo estiver barato.

*Reportagem publicada originalmente na edição 885 de CartaCapital, com o título "As novas regras do jogo"