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Número 885,

Economia

Finanças

A crise dentro da crise

por Carlos Drummond publicado 31/01/2016 00h18
O mundo vive novamente o temor de uma hecatombe
Dan Rieldhuber/ Reuters/ Latinstock
Crise econômica

O preço do petróleo despenca

As fragilidades da economia mundial parecem confirmar algumas previsões quanto ao risco de se ter uma década perdida. Na melhor das hipóteses, seriam anos de letargia econômica, analisa o Nobel de Economia Joseph Stiglitz. 

O cenário inspira cautela. O aumento das instabilidades ocorre quando os países ainda se recuperam dos estragos da crise de 2008, desencadeada com a quebra do Banco Lehman Brothers, nos Estados Unidos, e ampliada pelos desdobramentos na Europa, em 2010, e nos paí­ses emergentes, nos últimos anos.

Não faltam sobressaltos. Na quarta-feira 20, as principais Bolsas sofreram perdas. A Bolsa de Valores de São Paulo caiu 1,08% e as ações preferenciais da Petrobras desvalorizaram 4,94%, para 4,43 reais, após quedas sucessivas nos dias anteriores.

Os mercados de ações refluíram 2,81% na Alemanha, 3,45% na França, 4,83% no Reino Unido, 3,71% no Japão e 3,82% na China. Nos EUA, a Nasdaq fechou em baixa de 0,08%. Na tarde da quarta-feira 20, o Índice Dow Jones caía 1,52% e o S&P 500 mostrava uma variação negativa de 1,14%.

As baixas foram provocadas, entre outros motivos, pela queda da cotação do petróleo para 30 dólares o barril no dia 11, o que não acontecia há 12 anos. No dia 20, a commodity fechou a 26,53 dólares o barril.

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O problema é político, não econômico, diz o Nobel de Economia

 

A esse preço, todas as empresas do setor de óleo e gás que investiram com a perspectiva de continuidade de cotações até quatro vezes maiores sofrem uma queda brusca das receitas e estão sob risco. As notícias do crescimento do PIB da China de 2015 em 6,9%, o mais baixo dos últimos 25 anos, e das dificuldades enfrentadas pelos países emergentes aumentaram as incertezas.

A onda recente de instabilidades avolumou-se quando o Royal Bank of Scotland aconselhou seus clientes, no dia 10, a se prepararem para “um ano cataclísmico” no mundo. O petróleo pode desabar para 16 dólares, avisou o banco.

“Venda tudo, exceto títulos de alta qualidade. Há muitos investidores com posições compradas e as portas de saída são estreitas”, recomendou em um comunicado. Os bancos Morgan Stanley e Goldman Sachs preveem uma queda do petróleo para 20 dólares o barril. A cotação poderá cair para 10 dólares na projeção do Stanley Chartered. 

Uma combinação de causas empurrou o preço da commodity para baixo, a começar pela queda do consumo forçada pela estagnação econômica mundial, os estoques elevados, as temperaturas mais altas do inverno europeu e o aumento da eficiência no uso de combustíveis.

O crescimento da produção de petróleo nos Estados Unidos em 66% nos últimos cinco anos e a pressão baixista da Arábia Saudita para inviabilizar economicamente a exploração do xisto naquele país contribuíram para derrubar as cotações, assim como a revogação do embargo europeu à compra do petróleo do Irã.

Os problemas da economia se multiplicam. “O comércio global e os empréstimos têm se contraído, um coquetel indigesto para os balanços e os lucros”, disse o economista-chefe do RBS para a Europa, Andrew Roberts.

O pânico dos investidores e a onda de vendas de ativos fizeram o Bank of America “inverter as ordens de compra”. Pela primeira vez em sete anos, o JP Morgan Chase pressionou os clientes a “venderem as suas ações por qualquer oferta”.

Só 27% dos executivos entrevistados em uma pesquisa da PwC realizada em dezembro e apresentada no Fórum Mundial em Davos acreditam que a economia mundial vai melhorar nos próximos 12 meses.

Albert Edwards, estrategista do Banco Société Générale, disse que “o Ocidente está prestes a ser atingido por uma onda de deflação das economias dos países emergentes”. Os bancos centrais, segundo Edwards, não aprenderam as lições da bolha imobiliária que conduziu à crise financeira e à recessão em 2008-2009.

“Não entenderam o sistema, portanto, não perceberam que fazem tudo errado novamente. A deflação está aí e os bancos centrais não conseguem vê-la.”

A situação atual “questiona a avaliação predominante no Brasil de que a crise era chinesa e a economia dos Estados Unidos estava se recuperando. Essa visão desconsidera que China e EUA constituíram nos últimos 30 anos um sistema econômico”, aponta o economista Luiz Gonzaga Belluzzo.

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De Mônaco a Bangladesh, 62 privilegiados têm a mesma riqueza de 3,6 bilhões de deserdados (Valery Hace/AFP e Yuri Gripas/Reuters)

O peso da economia chinesa e o impacto da sua retração no resto do mundo são óbvios, mas considerá-la frágil e sem rumo contraria os fatos. O crescimento do ano passado ficou só um décimo abaixo da meta projetada de 7%, a mostrar considerável grau de controle do processo pelos executores da política econômica. E há uma “mudança da composição” dessa evolução.

Segundo Louis Kuijs, da Oxford Economics, o PIB chinês sofre “pressões para baixo dos setores de imóveis e de exportações, mas o consumo robusto e os investimentos em infraestrutura evitam uma queda aguda”, apesar de ainda existir capacidade ociosa em todos os setores. 

Já a situação dos Estados Unidos estaria muito pior do que o Federal Reserve pensa. “Assistimos a uma expansão massiva de crédito naquele país, para financiar não a atividade econômica real, mas as recompras de ações das empresas”, segundo Edwards.

A austeridade fiscal, a valorização do dólar e a má distribuição de renda vão descarrilar a economia dos EUA, alerta o Instituto Levy de Economia. Algumas das fragilidades do sistema financeiro evidenciadas em 2008 parecem persistir.

Segundo o Escritório de Pesquisa Financeira do governo americano, a “atividade financeira e os riscos migraram para fora do perímetro regulado e a liquidez do mercado parece ter ficado mais frágil nos últimos anos, enquanto as interconexões entre as empresas financeiras e os mercados evoluem de modos não compreendidos plenamente”. O escritório vê “elevado e crescente risco de crédito nas transações não financeiras nos Estados Unidos e em muitos mercados emergentes”.

A vulnerabilidade específica dos bancos estadunidenses com financiamentos às empresas exploradoras do petróleo do xisto é preocupante. O volume de crédito concedido às firmas de fracking ou injeção de água sob alta pressão para fragmentar o mineral e extrair as reservas de óleo e gás cria outra bolha nos Estados Unidos, segundo vários analistas.  

Afirma Jim Rickards, consultor de investimentos na Austrália e editor da newsletter The Daily Reckoning: “Somam cerca de 5,4 trilhões, isso mesmo, trilhões, de dólares, os custos incorridos nos últimos cinco anos para infraestrutura e exploração do gás e do óleo do xisto nos Estados Unidos financiados com dinheiro das empresas e endividamento bancário”.

Quando diversos produtores recorreram a empréstimos, os modelos financeiros levaram em conta preços do petróleo “entre 80 e 150 dólares o barril”. Nenhuma empresa esperava uma queda como a atual e isso significa que aquelas dívidas “terão de sofrer uma baixa contábil”, ou seu lançamento na conta de despesas e prejuí­zos.

Rickards considera a baixa contábil necessária para ao menos 50% das dívidas. “De modo conservador, se 20% forem lançados como prejuízos, as perdas totalizarão 1 trilhão de dólares. Um fiasco maior do que a crise das hipotecas imobiliárias nos Estados Unidos em 2007.” No topo dos maus empréstimos estão os derivativos. 

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As Bolsas de Valores também despecam

A conta de Rickards bate com aquela do Goldman Sachs quanto à existência de “1 trilhão de investimentos no setor de petróleo virtualmente sem valor enquanto os preços continuarem tão baixos”.

Os bancos Citigroup, Wells Fargo e BofA informaram perdas consideráveis com créditos a empresas do setor petrolífero. Para o JP Morgan Chase, o maior dos Estados Unidos, se o petróleo permanecer em torno de 30 dólares o barril, seria necessário adicionar 750 milhões de dólares às suas reservas para devedores duvidosos.

O Federal Reserve de Dallas percebeu que a situação é insustentável e dias atrás reuniu-se com bancos e mandou parar de marcar a mercado, isto é, desvalorizar os ativos ligados ao setor de petróleo segundo o seu valor atual. A autoridade fiscalizadora aceitará, portanto, os valores registrados nos balanços, assumidos quando as projeções levavam em conta uma estabilidade das cotações altas do petróleo.

Em entrevista à CNBC durante o encontro de Davos, Ray Dalio, fundador do Bridgewater Associates, o maior hedge fund do mundo, administrador de 155 bilhões de dólares, previu que o Fed “reverterá seu curso e fará mais quantitative easing ou compra de títulos para abastecer o mercado com dinheiro”.

Para Dalio, os trilhões colocados na economia para enfrentar as crises sucessivas conduziram os preços dos ativos para o “território das bolhas” e criaram um efeito riqueza negativo. “Todos os países necessitam de uma política monetária mais expansionista e os bancos centrais agora têm menos espaço para ajudar.”

Mais preocupantes que a China, neste ano, são as economias emergentes do Brasil, África do Sul, Tailândia e Turquia, apon­ta o economista Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia. Com seus altos níveis de dívida de curto prazo, são vulneráveis a crises das suas moedas, potencialmente causadoras de colapsos econômicos. “Os investidores perceberão que a situação da China está sob controle e os problemas reais estão em outros lugares.” 

No Brasil, as autoridades mantêm os juros altos e não querem ouvir falar de nada diferente de equilíbrio orçamentário e cortes de gastos, investimentos públicos incluídos. A principal medida do governo para estimular a economia foi o anúncio da intenção de aumentar o crédito dos bancos públicos, feito pelo ministro Nelson Barbosa. Ação bem-vinda, mas tímida diante da envergadura da recessão. E ainda no campo das promessas. 

A força da política econômica conservadora, posta em dúvida em outros países, ficou evidente na rejeição da mídia e de ex-dirigentes do Banco Central, entre outros, à iniciativa do presidente Alexandre Tombini de revelar preocupações com as economias brasileira e mundial um dia antes da reunião do Comitê de Política Monetária, no dia 20, para decidir a taxa de juros.

Tombini fez referência à revisão, pelo Fundo Monetário Internacional, das estimativas de crescimento global, de 3,1% no ano passado para 3,4% em 2016 e 3,6% em 2017, mais gradual que em outubro. As projeções para o PIB do Brasil passaram de -1,0% para -3,5% em 2016 e de +2,3% para 0% em 2017.

A preocupação externada por Tombini pode ter influenciado a decisão do Copom de manter a taxa de juros em 14,25%. É muito diante da situação de inadimplência crescente de empresas e o desemprego. Em entrevista a blogueiros no mesmo dia, o ex-presidente Lula disse que “o governo precisa se mexer e mobilizar recursos para os investimentos públicos”.

Diferente da situação de Tombini é aquela do presidente do BC do México, Agustín Carstens, que defendeu dias atrás um quantitative easing nos países emergentes para fazer frente “a choques potencialmente severos” na economia. 

O principal empecilho para uma política de recuperação é a obsessão com o equilíbrio dos orçamentos nacionais, aponta o economista Robert Skidelsky, professor da Universidade de Warwick, no Reino Unido. “É o momento ideal para o governo investir na economia.

Cer­ta­mente aumentará o déficit, mas isso é tão inquestionável quanto uma empresa emprestar dinheiro para construir uma fábrica na expectativa de que o investimento pague o financiamento.” 

“Os obstáculos enfrentados pela economia global não estão enraizados na economia, mas na política e na ideologia”, diz Stiglitz. “A inércia econômica é fácil de entender e há remédios imediatamente disponíveis. O mundo enfrenta uma deficiência de demanda agregada, resultante de uma combinação de desigualdade crescente e uma onda irracional de austeridade fiscal.”

O aumento da desigualdade no mundo saiu do controle, segundo a ONG Oxfam. A quantidade de indivíduos com riqueza igual àquela da metade da população mundial (3,6 bilhões de habitantes) passou de 388 em 2010 para 80 em 2014 e 62 no ano passado. Nos últimos 25 anos, o rendimento médio anual dos 10% mais pobres aumentou menos de 3 dólares.

As observações de Stiglitz e Ski­d­elsky fazem sentido também no Brasil, mas é difícil encontrar aqui quem lhes dê ouvidos.