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Número 884,

Economia

Ministério da Fazenda

Um voto de confiança

por Delfim Netto publicado 19/01/2016 05h54
Para Levy e Barbosa, a economia é um conhecimento empírico de uso sujeito às condições institucionais
Marcelo Camargo/Agência Brasil
Levy-e-Barbosa

Asseclas de Levy e Barbosa insistem em proclamar as diferenças entre eles

Desejo prestar uma homenagem ao bem-apetrechado economista Joaquim Levy. Por motivos internos do governo e pela falta de apoio de sua base parlamentar, ele não pôde levar a cabo o bom programa de devolver o Brasil aos trilhos do desenvolvimento econômico e social.

E aproveito para desejar ao seu substituto, tão bem preparado quanto ele, Nelson Barbosa, que encontre um ambiente interno mais amigável e externo politicamente mais pacificado, para que sua ação possa ser frutuosa.

Seus respectivos asseclas insistem em proclamar suas diferenças brandindo as fontes ideológicas da alma mater de cada um. Levy seria fruto da fonte do virtuoso neoliberalismo que vive na Universidade de Chicago. Barbosa seria uma ameaçadora semente fértil da New School University, de Nova York.

Segundo nossa “elite cientificista”, com apoio no ignorante mercado, trata-se de um perigoso gueto “heterodoxo”, onde se pratica uma estranha mistura da kaleckianismo e desvios post-keynesianos temperados por um marxismo “prêt-à-porter”...

É preciso superar tão indigente preconceito. Para os dois, a economia é um conhecimento empírico cujo uso tem de se submeter às condições institucionais sob as quais se vive.

Quando a “revolução” está excluída, a solução “ótima” é executar as melhores medidas econômicas selecionadas dentro do espaço politicamente factível, como fizeram os países hoje desenvolvidos.

A contribuição de Kalecki é importante e transcende o fato que antecipou Keynes em alguns aspectos, o que é superdimensionado por seus admiradores. Para os dois, a determinação do nível de demanda efetiva depende do nível de investimento.

A diferença reside nos estímulos ao investimento. Um aspecto interessante em alguns modelos de Kalecki é que ele introduz, explicitamente, a distribuição de renda, como fizeram Malthus, Ricardo, Stuart Mill e Marx.

Mas, afinal, o que separa Keynes de Kalecki? Nada mais simples: Keynes trabalhou para salvar o capitalismo; Kalecki, para provar que ele não pode ser salvo!

 

O realmente importante é que, para ambos, o maior pecado de uma organização social é ser incapaz de proporcionar emprego para todos que querem e podem trabalhar, oferecendo-lhes salários decentes proporcionais às suas habilidades e bastante para dar-lhes identidade e recepcioná-los na cidadania.

Ambos sabiam que o nível de atividade da economia, enquanto existem fatores de produção disponíveis, é função da demanda efetiva, cujo nível, por sua vez, depende, fundamentalmente, do volume do investimento (público + privado).

Nelson-Barbosa
o que essa pedante peroração tem a ver com o ministro Nelson Barbosa? A boa notícia é: nada! (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Para Keynes, o investimento privado é função do “espírito animal” do empresário. Se está desativado, o governo pode emitir dívida pública, capturar a poupança privada e investi-la em projetos de infraestrutura que terão efeitos duradouros sobre a produtividade do sistema. Acabarão modificando a “expectativa” dos empresários e levando-os a voltar a investir, recuperando a renda e o emprego.

Num famoso e revelador artigo de 1943, “Political aspects of full employment”, Kalecki, implicitamente, considerou ingênuo o argumento anterior. Afirma que a “hipótese de que um governo manterá o pleno emprego numa economia capitalista, mesmo se soubesse como fazê-lo, é uma falácia”, por três motivos.

Os empresários: 1. “Se oporão ao pleno emprego produzido pelo governo, porque isso amplia a área de sua intervenção”. 2. “Não apreciam os investimentos públicos e são contra os subsídios ao consumo” e, principalmente, 3. “Não gostam das consequências do pleno emprego, porque ele destrói o instrumento que disciplina o trabalhador: o desemprego”.

Logo, pleno emprego e capitalismo se excluem. Se desejamos o primeiro, temos de acabar com o segundo. O fato é que Kalecki, no auge do seu prestígio intelectual e poder (1955-1965), e seus modelos não produziram o desenvolvimento da Polônia.

Apenas o mesmo “pleno emprego” com baixa produtividade que parasitou todo o socialismo “real” e custou a liberdade de duas gerações de poloneses...

O leitor deve estar se perguntando: o que essa pedante peroração tem a ver com o ministro Nelson Barbosa? A boa notícia é: nada! Por que, então, negar-lhe um voto de confiança?