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Número 884,

Internacional

América Latina

Só o diálogo salva a Venezuela

por Celso Amorim — publicado 16/01/2016 06h34
Em busca da conciliação dos anseios democráticos com reformas sociais
Timothy A. Clary/AFP
Rafael-Caldera

Caldera não foi revolucionário, mas sofreu tentativas golpistas por causa da sua preocupação social

Em um livrinho que publiquei há cerca de três anos*, dediquei um capítulo ao Grupo de Amigos da Venezuela, criado por iniciativa brasileira, nos primeiros dias do governo Lula.

Dele consta uma nota de pé de página, em que relato um episódio que vivenciei durante uma visita que fiz a Caracas, em 1994, quando era chanceler do presidente Itamar Franco.

Falo, especialmente, de um almoço oferecido pelo nosso embaixador, Clodoaldo Hugueney, de que participei com um grupo de empresários venezuelanos.

Estavam presentes vários assessores do meu gabinete, inclusive, com toda a probabilidade, o atual ministro, Mauro Vieira, que então exercia as funções de introdutor diplomático.

A certa altura, como recordo no relato citado, para espanto meu e, creio, do nosso embaixador, os empresários – membros destacados da elite venezuelana – passaram a falar de política interna. Praticamente desconhecendo a presença dos brasileiros, discorreram sobre conspirações e hipóteses de golpe de Estado.

Presidia o país àquela época Rafael Caldera, um experiente e moderado líder, com algumas tintas progressistas, que já governara a Venezuela no início da década de 70. Caldera estava longe de ser um revolucionário.

Ao lado do forte desejo de aproximar-se do Brasil, nutria forte antipatia pelo regime cubano, acusado de ter feito um desembarque de armas para presumíveis guerrilheiros, durante seu primeiro mandato. 

Mas Caldera era um democrata, com sensibilidade para os problemas sociais do seu país e a convicção de que era necessário diminuir a dependência de Caracas em relação aos vizinhos do Norte.

Meses depois da minha visita, um colaborador próximo de Caldera chegaria a propor, em conversa privada com a assessora diplomática do presidente Itamar Franco, à margem de uma Cúpula Bilateral em La Guzmania, uma “união perpétua” com o Brasil.

Talvez esse ânimo independentista, somado ao desejo de reformar alguns aspectos da sociedade venezuelana, em particular a brutal desigualdade, tenha tornado o presidente Caldera alvo de conspirações golpistas, tratadas com uma transparência quase obscena, que tanto me impressionou. 

Recordo esse pequeno episódio não para justificar manobras altamente criticáveis do governo de Nicolás Maduro, acuado após a fragorosa derrota nas eleições legislativas. Nada mais sagrado em uma democracia que o respeito à vontade popular expresso nas urnas. Isso vale para a Venezuela e para a Argentina, assim como vale para o Brasil.

Mas há duas lições a tirar da situação que vivi em 1994. Em primeiro lugar, o instinto golpista da elite venezuelana dificilmente se terá apagado totalmente e pode voltar a manifestar-se, como indicado pela disposição a uma atitude de confrontação de alguns (não todos) dos líderes oposicionistas.

Maduro
Maduro pagou por erros de gestão e exageros doutrinários do chavismo (Juan Barreto/AFP)

 

Em segundo lugar, a desigualdade, que Caldera queria combater com reformas incrementais e que Chávez buscou por meio de medidas voluntaristas e radicais, continua a ser uma chaga do tecido social venezuelano.

Da mesma forma, a excessiva dependência externa de um único parceiro continuará a gerar tensões. O apoio ao chavismo, expresso em votos, saiu reduzido a menos da metade (na verdade, um terço ou menos) do total do eleitorado.

As péssimas condições econômicas por que passa a Venezuela, com inevitável impacto social – às quais os erros de gestão e os exageros doutrinários do atual governo não são obviamente estranhos –, seguramente afetaram a base de sustentação do modelo (se é que se pode chamá-lo assim) que vinha prevalecendo até aqui.

Mas as demandas por maior equidade e por autonomia política, que inspiraram o chavismo, continuarão a existir, ainda que de modo subjacente por algum tempo. 

O grande desafio que se coloca para o povo venezuelano e, especialmente, para os líderes das várias facções será encontrar formas de conciliar os anseios legítimos por democracia e liberdade com as aspirações por reformas sociais efetivas.

Para isso, será necessário superar as animosidades que se criaram ao longo dos últimos anos e pelas quais os dois lados são responsáveis. Afinal, o fracassado golpe de 2002 não foi uma criação do imaginário chavista. Países como o Brasil têm grande responsabilidade na promoção desse diálogo.

Mesmo nestes tempos de crise, nossas instituições têm resistido às tentativas de mudança por meio de atalhos de legitimidade duvidosa. E programas sociais, que contribuíram para diminuir a pobreza, em particular, a pobreza extrema, têm sido preservados de ataques da oposição.

Isso nos dá grande autoridade moral para atuar em coordenação com nossos parceiros do Mercosul e da Unasul. Terá de ser uma atuação de caráter persuasivo e conciliador.

Não será com medidas coercitivas, que apenas reforçarão as teorias (verdadeiras ou falsas, pouco importa) sobre conspiração internacional, que se logrará o objetivo de uma reconciliação nacional em base a um acordo mínimo de princípios.

De nada adiantará tampouco reviver conflitos ideológicos do passado, que tanto mal causaram à nossa região, responsáveis que foram por décadas de obscurantismo.

Um acordo propiciado pelo diálogo deverá permitir o prosseguimento do embate democrático, sem demonizações, de ideias e programas sobre o futuro do grande país, a um tempo, andino, amazônico e caribenho. 

* Breves Narrativas Diplomáticas, Saraiva/Benvirá.

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