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Número 884,

Economia

Crédito

Recessão, juros e balanços

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 20/01/2016 05h50
No cenário de depressão econômica, a alta dos juros afeta drasticamente as condições do crédito
Marcelo Camargo/Agência Brasil
Nelson-Barbosa

A crise machuca a arrecadação do governo e o faturamento das empresas

Em seu caderno Finanças, o jornal Valor tem publicado diariamente matérias a respeito da situação financeira das empresas. As informações pouco animadoras não poderiam ser ignoradas por amigos e inimigos do ajuste

As matérias sublinham as dificuldades das empresas que, mais uma vez, se aventuraram no endividamento em moeda estrangeira. É desnecessário dizer que a maioria não se protegeu integralmente nos mercados futuros contra um episódio desagradável e recorrente de súbita e violenta desvalorização do real.

Nos anos de bonança, a valorização do real, além da proeza de triturar a indústria brasileira, praticou a façanha de estimular o endividamento de bancos e empresas em moeda estrangeira.

Isso tornou os balanços privados mais sensíveis a “uma reversão das expectativas”, como assinalou certa vez o saudoso Roberto Campos, por conta do arriscado “descasamento” de moedas, fenômeno de sobejo conhecido, mas sempre ignorado pelos brasileiros.

Digo saudoso Bob Fields porque, no tempo das diligências e dos diligentes, esgrimimos divergências interessantes a respeito de economia e da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino. Coisas de economistas ex-seminaristas).

Segue o enterro: é ilusão imaginar que o passivo externo – construído pelo endividamento privado – não vai gemer na barriga das empresas. Também é ilusório acreditar que a escalada da política monetária não iria danificar o balanço das empresas devedoras em reais, escalavradas pela queda da demanda ou estropiadas pela Economia Política dos Torquemadas da Lava Jato. 

É caudalosa a procissão de empresas bem administradas que batem às portas da Justiça para demandar recuperação judicial. Isto, para não falar na via-sacra aos bancos para esticar prazos das dívidas acumuladas. As reestruturações, quando concedidas, devem pagar um prêmio nas taxas de juros.

É desnecessário informar o leitor de CartaCapital sobre os encantos e os poderes do aparato monetário-financeiro das economias contemporâneas. Quando entregues a seus encantos, os bancos e similares lubrificam a circulação das mercadorias e dos serviços e, melhor ainda, adiantam dinheiro para a criação de nova capacidade de produção. 

Entregue a seus poderes, o aparato da finança se esmera na avaliação das dívidas e direitos de propriedade, que, dizem, representam ativos reais já acumulados ou, cada vez mais, pirâmides especulativas alavancadas. Não percam The Big Short, breve nos cinemas da praça.

Os bancos cuidam, portanto, de administrar o estado da liquidez e do crédito de acordo com as expectativas acerca da evolução dos balanços das empresas, famílias, governos e países, ou seja, das mudanças nas relações entre os movimentos de dois estoques: 1. A valorização esperada dos ativos reais; e 2. As avaliações diárias, marcadas a mercado, das dívidas e direitos de propriedade que sustentam a posse daqueles ativos. 

Suspeito que as derrapadas do ajuste brasileiro tenham contribuído pouco para melhorar o humor dos empresários, espremidos entre o choque de preços administrados, as esperanças receosas da desvalorização cambial e a escalada dos juros nominais. 

Na defesa da elevação na taxa de juros está implícita a insuficiência do atual patamar para convencer o mercado do comprometimento do BC em fazer a inflação convergir para a meta.

O regime de metas, dizem os entendidos, tem o propósito de definir a regra ótima de reação do Banco Central. Trata-se da regra que, ao longo do tempo, fortalece a confiança dos mercados no manejo da taxa de juros de curto prazo entregue à responsabilidade dos BCs.

Ao adequar suas decisões às expectativas (racionais) dos formadores de preços e dos detentores de riqueza, os bancos centrais tornariam mais suave o processo de manutenção da estabilidade do nível geral de preços, reduzindo a amplitude das flutuações da renda e do emprego. 

Um aperto monetário ainda maior, como parece prometer o Banco Central, atuará de forma pró-cíclica tanto na oferta quanto na demanda de crédito. Em cenário de depressão econômica, a elevação do juro básico afeta drasticamente as condições do crédito.

Afeta, portanto, os balanços das empresas, pois aumenta a disparidade entre o crescimento da dívida e das receitas. O mesmo pode ser dito da dinâmica da relação dívida pública/PIB. 

A crise machuca não só a arrecadação do governo, mas também o faturamento das empresas. Elas cortam os gastos e reduzem o emprego para ajustar os balanços. Como autodefesa, adiam o pagamento de impostos, fazendo com que o almejado resultado primário se frustre, majorando a dívida pública em vez de colaborar com a sua amortização.