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Número 884,

Sociedade

Acervo

O craque do sebo

por Rodrigo Casarin — publicado 22/01/2016 12h44, última modificação 24/01/2016 07h54
Com 25 mil obras, jornais e revistas, a coleção sobre futebol de José Renato figura no Guinness, o livro dos recordes
Anna Carolina Negri
José-Renato

O colecionador cultivou com o avô, dono de um clube amador no Ceará, a paixão pela história do esporte

Dono do floresta, time de futebol amador do Ceará campeão da várzea local em 1976, Felipe de Lima Santiago costumava guardar recortes de jornais sobre a equipe. Quando seu neto viajava de São Paulo para visitá-lo durante as férias, passavam manhãs inteiras revendo todas aquelas notícias.

O pequeno José Renato Sátiro Santiago Junior tomou gosto por publicações relacionadas ao esporte com o avô e orgulha-se de, praticamente, ter sido alfabetizado nas páginas da revista Placar. Por volta dos 11 anos, adquiriu o hábito de guardar esses papéis, hobby que cultivou ao longo da vida. Hoje, aos 45, possui o maior acervo de livros, revistas e jornais sobre futebol do mundo, reconhecido inclusive pelo Guinness, o livro dos recordes.

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O hobby de 25 mil itens e a paixão pelo esporte (Anna Carolina Negri)

A coleção de José Renato impressiona qualquer apaixonado por futebol ou por literatura. O acervo soma, atualmente, cerca de 25 mil itens. Dentre os 3.050 livros, constam diversas obras raras, como A Verdadeira História do Futebol Cearense, de 1955, escrito por Frederico Maia, e A História do Futebol em São Paulo, de Antonio Figueiredo, editado em 1918. Tudo fica guardado em um pequeno sítio no meio da Serra da Cantareira, entre São Paulo e Mairiporã. Jornais, livros e revistas são rigorosamente organizados em cômodos amadeirados, também adornados por outras peças que remetem ao futebol, como bonecos de mascotes e flâmulas.

Se o início do acervo deu-se com as publicações de bancas, a partir de 1982, quando ganhou seu primeiro livro sobre futebol, As Copas Que Ninguém Viu, de Solange Bibas, o interesse de José Renato passou a estar também nessas obras. Pedia para seu pai lhe comprar algumas novidades e aos poucos a coleção crescia.

Engenheiro de formação, intensificou as buscas após começar a trabalhar. Pedia em bancas para guardarem jornais que noticiavam as finais de campeonatos de diversos estados do País. “Às vezes demorava até duas semanas para ir buscar e, em alguns casos, perdia a viagem. Os jornaleiros não guardavam. Não acreditavam que alguém iria mesmo querer um exemplar velho da Bahia”, exemplifica.

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Em suas incursões por bancas e livrarias, encontrou raridades como A História do Futebol em São Paulo, de 1918 (Anna Carolina Negri)

A caçada estendia-se em sebos e livrarias. Encontrou muitas preciosidades, como exemplares da década de 1930, a menos de 2 reais. No início dos anos 1990, quando se mudou para uma casa na zona norte de São Paulo, com maior espaço para o acervo, aprofundou a garimpagem. “Comecei a crescer o olho, e as despesas também. Passei a comprar revistas antigas, como a Gazeta Esportiva Ilustrada, da década de 1960”, relembra, com um largo sorriso.

Acostumado desde cedo com revistas e jornais, José Renato é uma pessoa que preza imensamente por informações transmitidas com precisão e clareza. Para ele, um fato sempre é mais importante do que uma lenda, razão pela qual prefere os livros de não ficção. “A história do futebol não deve ser reescrita, ela tem de ser escrita da forma que ela é”, defende. “Atualmente, muitos escrevem mais para enaltecer o clube do coração do que para registar a história”, critica. A qualidade dos livros sobre futebol também tem caído. “De 2000 para cá, qualquer pessoa se acha capaz de escrever qualquer coisa, então não pesquisam nada além da internet.”

Hoje, José Renato tem 11 livros publicados e cuida do seu próprio site, o Memória Futebol. Evidentemente, usa muito de seu acervo na produção de seus textos. O sítio que abriga tanto conhecimento está aberto a todos aqueles que desejam se aprofundar no tema, basta procurá-lo antes para explicar as suas intenções. “Muita gente pede para ir lá fazer trabalho de faculdade, mas poucos pesquisam a fundo. Vão mais de curioso, para ter papo de torcedor.”

Há anos o interesse do colecionador está muito mais nas histórias do esporte do que nos gramados. São-paulino, diz ter perdido o encanto pelo futebol na semifinal do Campeonato Paulista de 1998, quando o árbitro argentino Javier Castrilli “inventou” um pênalti a favor do Corinthians contra a Portuguesa no final da partida, de onde surgiu o gol que eliminou o time do Canindé. “Tinha um vizinho português que chorou tanto... Fiquei pensando que o futebol não podia ser tão importante para uma pessoa ficar daquele jeito. Parei de ir a todos os jogos.”

José Renato tem, porém, as suas recaídas. “Neste ano fui assistir Iranduba e Operário, no Campeonato Amazonense. Tinha 15 pessoas na arquibancada, desses jogos eu gosto.” Talvez por conta das grandes histórias que rondam o futebol amador, como lhe ensinou o avô Felipe.