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Número 884,

Internacional

The Observer

Uma jornada para o inferno do Estado Islâmico

por Por Kim Willsher, de Paris — publicado 26/01/2016 04h34
A história de uma das poucas mulheres do Ocidente a conseguir voltar após aderir ao grupo extremista
Viviane Dalles

Sophie kasiki é uma das poucas ocidentais que estiveram na capital do “califado” em Raqqa, na Síria, e voltaram para contar a história. Para ela, foi uma viagem ao inferno da qual parecia não haver retorno.  “Eu me sinto muito culpada. Pergunto a mim mesma como poderei viver depois do que fiz, levar meu filho à Síria”, relatou ao Observer. “Odiei aqueles que me manipularam, exploraram minha ingenuidade, minha fraqueza, minha insegurança. Odiei a mim mesma.”

Cerca de 220 francesas estão com o Estado Islâmco no Iraque e na Síria. Dois anos atrás, só 10% dos que deixavam a França para unir-se aos jihadistas eram mulheres. Hoje a proporção é de 35% e um terço é de convertidas, como Kasiki. Sua história, Dans la Nuit de Daech (Na Noite do EI), publicada pela Robert Laffont, parece uma trama de suspense.

Com 34 anos, miúda, mas determinada, Kasiki nasceu no Congo-Kinshasa e foi criada em uma família católica abastada, com mulheres fortes e independentes. Ela tinha 9 anos quando a mãe morreu e foi enviada para morar com a irmã mais velha perto de Paris, o que provocou uma depressão infantil e projetou uma longa sombra em sua adolescência e maturidade, um “buraco no coração” que o casamento e a maternidade não conseguiram fechar. 

Ao ajudar imigrantes nos subúrbios de Paris como assistente social, Kasiki decidiu se converter ao Islã por acreditar que isso lhe preencheria o vazio, sem contar ao marido ateu. A nova fé lhe trouxe conforto psicológico e a aproximou de três muçulmanos dez anos mais jovens, a quem apelidou de Les Petits (os pequenos) e tratava como irmãos menores. 

Em setembro de 2014, os três sumiram para ressurgir na Síria, de onde contataram Kasiki diariamente. Ela se considerava um elo entre os meninos perdidos e suas famílias aflitas. Aos poucos, os papéis se inverteram. “Eu me julgava no controle, mas agora percebi que eles foram treinados para recrutar pessoas como eu”, disse. “Pouco a pouco se aproveitaram de minhas fraquezas. Sabiam que eu era órfã e tinha me convertido, sabiam que eu era insegura...”

Em 20 de fevereiro de 2015, Kasiki disse ao marido que viajaria para trabalhar em um orfanato em Istambul durante algumas semanas e levaria o filho de 4 anos. Mas tomou a rota dos jihadistas até o sul da Turquia e a Síria. Instalada no quartel-general do EI em Raqqa, a realidade da vida cotidiana foi diferente do “paraíso” pintado por seus amigos. Kasiki recebeu ordem só sair acompanhada e coberta da cabeça aos pés, entregar o passaporte e restringir as comunicações com a família na França. 

Na maternidade dirigida pelo Estado Islâmico, onde devia trabalhar, ficou chocada com as péssimas condições, a indiferença ao sofrimento dos pacientes e a hierarquia que colocava “arrogantes combatentes estrangeiros” no topo e os sírios na base. O apartamento a ela destinado tinha sido abandonado às pressas pelos proprietários sírios, e seus canários engaiolados serviram como uma metáfora cada vez mais poderosa para o confinamento dela e de seu filho. 

Kasiki levou dez dias para despertar do seu “torpor paralisante” e perceber o terrível erro, estimulada pelas mensagens e fotos enviadas pelo marido desesperado. “Eu pedia para voltar. Todos os dias eu dizia que tinha saudade da família e meu filho precisava ver o pai. No início deram desculpas, depois ameaças. Disseram que eu era uma mulher sozinha com uma criança, não poderia ir a parte alguma e se tentasse seria apedrejada ou morta. Tive terror de ser presa e ter de deixar meu filho com eles. Eu falava com ele o tempo todo, para gravar que seu pai e eu o amávamos, que ele devia ser bom para as meninas, na esperança de que entendesse e se algo me acontecesse e ele caísse nas garras do EI ele ouviria minha voz na cabeça e não conseguisse matar...”

Quando um dos franceses pediu para levar o menino para rezar na mesquita, ela retrucou: “Tire as mãos do meu filho”. A reação foi um soco no rosto. “Eu estava em uma cidade estrangeira onde não conhecia ninguém e não falava a língua. Olhei para meu filho e percebi que cometera o pior erro de minha vida. Tinha de ser forte e fazer o possível para tirá-lo dali.” Os franceses praticamente prenderam Kasiki e seu filho na madaffa (casa de hóspedes), com outras dezenas de estrangeiras, onde ela ficou chocada ao ver criancinhas assistirem às execuções do EI na tevê, enquanto as mães aplaudiam e gritavam. “Elas viam os combatentes como príncipes encantados, homens fortes e poderosos que as protegeriam. A única maneira de sair da madaffa era casar-se com um deles. Seríamos ventres para fazer bebês para o Estado Islâmico.”

No dia seguinte, enquanto seus carcereiros organizavam um casamento, Kasiki achou uma porta destrancada e saiu com o filho. Seu relato da fuga de Raqqa é material para filmes de suspense. Depois de recebida por uma família local que arriscou a vida ao abrigá-los, fez contato com combatentes da oposição síria, mobilizados pelo marido na França. Na noite de 24 de abril de 2015, um jovem sírio a levou de motocicleta, com o filho escondido sob a túnica, até a fronteira turca. Se tivessem sido apanhados, todos teriam sido executados.

Em Paris, Kasiki foi interrogada por oficiais da inteligência, ficou presa por dois meses e não pôde ter contato com a família. Hoje está reconciliada com o marido, mas ainda pode enfrentar acusações de sequestro de criança. 

“Fui ingênua, confusa, frágil, mas como aqueles rapazes comuns, não muito inteligentes, conseguiram lavar meu cérebro? É uma pergunta que ainda me faço. Sempre me sentirei mal por ter levado meu filho para aquele pesadelo. Agora tenho de impedir outras pessoas de serem atraídas para esse horror. O que posso dizer? Não vão!” 

*Publicado originalmente na edição 884 de CartaCapital, com o título "Jornada para o inferno"