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Número 883,

Cultura

Livros

Uma crônica do Brasil

por Ana Ferraz publicado 17/01/2016 08h02
Lançamentos relatam a luta para preservar tradições como o batuque de umbigada, o bumba meu boi e a música caipira
Andrea de Valentim
Associação-Cultural-Cachuera

Batuque na Associação Cultural Cachuera!, em São Paulo

Anecide Toledo fala pouco e canta muito. Saia florida, turbante colorido, colares de conta, quando se achega ao microfone impõe respeito. Primeira mulher a entoar o batuque em Capivari, interior de São Paulo, viu os homens recuar diante da força de seus versos.

A ex-gari traz viva na memória da pele cada cicatriz da alma e é no improviso que exprime suas dores: São João que me perdoe/Do que eu vou falar aqui/Precisa acabar racismo/Dentro do Capivari. A oprimir-lhe o peito o passado não tão distante em que um portão separava brancos e negros na praça da cidade e a lembrança da sobrecarga de trabalho.

“Me tratavam diferente por causa da cor da pele. Componho modas para manifestar meu sentimento.” A menina que se tornaria a grande dama do batuque começou aos 12 anos na dança. Aos poucos seu talento de versejadora venceu a resistência masculina. “No começo, o pessoal ficou meio assim, parece que não gostou da ideia, mas teve que gostar.”

O batuque de umbigada, manifestação de origem banto, remonta ao século XVI. Em 1992, o etnomusicólogo Paulo Dias começou a se interessar por essa cultura qualificada por ele como afrossubterrânea, que atraía pouca atenção, a não ser dos folcloristas.

A partir de pesquisa em casas de candomblé, o músico, então pianista do coral da USP, ampliou o leque de estudo para outras tradições de matriz africana. Saiu a campo com gravador e filmadora em busca de cancioneiros populares, cujas melodias transcreveu para partituras. “Me interessava ir atrás de músicas em risco de extinção.”


Conheceu os pontos de jongo e chegou às modas de batuque, ritual de dança e canto. “O batuque é a África. Os velhos, quando cansaram, nós é que ficamos tocando a coisa, porque eles já vinham cantando desde o tempo do cativeiro.

Mestre-Apolonio
Mestre Apolonio Melonio, 90 e tantos anos, "quem me governa é o boi" (Márcio Vasconcelos)

E nós éramos da liberdade”, conta Rei Domingos, filho de escravos nascido em Tietê, em 1892, em cuja longa existência de 106 anos cultuou a herança dos ancestrais. Este e outros depoimentos resultantes de 20 anos de pesquisa estão no livro Batuque de Umbigada, Tietê, Piracicaba e Capivari – SP (Edições Acervo Cachuera, 284 págs.), registro precioso de uma tradição.

Dias chegou ao batuque por meios informais. Em praças, festas públicas e mercados municipais puxava conversa com os moradores mais antigos e acabava por descobrir onde se daria a reunião. “Os terreiros eram espaços das comunidades onde eu e o grupo de pesquisa Associação Cultural Cachuera! éramos os únicos brancos.”

O som a reunir homens e mulheres, postados em fileiras paralelas, tem forte marcação do tambu, o tambor escavado em tronco de árvore, resistente, símbolo de ancestralidade. Guaiá em mãos, chocalho auxiliar na marcação do ritmo, os homens vão até as mulheres e por alguns segundos juntam ventre com ventre.

“A origem do gesto é a concepção da vida, uma união de forças capaz de equilibrar energias masculina e feminina.” Primeiro canal de alimentação, na cultura banto o umbigo é considerado a boca primordial, fonte permanente de nutrição espiritual.

No documentário que acompanha o livro, Antonio Candido relembra a visita feita com Roger Bastide, em 1945, à cidade de Tietê, onde o batuque causava comoção social e alinhava classe média e Igreja no combate à manifestação considerada lasciva.

“Os decaídos da classe dominante eram inseguros, não queriam ser confundidos com os batuqueiros. Um dos grandes esforços das classes dominantes brasileiras é afirmar sua brancura, sempre duvidosa.”

Em outro trecho, o sociólogo dá seu parecer sobre a polêmica coreografia: “Para quem pratica o batuque, a umbigada é um passo de balé”.

Dias tornou-se assíduo nas festas de terreiro. “Estar junto é uma forma de aprendizado.” Participar todo ano das celebrações principais, realizadas no Dia de São Benedito, em setembro, ou no Sábado de Aleluia, acabou por incentivar a recuperação do batuque.

“Em Tietê, pouca gente aparecia. Os jovens achavam que era coisa de velho. Os brancos não iam, era coisa dos negros. Começamos a levar músicos, artistas e isso revigorou a tradição. Em Piracicaba, os lugares de batuque voltaram a encher. Em Rio Claro, onde desde os anos 1980 essa tradição não existia mais, houve um movimento de revalorização.”

Nas regiões do Oeste Paulista onde o racismo é forte, o batuque é um libelo pela liberdade de festejar as raízes. Nos terreiros da periferia, as modas expressam mazelas e alegrias.

Muitos cantos evocam o cativeiro e as mensagens surgem entremeadas de alusões cifradas. Eu quero cantar um pouco/Linha do tatu pombinho/ De dia mora no mato/ De noite sai no caminho, diz a letra de autoria de Gilberto Assunção e Paulo Bonilha.

Tonico-e-Tinoco
Tonico e Tinoco, no topo da lista dos campeões de venda de discos (Clóvis Ferreira/Estadão Conteúdo)
A expressão tatu pombinho refere-se aos capitães do mato, contratados pelos donos de escravos para prender fugitivos. O professor de música Affonso Dias, de Conchas, registrou em nanquim o batuque nas décadas de 40 a 60, ilustrações distribuídas pelo livro.

Se o batuque de umbigada encontrou um caminho de revalorização, o bumba meu boi do Maranhão enfrenta o desafio de garantir a continuidade. Para recolher depoimentos para o livro Os Senhores Cantadores, Amos e Poetas do Bumba Meu Boi do Maranhão (Edição do Autor, 136 págs., 200 reais), o cantor, compositor e percussionista maranhense Papete percorreu o estado acompanhado pelo fotógrafo Márcio Vasconcelos e uma equipe de cinegrafistas.

“Há alguns anos me dei conta de que vários amos do boi estavam morrendo e decidi que era preciso registrar sua história. Meu objetivo foi dar dignidade aos mestres e colaborar para que a tradição não pereça frente à invasão de ritmos duvidosos que ganham cada vez mais espaço nos meios de comunicação.”

Dos 240 grupos de bumba meu boi do Maranhão, o músico selecionou os 34 mais representativos. “Fotografei, gravei, ouvi as músicas e as histórias de vida dessa velha-guarda que está desaparecendo.” Religião, misticismo, encantaria, folguedo, a tradição mergulha no sacro e se reveste de profano, expresso na riqueza das roupas dos brincantes, salpicadas de vidrilhos, contas e rendas. 

Amos, os tiradores das toadas, cantadores e poetas são os mestres dessa que é a maior festa popular do Maranhão. “Eu já brinquei de tudo, mas para mim o boi é que me governa, me comanda”, declara Apolonio Melonio, “90 e tantos anos”, orgulhoso a ostentar o chapelão com aba de penas, fitas e São Jorge bordado no centro. Ex-estivador, o mestre de porte nobre é um dos mais respeitados cantadores e poetas do boi. 

Papete teme pelo fim da tradição. “As novas gerações não querem assumir a responsabilidade, não querem aprender as toadas com os mais velhos. A eles interessa o funk, o reggae, a balada”, lamenta o músico, que perambulou quatro anos em busca de patrocínio para o projeto, enriquecido por quatro DVDs com a íntegra das entrevistas e um CD com 60 registros musicais.

Outra riqueza da música brasileira, a moda caipira, junta-se aos lançamentos editoriais com nova edição do livro de José Hamilton Ribeiro publicado em 2006 e esgotado havia três anos.

Em Música Caipira: As 270 Maiores Modas (Realejo Livros, 440 págs., 79,90 reais), o jornalista e escritor mostra qual é a música sertaneja verdadeira, algo bastante distinto da “música sertaneja que parece de motel”.

Divide a curadoria com dois violeiros, Júnior Borges, de Uberaba, e o médico e catireiro José Maria Campos, de Bom Despacho, e enumera a crônica poética de centenas de compositores. Algumas dessas joias estão num DVD anexo.

Em outro, a última entrevista de Tinoco, um encontro com Inezita Barroso e depoimentos importantes, como o do pesquisador e músico Ivan Vilela, renovador da linguagem da viola caipira.