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Número 883,

Sociedade

QI

Sexo & Cia

por Nirlando Beirão publicado 04/02/2016 18h43, última modificação 07/02/2016 09h04
Jack, Jackie, Bobby, Lee, Marilyn, Onassis, Callas – poder, dinheiro e libido na Camelot dos Kennedy
Ron Galella/WireImage/Getty Images
Kennedy

"Dinheiro compra tudo. Até o amor verdadeiro" Nelson Rodrigues

A mítica Camelot, reduto medieval do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda, sempre enevoada pelas brumas de Avalon e encantada pelos sortilégios do mago Merlim e da fada Morgana, tinha como  vício  único os duelos de espada com os invasores saxões, até que, de repente, Sir Lancelot, o favorito da corte, se metesse sob os lençóis da rainha Geneviève, em sinistra perfídia da qual o venerável soberano jamais iria se recobrar.

As peripécias da lenda arturiana iriam – trocando-se as liças bélicas por um insaciável show de descargas hormonais sem nenhum compromisso com a ética conjugal – assoalhar o carisma de outra Camelot fictícia: aquela que buscou legitimar, séculos depois, nos Estados Unidos, com atmosfera monárquica, a dinastia republicana dos Kennedy.  

Consistiu, essa Camelot de mentirinha, numa inteligente estratégia de marketing intuída não por John, o Artur revivido, na vida real um adúltero serial e até mesmo incestuoso, capaz de se revezar por três anos com seu irmão Bobby no leito da estrela número 1 de Hollywood, mas por Jackie, sua mulher, a qual, por trás da resguardada fachada de esposa devota e resignada, escondia uma Geneviève vingativamente voluptuosa. Disposta, aos olhos de um público iludido, a traduzir o mito medieval em lenda contemporânea, Jacqueline premeditou uma entrevista para a revista Life com o historiador Theodore H. White – autor de um livro sobre a campanha presidencial de 1960. O termo Camelot ganhou as manchetes e a América engoliu a simulação.

John-Kennedy
Por três anos, John e Bobby se revezaram na cama de Marilyn Monroe (Express/Getty Images)

A Camelot dos Kennedy foi uma tremenda bacanal, no qual Jack e Jackie – nunca juntos, diga-se – fizeram as honras da casa, numa sequência sôfrega de triângulos eróticos, e quadrados libidinosos, e quartetos lascivos, e hexágonos lúbricos, e poliedros promíscuos, geometria carnal que faria Bill Clinton, vítima de uma solitária libertinagem, parecer um sacristão. 

Coube a Peter Evans em seu Nêmesis (Editora Intrínseca, 367 págs., R$ 49,90) – publicado no Brasil com o expressivo subtítulo: “Onassis, Jackie O e o triângulo amoroso que derrubou os Kennedy” – produzir o minucioso acervo dessa esbórnia toda, na qual o poder e o dinheiro – muito poder e um excesso de dinheiro – serviam de combustível à libido. Evans, autor de uma biografia de Aristóteles Onassis, morreu em 2012. O gossip em Hollywood é que Fernando Meirelles estaria pronto para levar Nêmesis às telas.

Poderia começar pela cena do jantar na Casa Branca naquele mesmo dia em que milhões de pessoas, mundo afora, haviam testemunhado, com lágrimas nos olhos e agonia no coração, o enterro de John Kennedy, assassinado em Dallas, e o sofrido transe da viúva e de seus dois filhinhos. O luto recomendava recolhimento familiar e, no entanto, à mesa do clã Kennedy, lá estava o controvertido magnata grego Aristóteles Onassis – na condição de que mesmo? 

Onassis hospedou-se na própria Casa Branca – antes mesmo de o sucessor de Kennedy, o vice Lyndon Johnson, aparecer para ocupar os aposentos presidenciais. Chegou ali com a convite de Lee Radziwill, irmã de Jacqueline, e do marido dela, Stanislas Radziwill. Ou seja, de repente um milionário estrangeiro que andava sempre às turras com as autoridades americanas por questões de Fisco e comércio – e que se tinha prometido jamais botar os pés naquela América que o desprezava tanto quanto invejava sua fortuna – usufruía, em ocasião lúgubre, de um privilégio extraordinário.

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Dois meses depois do constrangedor aniversário de 'Mister President', Marilyn se matou (Cecil Stoughton/Time Life Pictures/Getty Images)

“The Greek” – como Bobby Kennedy iria pejorativamente jogar na sua cara, à sobremesa daquele jantar tribal – chegara à Casa Branca no enquadramento de um triângulo amoroso que logo revelaria um formato ainda mais elíptico. Aquele armador feioso com arcabouço de estivador mantinha um longo affair com Lee, sob os olhares tolerantes  do marido dela, um soi-disant príncipe polonês que chegara em Londres a bordo de uma fortuna surrupiada da Cruz Vermelha suíça. Faziam parte do jet set londrino. Aquela gente para quem títulos de nobreza decorativos só se completavam de verdade no usufruto de amizades endinheiradas. 

O convite que Lee fizera a Onassis para a estada na Casa Branca era, na verdade, um convite da própria Jackie, resguardando-se o decoro da viuvez. A então primeira-dama dos EUA, um mês antes da morte do marido priápico, desfrutara de uma noite de sexo rasgado com “O Grego”, numa cabine vizinha à da irmã, a bordo do iate Christina, quando ela, Jacqueline, se refazia, no mitológico Mar Egeu, das dores pela morte de um bebê prematuro (Patrick sobreviveu apenas por três dias). Kennedy sequer visitara a mulher no hospital. Suspeitava que o filho não era seu, e sim resultado de uma incursão relâmpago da primeira-dama junto aos travesseiros de William Holden, o consorte marombado de Kim Novak no filme Picnic (que no Brasil ganhou o irônico título de Férias de Amor).

Represálias fugazes, as de Jackie, na comparação com o incêndio de testosterona que era o marido-presidente. JFK reuniu um estrelado acervo de conquistas: Audrey Hepburn, Angie Dickinson, Janet Leigh, Jayne Mansfield e Rhonda Fleming. Mas a maior humilhação, para a esposa, era aquele ménage à trois que John e Bobby mantiveram com Marilyn, com ápice no constrangedor espetáculo público do “Happy Birthday, Mister President”.  

Jackie
A viúva Jackie convenceu a quem queria crer na dinastia republicana. Casada, vingou-se de Jack nos braços de William Holden (CBS Photo Archive)

Dia 19 de maio de 1962, Madison Square Garden em Nova York, 45 anos de Kennedy. Espremida num traje que lembrava uma sereia fora do peso, a atriz mostrou-se visivelmente perturbada pelo bullying tramado pelos irmãos cara de pau. Jackie não deu o ar de sua graça (quando Marilyn se matou, dois meses depois, Bobby Kennedy despachou o cunhado Peter Lawford para checar, antes da chegada da perícia, se havia ali algo que comprometesse ele e o irmão).

Na ausência contumaz do maridão emburrado e insensível, o encontro com Onassis se revelaria bastante proveitoso para Jackie. O magnata ofereceu às duas irmãs o consolo discreto, a salvo dos paparazzi, de sua carruagem dos mares, o Christina, de três chefs de cozinha, de dois cabeleireiros franceses, de muito champanhe Cristal, caviar de beluga e violinos ciganos. Acabou por oferecer à inconformada Jackie um pouco mais do que isso. 

Lee não teria feito o convite para Onassis se hospedar na Casa Branca, na noite infeliz, se isso não fosse ideia da própria Jacqueline, interpretou o escritor Truman Capote, confidente da princesa Radziwill. “Lee estava perdidamente apaixonada pelo Grego de Ouro”, contou Capote. “Mas era uma imbecil, fez direitinho o jogo de Jackie.” 

Quando Onassis entrou no circuito, Lee, quatro anos mais nova que Jackie, via-se mais uma vez relegada à sombra da majestosa irmã. Mas, nessa trama alucinada de traição, clandestinidade e peçonha, a caçulinha também sabia operar suas vendetas. Suspeita-se de ter cedido ao assédio do cunhado quando Jackie, no hospital, acabara de dar a luz à  primogênita Caroline, em 1957. De concreto, sabe-se que ela substituiu Jackie grávida na histórica viagem do presidente à Alemanha, em junho de 1963. Aquela em que Kennedy proferiu a famosa frase: “Ich bin ein Berliner”. Cumpriu – diz Peter Evans – todas as obrigações protocolares de primeira-dama substituta. Distraiu também Kennedy fora do cerimonial.   

O casamento de Jackie e Jack era de fachada – o círculo íntimo da Camelot de Washington tinha ciência disso e a imprensa, atrelada a um pacto de silêncio paranoico contra os inimigos eternos da Guerra Fria, acobertava as travessuras da Presidência, as políticas e as sexuais. A mídia era cúmplice, mas Jackie, ao se envolver com um personagem como Onassis, de fortuna escusa e passado ignoto, cujo mérito maior era o de ser o homem mais rico do mundo, desferia um tapa direto e vingativo no rosto hipócrita do establishment. A união só era mantida em nome da reeleição do John, em 1964 – que o atentado de Dallas impediu. 

O zelador da moralidade alheia era Bobby, tão inescrupuloso quanto o irmão. Tratou de oferecer um ombro suspeito à cunhada viúva – e afagos por baixo da mesa. Por isso, a sombra de um personagem como Onassis o inquietava tanto. Jackie tentou salvar as aparências até que o próprio Bobby, pré-candidato à sucessão de Johnson, foi assassinado em 1968. O esquisito casamento da princesa de Camelot com o plebeu dos petroleiros podia, enfim, se realizar.

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Ari mostra a Jackie o seu artefato de sedução (AFP)

Quem acabou tendo de ir cantar em outra freguesia, ao fim de um conúbio íntimo que começara em 1957, foi a soprano Maria Callas. Ela e Ari costumavam protagonizar cenas tórridas até mesmo no banco de trás da limusine. Callas estava no iate Christina, em outubro de 1968, quando Onassis a convidou a desembarcar; a nova favorita estava a caminho. No dia do casório, 19 de outubro, o céu caiu sobre a ilha privada de Skorpios. Os deuses gregos se pronunciavam. 

Com Jackie era business as usual: Ted Kennedy, o irmão sobrevivente, foi acertar o pacto nupcial da cunhada e pediu 100 milhões de dólares para assegurar o futuro da cunhada e dos sobrinhos. Onassis regateou. Acertou em 20 milhões – que o contador de Jackie cobrou à vista. O noivo sem brasão também depositava na ex-princesa de Camelot altas quimeras comerciais.

Sempre vigiado pelo armador Stavros Niarchos, duplamente rival (nos negócios e na cama, já que Niarchos seduziu Tina, a primeira mulher de Onassis, para obter inside information do concorrente), Onassis pretendia usar a ex-sra. Kennedy para se aproximar, com argumentos mais sedutores do que o habitual expediente de lubrificar as mãos dos intermediários, da junta de coronéis que tomara o poder na Grécia. Jackie recusou-se a entrar no jogo. Dois dias após o casamento, Ari se queixava, em Londres, que aquilo lá tinha sido um erro.  

Onassis morreu em 1975. Tinha 75 anos (e não 69, como fingia). Jackie estava à beira de seu leito de morte. Ela celebrou “os muitos momentos belos” que tiveram juntos. Maior deferência foi manter, até a sua própria morte, o sobrenome que a insincera nobiliarquia de Camelot tanto menosprezava. Sua lápide diz: “Jacqueline Bouvier Kennedy Onassis, 1929-1994”.