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Número 883,

Cultura

Cinema

O lugar do sonho

Versão restaurada de Oito e Meio traz as sombras da criação de Fellini
por Rosane Pavam publicado 17/01/2016 08h02
Oito e Meio

Um filme sobre o cinema, um filme que é o próprio cinema

Doce Vida lhe dera a fama de escândalo junto à Igreja e as portas abertas ao cinema. Federico Fellini havia então acertado um novo longa com seu produtor, mas corria 1962 e ele não conseguia dizer a Angelo Rizzoli sobre o que filmaria. O argumento parecia claro, contudo, após sua visita a uma estação termal. O diretor relataria a própria crise como artista e colocaria sobre ela as sombras do passado. Seria sua obra de número “oito e meio”, realizada após seis longas de autoria própria e três “metades”, dois curtas em filmes de episódios e uma direção na companhia de Alberto Lattuada.

Oito e Meio se tornaria a obra-prima felliniana, a significar tantas outras coisas além daquele revolver de um poderoso eu. Era um filme sobre o cinema, era o cinema. Ainda que sempre alegasse não ter o que dizer em seus filmes, Fellini orgulhava-se de expressar o não dito, como se poderia verificar desde a exuberante primeira sequência.

Mastroianni
Mastroianni, ainda juvenil, parece saído de uma página de Winsor McCay

 

Preso ao tráfego, Marcello Mastroianni olha angustiado para os ocupantes indiferentes de outros automóveis, às vezes congelados em fotografias. E como fugir desse lugar? Todo o filme, que agora se pode saborear como um sonho, restaurado em tela grande, parece expresso nesse início algo saído de uma história em quadrinhos, aquelas que o próprio Fellini sabia desenhar.

A ficção navegava em torno da contradição da fé familiar, do difícil confronto com a expectativa paterna, de um perigoso reviver da figura da mãe, que por alguns segundos, no filme, parecia querer beijar sensualmente o filho. As figuras femininas se sucediam, crescentes e exigentes. Anouk Aimée, que para Fellini representava “esse tipo de mulher que nos perturba até morrer”, com uma “sensualidade quase metafísica” escondida sob a máscara de menina, interpreta a esposa do diretor de cinema Guido Anselmi. E Marcello Mastroianni o vive de modo a aumentar Fellini, caricaturizá-lo diante daquela Claudia Cardinale que encenava a perfeição. 

Era igualmente uma obra sobre a viagem interna de um intelectual, sempre um “desesperado” nos filmes do cineasta, como escreveu Italo Calvino certa vez. Mastroianni interpretava o tipo suspenso no ar, sensível como Fellini, mas ainda juvenil, cínico enquanto sonhador, quase saído de uma página desenhada por Winsor McCay, ídolo do cineasta em um século precedente.  

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